
TERNURA
Data 13/11/2007 20:34:25 | Tópico: Poemas
| Um dia, saí de casa pronto. Caminhei mil dias, sem parar, até que minhas roupas ficaram velhas, e o meu corpo se cansou desse vagar. Dos horizontes, trouxe memórias que não posso dividir, detalhes de passos cansados em caminhos poeirentos, onde amanheci em madrugadas frias, com a esperança acrescentando nuvens à minha respiração... Usámo-nos mútuamente, os dias e eu. Eu, procurando neles o que queria, essa ternura ausente do quotidiano comum, essa doçura desnecessária, sem a qual meramente se sobrevive. E eles, os dias, encontrando em mim, em brilhos escuros no olhar, a centelha ingênua e brilhante da vontade, a partícula única, doce, férrea, capaz de os fazer mudar. E mudaram, os dias. Mudaram para melhor, suavizados. Trouxeram-me pessoas boas, com quem acertei minhas passadas durante os trilhos que percorremos buscando os mesmos nortes. Algumas eram romeiras convictas, já alimentando há muito tempo o seu vício de caminhar, já sem memórias das razões, e das origens, dos primeiros passos. Outros, como eu, mais fortes, negociavam com os dias as estratégias das suas passadas. Mas os dias mudaram, sim, E acabaram ficando mais doces. E eu mudei, também. Mas não regressei sobre os meus passos, antes percorri sempre novos caminhos, numa extremada curva, até chegar a mim. Trouxe mãos calejadas, do meu cajado de peregrino, e um jeito contido de estar inquieto. Ganhei dureza, nessa doçura que perdi para os dias, e alguma habilidade para ver, ainda antes de olhar. Mas, todos os dias, quando acordo, e espero que se cumpram suavemente aqueles minutos que demoro até chegar a hoje, sinto que valeu a pena toda essa longa viagem, todo esse tempo gasto, procurando algo que não existe. Que apenas se vai construindo...
Setembro 2007
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