
O Rio (Antonio Hernández)
Data 01/04/2012 11:05:51 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
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Como a pena ou como o cantar existia desde sempre. Andava já na montanha como um menino a que ninguém presta atenção. Ao princípio, levava nas suas águas toda a luz doentia. Depois, ao fundir-se com tanta primavera, Tornou-se luminoso como um conto. Corria todas as tardes de maneira diferente e, ao amparo do monte, conseguia passar entre as pedras, sobre a terra dura e sobre os obstáculos. Mas estava tudo tão longe... o mar, aquele mar sonhado com flores, com sinos e com a aldeia agitada, estava tão longe... Os penedos eram duros, e por mais voltas que fizessem as nossas águas, por mais rodeios que fizessem —o nosso amor, o nosso sonho, a nossa razão de viver— perdiam por vezes como o homem que começa a não entender o melhor de tudo: a fé.
E há alguns dias não estava como antes, que com tanto alpechim e águas impuras o rio turvava-se, perdia-se por si como se perde uma criança com o seu jogo mal começa. Contudo, já tinha tantas horas de angústia, de união, de entrega, que era impossível separar-lhe uma gota e tornava-se mais largo e duradoiro. Como o menino, acabava por vencer. Era simples. Se ao camponês o granizo lhe tira a colheita, a raiva dá-lhe forças para esperar uma outra. Se a um pássaro o outono lhe rouba a ilusão, a primavera devolve-lhe um ninho. Se uma sombra se vai, uma luz nos chega. E aquilo era o mesmo. O mesmo. Por mais águas sujas que fossem para ele numa tarde qualquer chegaria ao mar.
Antonio Hernández, poeta. Tradução: Luís Filipe Sarmento.
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