
Escravo
Data 22/02/2012 11:16:14 | Tópico: Poemas
| A Antônio Franco Alexandre
Escravo escrevo De tudo Ou De quase tudo,
De becos e tiros De ruas e fuzis, De largas avenidas, Livros e vitrines, De alvoradas e crepúsculos, De estrelas e amplidões, De luas e bondes, De portos e naus Que apontam Magoados No horizonte De concreto e fastio.
Na escrita, Nem tudo é livre Como na fala Que livre Perde-se longe, Prolixa, Com suas pontes Frágeis, feéricas, Pois a da escrita É fixa De madeira E prego, Embora levadiça.
Escravo escrevo Da escrita, Da vida Que o corpo mancha E o levita No espaço Sintático do ser.
A palavra amiga Súbito Assume brusca Estranheza Na sintaxe Quase estrangeira; Quer agora Ser ferida de beleza.
Escravo escrevo Da escrita, Livre de tudo Ou De quase tudo,
Do que não é Obtuso, escuso, Sujo, da límpida Retórica de tribuna, Escravo do que aéreo Se espatifa No chão úmido, Túmido De súbito sangue.
Na escrita, Nada é escravo Do corpo livre da fala. Escrita Que tantas vezes Cala, Porque nela Não há altercação, Interlocução, Copiosos gritos, Mas leitura, Grave tessitura E leitores Reclusos No silêncio.
Na escrita Nem tudo fala, Mas deixa Lido, Movediço Na ante-sala Da escritura –
Face marmórea Do instável Onde escravo Escrevo inscrito.
Na fala Quase nada escreve, Inscreve-se, Embora fóssil Vire gramática, Escrita escrava Do corpo Que foi fala.
Escravo escrevo Proscrito da fala, Inscrito na escrita Em meio a tudo o que fala E que escravo se inscreve.
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