
A charrete-cegonha levava os rebentos para casa
Data 22/01/2012 12:11:46 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
|  Era um tempo de vanguarda, Juscelino inaugurava Brasília, João Gilberto criara a bossa nova No Brasil falava-se em reforma agrária
E lá, na pequena Santanésia Para mais um parto (incontáveis) lá estava a incansável parteira Diamantina com suas mãos e gestos de bailarina
Debruçando-se sobre o ventre de Eutália Para entre uma e outra baforada De seu inseparável cachimbo Dar uma forcinha pra brotar o rebento
Prestes a dar o primeiro choro Era o oitavo filho, o caçula Rogério: "Este veio com um olhar espantado Comadre, dá pra ele logo o peito."
Todas eram comadres da adorável parteira, Na cumplicidade, na solidariedade, Ela não se limitava o parto a fazer, Cumpria belo ritual de visitar e orientar
Diamantina contava as histórias de senzala de suas ancestrais, de como aprendera a arte de trazer à luz da vida a partir desta experiência e vivência
Eu, Tetinho era "também" seu afilhado Na pia batismal, madrinha Iraci e Sr Cândido Mas, da "banheira" do nascimento era ela Dizia "espiga de milho" sou sua madrinha negra
E assim, fui visitar no pequeno Hospital da Vila O pequeno Rogério, procurando o seio materno Seiva da vida, enquanto na charrete esperava o charreteiro dizia que era uma cegonha
Eu ria muito, e sempre me indagava Ainda era bastante ingênuo naquela época Afinal, contava apenas seis anos de idade Era inesquecível aquele "táxi" com cavalos e teto.
Há um par de anos sentei em uma charrete Em Dublin, na Irlanda, após sorver um chocolate Contei esta história para o condutor Mr. James Ele vertendo lágrimas me disse "Great Times".
Assim, pensei um dia contar esta história Guardei estas cenas na memória Para em elegia, resgatar a figura da parteira E homenagear a nobre negra Diamantina.
Quando vejo no céu uma gaivota-mãe buscando sobras de comidas e peixes no entardecer, na praia das Dunas e nos barcos pesqueiros,
Recordo-me da cegonha-Diamantina, - a querida madrinha – e do quanto ela cuidou para cada um de nós aqui chegasse e pudesse falar um pouco dessa doce criatura. AjAraújo, o poeta humanista, poema escrito em 22-Jan-2012, a partir de recordações do nascimento do irmão caçula, da madrinha-negra e parteira Diamantina e do retorno para casa de charrete, "táxi" para as parturientes da época, apelidado de cegonha pelo divertido charreteiro. Tudo isto na minha pequena e adorável Santanésia, cidade de minha infância.
Foto: Charrete de Dracena.
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