
Às avessas
Data 22/03/2012 10:22:27 | Tópico: Poemas
| Em teu abraço não houve sofreguidão Nem calma, Como em Araguaína ou no Bico do Papagaio, Após tanta poeira e viagem, Tampouco ardor em teu beijo Ou alívio Como na praia de Tucunaré em Marabá, Após tanto desejo e voragem.
Em teu olhar não houve labor Nem satisfação, Como às margens do Araguaia, Ou na Gamaleira lendo o romance da liberdade Para roceiros e o povo pobre, Ou em Xambioá ao lado de índios e posseiros, Tampouco desespero em tua mão Mole no meu ombro Ou a dilaceração, Na fronte conturbada de emoção, Ao ver de longe a fumaça negra que se levantava Dos corpos de Maria Lúcia e tantos outros, Lá em Andorinhas.
Em ti, houve sincera indiferença, Em mim, muitos cadáveres Que enterravas sem lamento e palavra, Passado sangrento de fugas e torturas Na tua muda catatonia.
Naquele momento, sem magia ou estupor, Em que nosso ideário desfeito Recusava qualquer panteão, Despencando em tuas mãos áridas, Nos reencontramos E nos despedimos, Sem estação ou trem, Sem bandeira ou voto, Sem rio ou praia E para sempre Sobre um monte de nada Num país de ninguém...
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