
Faltaste ao último cigarro [Parte 2]
Data 15/09/2012 14:56:49 | Tópico: Poemas
| [II]
Declamei no segredo do Largo do Carmo A solidão da minha poesia E no final, senti as angústias do Poço dos Negros, Ao tanger com o chicote da palavra A ousadia de me inventar poeta. Das paredes do Teatro D. Maria Gritos e súplicas dos condenados Em santas inquisições Lançados às fogueiras da mediocridade medieval, A crepitar no fogo, Numa pilha de madeira das naus das más descobertas. Dirigiram-me uma gélida pergunta Num sussurro de criança assustada, Queriam saber se as fontes secas do Rossio Eram as fontes da eterna juventude. Em alegre algazarra, Dançámos no Largo de S. Domingos E entrámos pela ginjinha, Bebemos pequenos copos Da espirituosa bebida Com elas, e com eles também, (Porque nestas coisas do amor O que importa são os afectos). Soprámos os caroços Com os lábios em forma de bico Na direcção dos cus dos gatos pretos Das bruxas da rua do Crucifixo. A confusão foi tamanha, Chisparam cruzes e canhotos, Te renego e mal olhados, A polícia em estado de sitio Acorreu em passos de ballet (como só eles sabem dançar Em crescendo nas pontas da arrogância), Montou o Coliseu romano Entre viseiras e cassetetes Encerrou as Portas de Santo Antão.
Invertemos o sentido da nossa marcha E desaguámos a nossa torrente de esperança No centro da Praça da Figueira. Percorri a rua da Prata A catar as pedras da calçada. No Terreiro do Paço, junto ao Tejo Desci trôpego, Os degraus desta obscura viagem, E terminei num abismo de suicídio Com um travo a Gin estagnado A exalar-se-me da boca. Do despertar da imaginação Em que voguei nos últimos dias Encontro-me em colapso com a vida. Um imenso estrondo ao espremer os sonhos Como se estes fossem insectos voadores, Esmago a quitina que os envolve na ponta dos meus dedos. Foi então que compreendi, Eu soldado da paz a embarcar para a guerra, Que ias faltar ao último abraço Como quem falta há última dança. A segunda parte de um texto em três partes
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