
Cântico
Data 28/10/2012 11:23:38 | Tópico: Poemas
| Malgrado digam: Tudo o que cantas Não inspira, Não me importo. Vivo assim: Dentre tantas mentiras, Escolho uma ou duas Que, ao menos, Façam sentido pra mim. Por isso, amigos, Se quiserem, Me acusem de poeta cínico Ou de ter partido As asas do querubim.
Malgrado digam: Tudo o que cantas É mentira! Não me importo. Em verdade tudo transformo Ao som da lira, Porque gosto De verdades mentidas E gozo Ao ver aqueles Que ainda crêem Em coisas absolutas Na vida.
Malgrado digam: Tu és louco! Teu canto É nada ou pouco, Não me importo. Torno-me os versos O meu reverso E os ofereço a todos Sem esperar nada, Nenhum troco Ou que percebam O próprio engodo.
Malgrado digam: Tudo o que cantas Está morto Ou morrendo está, Com isso me rejubilo, Por saber Que componho um hino A todos fraterno, Que nos deixa isentos E desnudos do fardo De sermos eternos.
Malgrado digam: Vives da rapina Do dia-a-dia, Transformas a poesia Na nossa ruína, Não me abato; Escrever só nos lancina E nos inocula Com o mundo E a estricnina.
Malgrado digam: Tudo o que cantas Faz-me sentir Num exílio, Não há encanto, Nada de sublime No teu canto, Não me espanto. Não há como atingi-los Sem antes Cometer-se um crime, Expor numa vitrine Tudo o que nos reprime Para a quebrarmos Beligerantes.
Malgrado digam: Só amas o chão, O parco instante, Não me importo. A terra, o céu, O sol radiante, O corpo vão, Tudo o que vês Perecerá Nesta láctea via De fluidez.
Malgrado digam: Tudo o que cantas Te vai mandar Para o inferno, Não me importo. Sei que nada é fixo Ou sempiterno E que, como todos Que se persignam Com crucifixos Ou que não crêem Na parasceve, Em breve, Me tornarei pó, lodo, Enquanto cantam Os rapsodos.
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