
Epístola aos poetas que virão (Manuel Scorza)
Data 13/04/2012 01:20:38 | Tópico: Poemas -> Intervenção
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Talvez amanhã os poetas perguntem por que não celebramos a graciosidade das garotas; Quiçá amanhã os poetas perguntem por que nossos poemas eram largas avenidas por onde vinha a cólera ardente.
Eu respondo: por todas as partes se ouvia pranto, por todas as partes nos cercava um muro de ondas negras. Seria a poesia um solitário filete de orvalho?
Tinha que ser um relâmpago perpétuo.
Eu vos digo: enquanto alguém padeça, a rosa não poderá ser bela; Enquanto alguém olhe o pão com inveja, o trigo não poderá dormir; Enquanto os mendigos chorem de frio na noite, meu coração não sorrirá.
Mate a tristeza, poeta. Matemos a tristeza com um pau. Há coisas mais altas que chorar o amor de tardes perdidas: o rumor de um povo que desperta, isso é mais belo que o orvalho. O metal resplandescente de sua cólera, isso é mais belo que a lua. Um homem verdadeiramente livre, Isso é mais belo que o diamante.
Porque o homem despertou, e o fogo fugiu de sua prisão de cinzas para queimar o mundo onde esteve a tristeza.
Manuel Scorza (1928-1983), poeta peruano.
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