
PARA ALÉM DA MORTE
Data 02/08/2012 20:31:12 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| PARA ALÉM DA MORTE
Pode parecer aos outros impossível Pode ninguém acreditar Mas eu acabo de morrer. Morri quase sem dar por ela Não ainda a morte integral Essa está a acontecer gradualmente Na medida em que os neurónios Esses portadores do facho da vida Quais pirilampos mágicos Um a um se vão apagando. E eles são tantos, tantos! Agora que pouco falta Para que se apague de uma vez por todas A chama que me deu vida Tomo particular consciência desta Num estranho processo de absoluta extinção. Sim, agora vou apagar-me mesmo. Apaguei-me! Mas oh deuses Da banda de lá da morte De um tempo já sem tempo Porque deixara de o ser, Porque embarcara num infinito, Que o transporta e lhe retira o sentido Desse mesmo tempo, A noite é a mais total que conheci, A que é alheio ténue indício das estrelas. Destas guardo algo de que Os resquícios que me sobram da memória Não logram agarrar definição. Entretanto, decorrido este tempo Que viajou já pela negritude total Que não conheceu barreiras, Acontece o impensável: Um muito vago ponto luminoso, Anuncia-se-me ao longe através da escuridão Que tinha indeléveis as cores da morte Essa que eu sabia existir Mas não estava certo ainda Que fosse o fim absoluto. Esse ponto de luz chega até mim Cada vez mais intenso Impregnado de sons distantes Que eu tinha já esquecido Esses sons capazes de despertarem Remotos e celestiais mantras Começaram a emitir Para mim verdadeiros flashes de vida. Conscientizei-me de que Noutra rota, noutros caminhos Porventura mais auspiciosos ainda Acabara de entrar a minha pessoa. Num já quase êxtase Pressenti a proximidade daqueles Que haviam partido antes de mim. Tomei consciência numa serena euforia De que para mim, para o homem A morte se extinguira.
Lucius Antonius
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