
Cetáceo
Data 24/09/2012 11:58:51 | Tópico: Poemas
| I
Do barro ao macadame, Do macadame ao asfalto, Dos cortiços e casarios aos prédios, Dos prédios aos arranha-céus, Das vielas às alamedas Das alamedas às intermináveis auto-pistas, Gerei-me, formei-me e cresci incomensurável – Criança desmamada nos peitos Da fome e da exploração.
Cresci, bebi e fartei-me na burra de Balaão, Nas tendas dos vendilhões do Templo, Na bolsa dos mercadores sefarditas, Dos italianos, burgaleses, flamengos e alemães, Na usura dos Beneviste, dos Évora e dos DiNegro, No ouro do Sudão, na prata de Potosi, Nas feiras e praças de Antuérpia, Lyon, Frankfurt e Gênova, Na cavalaria de Oliver Cromwel, Nos jacobinos decapitados, No assassinato de Marat, Na execução de Danton, No golpe do nove Termidor, Na bengala brilhante dos Barões, No Consulado de Bonaparte, Na Batalha de Trafalgar, Nos canhonaços de Villeneuve e Nelson, Nos bolsos endinheirados De Ford e Rockeffeller, No esquadro e compasso De Niemayer, Gropius e Le Corbusier.
Cresci, bebi e fartei-me Nos Senhores que escravizaram seus servos, Nos espoliadores dos povos, Nas marteladas dos operários, Nas mães que venderam seus filhos Nos mercados e fábricas, Nos homens que assistiram passivos As mães e esposas se prostituírem. Cresci, bebi e fartei-me No Congresso Anarquista Internacional, No luta e no sonho unionista De Pelloutier, Proudhon, Monatte e Malatesta, No mito de Geroges Sorel, No sonho acalentador De Vladimir, Rosa e Leon Que agora é espinho e fere.
Hoje, vegetal, enredo-me Por toda a vida que acorda e adormece, Que come, bebe, veste, ama e fuma, Mas jamais se farta, Pois deseja o que não é desejo, O não-desejo que brota fora da carne, Neste vasto cipoal Que dificulta o trânsito E contém as mãos, o afago, o beijo, Insinuando-se por todos os corações Com tudo que jamais farta; infarta!
Sabes quem sou? Eu, espasmo dos séculos, Estorvo dos desuses, Sempre adverso ao mundo natural, Uma outra natureza Intrusa da ordem e do Século Que impôs aos homens Seu mandato e regra, A despeito de tanta labuta, de tanto suor E do clamor ignoto da populaça?
Meu nome é Cetáceo – Rara jóia de Caim e de Nimrode, Ouro nos dedos do feliz burguês, Frio cálculo da razão e da mais-valia À imagem e semelhança Do rito que sacrificou o mito Nos altares embebidos de sangue e miséria. Eu, Sodoma e Gomorra, Mamon, Babel, Tebas de cem portas, Big Apple!
II
Já os primeiros raios de sol Batem nos olhos do monstro, E ele arfa, bufa. Da madrugada de tiros e sirenes, De álcool e tranqüilizantes Nasce mais uma alvorada, Não de galos ou pássaros, Mas de um sol bestializado, Para uma manhã metálica, De cobre e fiação elétrica, De asfalto e condução Que já vai lotada para o centro Desde às seis horas da manhã, Repleta de gente mal-dormida, Babando no ombro alheio. O cetáceo não dorme Apenas se lembra que é mais um dia Para quem tentou dormir E urra da tv e do rádio: “- Oi, bom dia, estamos aqui Na 101,5 mais uma vez juntos, É hora de acordar. Faz sol lá fora E o dia promete ser quente. Meu nome é tua cara, teu lábio e tua tara E eu tenho um recado para você Que me leva no trem, no carro, ou a pé Desde a infância até o escritório: - Todos em mim, todos em mim, A trabalhar, a trabalhar, A produzir, a produzir! A matar e a odiar, A reclamar e a adoecer, A se encarar e se espremer, A esperar e a bocejar Nas filas, peças de dominó, A xingar e a calar, A temer e a acreditar, A praguejar e a aceitar, A beijar e a escarrar, A odiar depois de amar, A comer e vomitar, A chorar e trabalhar, A sorrir sem ter o que, A dormir ante a TV, A caminhar e viajar Com o cotovelo Na cara de outrem, Bicando o calo alheio, Pedindo licença A pernas, bundas e pés, Enquanto tenta amar E chegar ao trabalho.
Vamos seguindo aqui Nas entranhas do monstro E não se esqueça: - Cuidado nos cruzamentos O trânsito está complicado E a impaciência é grande, Atenção ao sinal: - Vai ficar amarelo, agora, vermelho, Podeis prosseguir. Marchai! Marchai para os consultórios! Marchai para as repartições! Marchai para os escritórios! Marchai para as viaturas! Marchai para os guichês! Marchai para os bancos! Marchai para as estações! Marchai pelas avenidas! Marchai para os aeroportos! Marchai sem qualquer porto! Marchai por aí louco e torto, Reto e morto, Rei deposto, Marchai para o posto E enchei o tanque e o coração De álcool e mau gosto, Marchai para vossos lares! Marchai para mim, em mim, de mim, Marchai, marchai, marchai, marchai, Marchai, marchai, marchai, marchai Marchai, marchai, marchai, marchai, Marchai, marchai, marchai, marchai, Devorai!!! Os próprios filhos E a carne irmã, A própria vida Assim mesmo: Putrefata e malsã, Vagando a esmo A trabalhar, a trabalhar, A produzir, a produzir, A execrar, a execrar Quem não quer profissão Para alimentar de sangue e cifras O imenso coração do cetáceo! Cansai, cansai Dormi, dormi...” Mas insone o poeta diz: "- Não tenho lugar aqui!" Ao que logo o monstro replica: "- Tolo, eu sou todo o lugar E lugar nenhum, Consciência e desdita Que aferroam todo o dia. Dormi, dormi, meu filho dileto, E continuai a berrar esse canto contra mim De todos os becos e guetos."
III
Em cada casa e beco, Um carcereiro dita as horas de sono. Não respeita as queixas dos insones, Qualquer anseio ou fome, Nem os desejos dos amantes, Brada feroz e o corpo Levanta-se autômato, zumbi, Estica os braços pálidos, de cera, Passa as mãos por cara cadavérica, Na frente do espelho Que busca refletir imagem esmaecida, A boca bafienta, Enquanto a escova passa pelos dentes E o corpo evacua medo E os detritos do dia anterior. Olhos baços, no entanto, Insistem em tremeluzir, Enquanto bebe café, lê o jornal, Pega a pasta e a marmita E mergulha nas tripas do Cetáceo.
Logo nas alamedas e avenidas Que se estendem para além Do horizonte coberto por prédios E espetaculares arranha-céus É conduzido com todos às obrigações diárias Sem nenhum desejo para sentir, Sem nenhuma palavra para negar, Sem memória que recorde do corpo, o ser, História e sentido que restaurem O fio partido, algo que um dia Chamaram de espírito e utopia.
E a despeito de tantas discussões, De algaravias e de mortes, Do jogo e das apostas, Das drogas e das mulheres, Do sexo e das certezas Cuspidas e fumadas, De tanto arroto e bocejo, De tanto riso e bravata, De tanta fumaça e loucura, De tanto susto e silêncio Dos lares contíguos, Amontoados dos subúrbios, Das mães que oferecem o peito mesquinho Do consenso geral Aos filhos do próximo século, Sois corpo, nada mais do que corpo Insuspeito!
O Cetáceo sorri e se regozija. Exibe as magníficas E complicadíssimas entranhas, Os caminhos a seguir, O tempo a cumprir, Os papéis a assinar, O status desejado, A vida mais que determinada. Ele tripudia, mostra sua escória, Os filhos desejando o próprio ventre, Devorando-se entre tiros e abutres. Sorri sardônico, porque sempre Haverá uma mulher ou um menino A nos oferecer sexo e cigarros.
Eleva-se à mais alta Das protuberâncias do seu estômago, A mais ingente de todas as babéis Para contemplar magnífica visão: O bonde fiel aos trilhos, O homem fiel à vida, A vida fiel ao corpo, O corpo fiel à maquina, A máquina fiel ao monstro. “- Que magnífica visão!” O cetáceo rejubila-se, De Wall Street manda-nos um beijo, Da Ilha de Manhattan saúda a todos A lutar pela ração diária das vitrines, Dos anúncios e das meretrizes, Pois ainda que uma mulher Solte os cabelos e se jogue pela janela, Que uma criança nasça Coberta de sangue e avenida Ou um velho corra nu pela auto-pista Tudo sempre será o que foi: Tráfego e Multidão.
“- Que magnífica visão!”
IV
À noite, as casas e os prédios Recebem seus suarentos habitantes. Os armários recebem cintos e gravatas. “Boa noite, caro ouvinte, Caro ouvinte-telespectador, Boa noite de sono e traqüilizantes E não se esqueça: Amanhã, tem mais, Amanhã, eu volto Para de novo cuspi-lo Em dias que insistem em nascer – Dormi, dormi...”
V
Mas no outro dia, Em qualquer dia, 05, 07, 11 ou 16, 23, 19, 21 ou novamente 11; Em qualquer mês, 12, 10, 03 ou 04, 07, 09, 02 ou 08; Em qualquer ano, 98, 2004, 95 ou 72, Novamente em 98, 2001, 93 ou em 2002, O corpo travado Sem cronologia ou calendário Não acorda nem levanta. A cidade está em chamas; Nero a incendiou. O corpo está em chamas; Roma incendiada, E os aviões arremetem Contra o edifício, Despencam sobre nossas cabeças. Homens-bomba escondem-se Na garagem dos prédios, No subterrâneo dos sonhos. “É hora de acordar. Acordai! Marchai!” Já não podeis. “Marchai, autômato!” Já não quereis, “Marchai, corpo!” Já não sois. “Há algo de errado”, A programação se encerrou Sem aviso. “Há algo de errado, De muito errado mesmo...” Esta forma extrema, Escura, crisálida, Recusa...
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