
Velha Maria, vais morrer (Ernesto Che Guevara)
Data 08/04/2012 12:05:25 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
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Velha Maria, vais morrer: Quero falar contigo seriamente.
Tua vida foi um rosário completo de agonias, não houve homem amado nem saúde nem dinheiro, apenas a fome para ser compartilhada.
Mas quero falar-te da tua esperança, das três diversas esperanças que tua filha fabricou sem saber como.
Toma esta mão de homem que parece de menino nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo. Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos na suave vergonha de minhas mãos de médico.
Escuta,avó proletária: crê no homem que chega, crê no futuro que nunca verás.
Não rezes ao deus inclemente que toda uma vida desmentiu tua esperança; não peças clemência à morte para ver crescer tuas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti. Mas terás uma vermelha vingança sobre tudo, juro pela exata dimensão de meus ideais: todos os teus netos viverão a aurora. Morre em paz, velha lutadora.
Vais morrer, velha Maria: trinta projetos de mortalha dirão adeus com o olhar num destes dias em que te vais.
Vais morrer, velha Maria: ficarão mudas as paredes da sala quando a morte conjugar-te com a asma e copularem seu amor na tua garganta.
Essas três carícias construidas de bronze (a única luz que alivia a tua noite), esses três netos vestidos de fome chorarão os nós destes dedos velhos onde sempre encontravam um sorriso. E isso será tudo, velha Maria.
Tua vida foi um rosário de magras agonias, não houve homem amado, saúde, alegria apenas a fome para ser compartilhada. Tua vida foi triste, velha Maria.
Quando o anúncio do descanso eterno suavizar a dor de tuas pupilas e quando a tua mão de perpétua borralheira absorver a última e ingênua carícia, pensas neles… e choras, pobre velha Maria!
Não, não o faças! Não rezes ao deus indolente que toda uma vida desmentiu a tua esperança, nem peças clemência à morte, que tua vida foi horrivelmednte vestida de fome e acaba vestida de asma.
Mas quero anunciar-te, na voz baixa e viril das esperanças, a mais vermelha e viril das vinganças. Quero jurá-lo pela exata dimensão de meus ideais.
Toma esta mão de homem que parece de menino nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo. Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos na suave vergonha de minhas mãos de médico.
Descansa em paz, velha Maria, descansa em paz, velha lutadora: todos os teus netos viverão a aurora. EU JURO!
Ernesto Che Guevara, médico e revolucionário argentino.
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