
Esperando as chuvas chegaem
Data 23/11/2007 11:38:30 | Tópico: Poemas
| ESPERANDO AS CHUVAS Se aqui ocupo espaço Pra falar desta tristeza, É porque tenho certeza, Muitos hão de me escutar, Pois a água é ben¬fazeja A todos os seres da Terra. Médio, rico, indigente, Pre¬to, branco, amarelo, Toda a classe de gente Vai na água se banhar; Vai beber o seu frescor, Vai regar suas verduras, Vai gozar suas loucuras, Na água se aliviar. No mar, no rio, na cascata No ribeirinho da mata, Na lagoa ou cacimbão. De¬lícia igual não existe, Que a todos assiste, Com dinheiro ou sem tostão Pois a nossa lagoinha, Tão querida, tão faceira, Por culpa da soalheira Se botou a transpirar E se foi, desfeita em gazes, Foi sumindo, foi subindo, Querendo o sol alcan¬çar. . . Não há mais cum-cum de sapos Lá pras bandas da lagoa. Da lagoa ficou a cova, Seca, dura, esturricada, Sem bichos sem passarada, Sem meninos e canga-pés.
O pau-de-bebedouro Se atolou na lamaceira E lá ficou encalhado; Já não o empurra o gado, Arreganhando o fo¬cinho, Procurando o que beber. Que nem defunto, Reto, du¬ro, de pé-junto, Enterrado em cova rasa. . . E o chão se foi gretando, Foi se abrindo se partindo, No forno vivo do sol. O galinho-da-campina, O vém-vém, a seriema, Toda a nação pequena Dos bichinhos de pena Se apartou da lagoa. Lá fi¬cou a coitada, Preta, suja,abandonada Das belezas que pos¬suía. Já lavou tanta roupa, Já lavou tanto chão; Já foi ponto de conversa, De riso e falação. Ouviu muito mexerico De co¬madres faladeiras, De comadres lavadeiras De roupa, vida e questão. . . Já deu muita ocasião Para as moças namoradei¬ras Mostrarem o corpo bonito, Nos banhos, nas brincadeiras. Debaixo das algarobas, Dos pés-de-pau em flor, Houve muito romance, Muitos beijos de amor. Fora os pescadores, De landuá, vara e tarrafa, Que vinham com seu farnel Apro¬veitar os feriados; Lá ficavam descansados, Boa sombra, bom assento Dando goles na garrafa E tragadas ao vento. A lagoa secou. . . Olho vazado ao céu, Olho triste, resse¬cado, Chorando sem ter chorado, Sem lágrimas pra se banhar. E de noite a lua cheia Fica triste, suspirosa, Por não se ver tão formosa Na aguinha da lagoa E vai chorando pra¬teado Sobre o negrume do chão. E o vento que passa, Fininho, assoprando A queimadura, vai falando Com ternura, com cuidados, Com carinho, alisando a solidão. Os dias vão se seguindo: Já contá-los pouco importa. Para a lagoa desfeita São todos, todos iguais. O céu, lâmina de prata, Incandesce a pouca mata Sobre a terra semimorta; As nuvens que passam airosas, Tão fresquinhas transitórias, Vão contando suas histórias Do sol e do mar de anil... E a lagoa deslumbrada Com a boca escancarada, Vai gemendo tristes ais: "tem dó dos meus pezares, A arder nos meus ardo¬res Neste chão, seco e febril" Muito louca, escandalosa, A nuvem desfeita em rosa, Vai desmaiando na cor; E o sol livre da venda Que lhe tolda o fe¬ro olhar, Rutila o aço-brilho e fere, Fere profundo Todo o abandono do mundo, De uma lagoa a secar. .
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