
Texto
Data 12/05/2012 11:45:00 | Tópico: Poemas
| Transitas tonto, Febril e mudo Num dia grávido De ardor e pressa. És nau sem mastros Dos vãos e ruas De esquina e beco No oblíquo muro Que torna tudo Um texto em braile, Um caos de casas Em mil vielas Também caóticas, Estranho texto De origem bárbara E lido só Por quem habita As tais vielas, Os tais casebres Que, em meio à rixa, Disputa e socos, Procuras sempre, Acerca deles, Tal qual filólogo, Tal qual legista Baixar juízo Que acalme angústia De quem não lê Esquiva língua De corpo vivo, Feroz, barroco.
Portanto, lê-lo Num breu terrível, Cruzar seus lares E tantos mares, Sem mastro ou lentes, Te deixa assim, Tão só, perdido, Sem luz, no muro Atrás de porto, Verbete ou livro Que te traduzam Tecido raro. Porém, encontras Fuligem densa E vil desordem, Estranha língua, Bravio corpo Que só entendes No teu silêncio De noite e eco, Perdido algures.
E o que desejas É tão somente Rossio calmo, Profundo e largo, Em que tu possas Achar abrigo, Remanso tênue De estio e noite Que o fero pego Converta enfim Em rasa poça, Mar seco e manso – Cidade, língua E um corpo lasso, Que te revelem Ser que reluz: Canto e amavio.
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