
Reprise
Data 08/06/2012 21:36:46 | Tópico: Poemas
| Saímos de casa pela manhã com ganas de devorar o dia lavadinhos e perfumados prontos para rebolar no lodo que tolda o quotidiano dos caminhos. Com a boca ainda ressequida lambemos as últimas sombras da noite e todas as esquinas do frio antes de chegar ao café do costume onde num ritual de asas enferrujadas ingerimos o primeiro veneno do dia. Entre duas baforadas no cigarro e um tremor vago que sacode o corpo trocamos o rosto ensonado pelo disfarce insone que nos permite agarrar o esplendor desabitado da vida seguindo a linha desenhada nos passeios com os pés a resvalar dos estribos.
Não é permitido gritar nem desviar o olhar lemos nos cartazes coloridos que anunciam em placardes gigantes todo o esplendor da teia enquanto transpomos o degrau já gasto pela persistência mórbida dos passos escondendo no bolso apertado das calças as lágrimas que jurámos não derramar. Fantasmas de uma dimensão sem idioma despojamo-nos de tudo o que temos para alimentar a sede de um cartão de crédito que nos vai permitindo manter à tona nas águas estagnadas donde nunca sairemos lambendo a poalha inquinada das vagas e o papel químico das manhãs que reproduzem a repetição grosseira dos dias. São precisas mais drogas agora para continuar a desfiar o novelo.
À hora do almoço, como uma brisa refrescante, uma pequena brecha se abre no centro da arena onde nos perfilamos como gladiadores condenados. Uma inesperada trégua para uma cola e uma sandes de atum permite-nos retomar o fôlego e o alento antes que o gemer sufocante das roldanas retome sua cabala alucinada arrastando-nos pelo suor dos cabelos até aos limites esvaídos do dia e o peso da grande roda cilíndrica repetidamente nos volte a esmagar como lagartas insignificantes. Nenhuma estratégia nos vale agora. Nenhuma droga pode suster as foices afiadas da dor que nos retalham a réstia de alento.
Sob o fogo extinto do crepúsculo enxaguamos o sangue das feridas sacudimos a poeira do corpo enrodilhado e suspiramos fundo, três vezes, enquanto a noite assobia detrás das colinas o requiem do eclipse total do dia e lentamente se fecham os portões verdes do manicómio. A rigidez fria dos ponteiros, obriga-nos a uma nova travessia no trapézio sem rede como a ave que arrasta a asa partida deixando seu lamento de papel nas garras do alcatrão abrasivo e voltamos como se nada tivesse acontecido ao ninho donde saímos pela manhã lavadinhos e perfumados.
Antes de fechar os olhos e nos entregarmos a um sono sobressaltado com o coração entalado entre os lençóis oramos um credo sem nome a um deus que não sabemos se nos escuta e rebobinamos de novo a fita para amanhã assistir ao mesmo filme.
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