
A cotovia não canta à sede
Data 16/09/2012 19:45:25 | Tópico: Poemas
| Embalo a planície da tua mão sobre a minha mão, Percorro-a com o arado dos meus dedos, Abro sulcos na terra virgem, Lanço-lhe as sementes dos teus lábios, Rego-os com uma lágrima que corre na nostalgia do sonho. Um aroma a terra húmida, embriaga O sentir da tua presença.
Trás a barca através da cortina de bruma, Senhora da madrugada alva, Minhas mãos no teu longo vestido, Remam nas águas adormecidas E deslocam remoinhos no teu corpo nu. Desfruto nas margens do segredo, O fruto azedo do teu âmago. Deixa que a barca desça selvagem O rio que nasce no vale dos teus seios, Eu afogo-me no cheiro do teu ventre No enlace das nossas tormentas, Vem senhora da barca Comigo molhar os pés, Vem sentir as pedras frias dos meus olhos, Beija-me estes lábios de vento.
Há um refúgio em ti Onde lanço os meus segredos, Não há ecos de receios nem traições. A minha boca encontra a tua boca, Entre risos e beijos. Agarras esta torrente que esta prestes a chegar, Dentro de ti descubro um mar, Eu transformo-me na onda que invade a tua praia. Por fim, adormeces, naufragas nos meus braços, Um lençol de névoa cobre os nosso corpos exaustos, Um doce odor do amor breve Denuncia a nossa primavera.
Partes devagar, Apenas pó e caminhos ficou, Dizes que alguém descobriu um pôr-do-sol Na planície verdejante do teu olhar, E que uma espiga de trigo despontou no teu sorriso.
Sei agora, que esses brincos de urze Que nas tuas orelhas coloquei, São já mirradas flores castanhas. Sabes,a cotovia não canta à sede. Mas, eu desfaleço num cântico alentejano.
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