
Homem que Olha o Céu (Mário Benedetti)
Data 24/06/2012 11:25:13 | Tópico: Poemas -> Amor
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Enquanto passa a estrela fugaz junto neste desejo instantâneo montões de desejos profundos e prioritários por exemplo que a dor não me apague a raiva que a alegria não desarme o amor
que os assassinos do povo engulam seus molares caninos e incisivos e mordam sensatamente o próprio fígado que as barras das celas se transformem em açúcar ou se curvem de piedade e os meus irmãos possam fazer de novo o amor e a revolução
que quando enfrentarmos o implacável espelho não o amaldiçoemos nem nos amaldiçoemos que os justos avancem mesmo que estejam imperfeitos e feridos que avancem obstinados como castores solidários como abelhas aguerridos como jaguares e empunhem todos os seus nãos para instalar a grande afirmação
que a morte perca a sua asquerosa pontualidade que quando o coração saia do peito possa encontrar o caminho de regresso que a morte perca a sua asquerosa e brutal pontualidade mas se chegar pontual não nos agarre mortos de vergonha
que o ar volte a ser respirável e de todos e que tu mocinha avances alegre e dolorida pondo nos teus olhos a alma e a tua mão na minha mão
e nada mais porque o céu já está turvo novamente e sem estrelas com helicópteros e sem deus.
Mário Benedetti (1929-2009), poeta e escritor uruguaio, in: Antologia de Poemas de Amor, Verus Editora, 2010.
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