
NO TEMPO
Data 21/11/2006 12:48:29 | Tópico: Poemas -> Saudade
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Longe vão os tempos, Dos poemas iniciais, Alimentados a álcool, Palavras piramidais.
Na mesa escolhida, Só a cadeira se alternava, O Bar era o meu Templo E à escola me furtava.
De tarde ou de noite, Todo o santo dia a escrever, Com lápis ou caneta, No papel que tivesse haver.
E da porta principal, A chuva, se caía, Acordava-me p’rá rua Que lá fora eu sabia.
E o Alfredo, Aleijadinho, Mão na perna estropiada, Falava-me da guerra, Ao som da chuva aliciada,
Dos amigos que caíram, Numa luta sem sentido, Do País, regressando, De corpo ofendido,
Nas lágrimas teimando, E da vergonha que sentira, E que ainda hoje perdura Por uma guerra de mentira.
Disto, e de muito mais, Escutava eu do Alfredo, Dos pesadelos à noite, Acordando-o para o medo
Das ruas opressivas, E na cabeça um hiato, Ou animal julgando-se, De álcool fixo no palato.
E se a conversa já ia longa, O Alfredo, Aleijadinho, Mão na perna mutilada, Sorriso de adivinho,
No seu passo trepidante, Novos rumos buscava, E absorvendo a multidão, O Rei da sala logo se julgava.
Longe vão os dias, Das tardes escolhidas, Para serem o sangue, Destas veias feridas,
Pela Espada da Poesia, Que, mais que uma opção, Surgindo do nada neutro, É antes de mais uma condição.
Jorge Humberto in Fotogravuras II
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