
TRECHO DO POETA DA LUA
Data 27/07/2012 13:28:00 | Tópico: Poemas
| No espelho da vida desfilam todas as idades, como numa passerelle. Sintetizando: Sempre quis ser feliz. A felicidade sempre foi um ideal, um objectivo, um caminho que o levaria ao bem- estar. Rebolou montanhas abaixo na perspectiva de encontrar essa gota de chuva suspensa numa hera à sua espera, o embrião fecundado de todos os caminhos, o ponto onde se iniciam todas as rectas... O cálice da razão de estar ali! Lambuzou- se em oásis humanos... Sorriua todos. Repartiu o pão como um ourives, na esperança de saciar a sede da felicidade e dividi- la por todos os que o mimaram de alegrias. Perseguiu esse ideal como uma leoa corre atrás da presa para saciar as crias. Foi feroz no propósito, violento na luta, agressivo na vontade! Uma auréola de ternura sempre corou as atitudes; um sorriso sempre resplandeceu dos lábios; uma doçura sempre brotou da voz. Mesmo cansado, abatido, algumas vezes desalentado, nunca adiou um passo, nunca colocou um despertador, nunca se deixou ultrapassar pelo tempo. Erguia o rosto e viesse o que viesse! Hoje a farinha do sonho esvoaça por entre os dedos. Se abre a mão vê, em cada linha, uma pequena ponte de madeira que atravessa um rio de cansaço, sulcada pelos seus pés descalços. Lembra- se de a ter construído com todas as gotas de suor derramadas sobre a esperança. A ponte é o símbolo do êxito. Qualquer riso, ainda que imperceptível, é lançado por ela no espaço. Transformado em semente, vai fertilizar os vastos trigais nas margens. As mãos que escolherem as espigas repartirão o pão por toda a gente, como um messias. Jubilarão todos os corações! Ainda hoje existe, sem endereço, num mapa sem estradas... Não conta os anos... O sangue ainda explode nas veias e o grito é trovão! Não contabiliza os passos... Falta tanto andar! Sempre vai encontrando um mimo aqui, outro ali... Embora fugazes, trazem à alma a inocência de um sorriso e ajudam- no a sulcar mais uns passos no chão espinhoso. Cada um desses momentos é, para a alma extasiada, uma pequena ilha rodeada de palmeiras, bafejada pela tranquilidade de um sopro de calmaria, uma aragem de mansidão. Diante das retinas surge a extensa e lírica avenida, repleta de sombras, medos e perfumes... De cada cipreste, de cada nogueira, de cada loendro, eleva- se o canto místico e antigo de Luiza Tody. O esplendor da história no vibrar das cordas vocais. Um busto branco como a pedra, cabelo encaracolado, olhos postos no céu. O solfejo daquela voz meio- soprano ainda timbra nos ouvidos de Beethoven que a aplaude em nome da Europa. Os versos são simples e parecem perguntar: “D. Carlota Joaquina, qual o crime de uma mulher cantar em público?” Cansado de caminhar senta- se num banco de pedra. À frente um candeeiro esmaltado insiste iluminá- lo. Irradia da abóbada circular de vidro uma luz baça, difusa e desfigurada, que premeia a calçada com alguns raios. Pretende- se anónimo, eremita, filósofo, generoso. Quer ser o grito arrancado à mordaça
antóniocasado
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