
Espelho
Data 14/11/2007 03:11:50 | Tópico: Poemas
| "Os espelhos têm algo de monstruoso. Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número de homens". Jorge Luiz Borges
Vagando pela casa chego ao banheiro. Detenho-me frente ao espelho iluminado, Levanto os olhos e olho-me assim profundamente, Tão profundamente que sinto ver-me ao avesso. E desses olhos atentos a ínfimos detalhes, Saltam esses eus como carnegões que grudam no vidro.
Viro ligeiramente o pescoço... E aquela ali no canto, sim aquela! Ali do lado direito, Olhar cansado das batalhas renhidas, braços pendidos, Um desalento do tempo se escoando, Escoando como escoava a areia, pelos pequenos buracos, Sumidouros nos vãos de madeira das velhas pontes que eu vi. Olhar que se abisma com o como conduziu a vida! Essa que agora se encantoa em lamúrias circunstanciais, Dos vieses desse trem desgovernado, Que leva ao nada esse tudo já vivido.
Quem é essa mulher afinal, que perplexa, Olha a outra que a observa no espelho, E devassa seus segredos não guardados, Do que fez de si tão impensada, e do que não fez quando podia. Errou o trem, errou a gare, errou!
E esse olhar que agora trocam, essas mulheres estranhas, Um de espanto, o outro de desdém, [ou seria piedade versus raiva], Por ter sido o que não é, por não desmentir o equívoco, E mesmo assim continuar...Continuar verdadeiramente não sendo. Esse olhar que afina os olhos, apura o foco ao limite, É de lástima, sim, de lástima certamente! Mas ali, naquele exato momento, Quem é que lastima quem?
Essa do lado de fora, que se entende por guerreira, Que luta, ama e projeta ser de valia e valer, Que segura o tal destino nas unhas da sua vontade? Ou a de dentro: no canto, braços pendidos, Sem qualidade, farsante, Pés no chão das impotências, das certezas arrogantes, Sem crédito, sem crer, sem lágrimas, Apenas que venha a vida, seja e passe como quiser.
Eu? Talvez seja outra...Aquela lá ó... No lado esquerdo do espelho, olhar distraído, Simplória! Que acredita que a sorte, É que desfez seu destino, Aquela louca que vê, uma só imagem refletida, Uma só mulher no espelho, sozinha viajando a vida.
Há outra mulher ali...Ali no centro!...Uma estranha?! Sim, vejo, mas nem conheço!
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