
Livre Condenação
Data 29/11/2007 02:28:09 | Tópico: Poemas
| “O homem está condenado à liberdade". Tal é a máxima sartreana, inúmeras vezes citada, que se tornou um lugar comum ao se falar em liberdade. Por que condenado? Afirma Sartre, que a essência do homem é liberdade. Os homens fazem a partir da liberdade, o que bem entendem de si mesmos.
Menina eu podia tudo! Não me sabia, era nada; só olho, pele, projetos... Amontoado feliz de células.
Assim via os vaga-lumes na noite, Clareando com pontos brilhantes, Os pastos silenciosos e frios, Sentia o cheiro bom, Do estrume de gado e dama da noite, Misturados ao som dos grilos.
Assim, ouvia o mugido longo, Das reses chamando os filhos, O vento marulhando casuarinas, Os sabugos cavalgantes, Os trens de besouro e caixa de fósforo, A vitrola de corda tocando Sabiá no Terreiro, O gosto mágico do limão-doce, O suco das mangas escorrido, Pelos braços e pingando nos cotovelos.
O som oco e sonoro, Da batida das porteiras, As canecas de leite espumoso, Tomadas na cerca do curral, A chama acolhedora, Do fogão de lenha crepitando, O Tlec-tlec sacolejante do ferro de passar, Nas mãos caprichosas avivando as brasas, Da primavera florida no caramanchão.
Do vermelhão luzidio do alpendre, O sono sob o piano, Ouvindo o Noturno de Chopin, Nos gestos balouçantes, Do corpo da minha mãe; Suas mãos vivendo a música, Viajando longe na saudade da sua terra.
Tudo isso me fez.
De valia, nem a saudades!
Pena, pena mesmo, Eu ter escolhido a dor, Difícil caminho de pedras, Liberdade de amar, Liberdade de não ter paz, Liberdade de ser só.
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