
Tu eu
Data 16/01/2012 10:55:28 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Tudo o que sabes de mim Transparece das minhas palavras Inodoras Dos meus silêncios afogueados E insolentes Da aspereza dos meus olhos Que buscam o longe e o nunca, Da rudeza insana dos meus questionamentos Pusilânimes, Das dúvidas que adormecem No exacto sítio onde me deito Para sonhar que ao raiar da aurora Outro serei neste que sou Para sentir-me irmão dos sem família, Pastor dos sem guarida, Mestre dos sem futuro, Arauto dos sem voz, Amante dos sem memória, Melodia daqueles a quem os hinos Soam a trovão e tempestade, E as avenidas largas amedrontam Como se o mar das incredulidades Os tomasse por inteiro E os quisesse submergir em revoltadas ondas De tristeza e mágoa.
E mesmo isso tudo que sabes dizer De mim Não diz de mim o que sou Apenas simula dizer o que aparento Nas horas fugazes em que me dou À crueldade de me esventrar Para zurzir os fantasmas que me perseguem Sempre que me persigo Para encontrar por dentro do verdadeiro eu O lado terreno que aspira ser céu E o lado malsão que augura ser Navio fantasma a cruzar todos os mares oceanos Por onde os antigos galeões negreiros Rasgaram os pontos cardeais Para tocar as feridas de todos os homens livres Até que derramassem o sangue virginal Da epopeia dos filósofos e dos argonautas.
Ser não é apenas ser! Ser é concatenar no tempo e no espaço A memória que o futuro escreverá Nas asas dos sonhos porfiados E nas lágrimas que enchem os poços e os algares Que irrigarão os campos e as charnecas Onde as flores darão frutos E a vida se tornará eterna!
Quando eu e tu atingirmos o zénite É provável que me possas reconhecer Até na sombra que se desenhar à minha passagem! Hoje, agora, contenta-te em ser aprendiz de feiticeiro E lê nas linhas o que apenas as linhas dizem; O mais é segredo a desvendar quando eu te disser Quem sou!
Em 26.dez.2011, pelas 11h45
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