
Poema Dêsde Ali
Data 30/10/2007 01:03:27 | Tópico: Poemas -> Sombrios
| <br />Agora já estou morto. Assim é melhor creiam-me. Até diria Que prefiro êste mudo conhecer de raizes, Êste gelado saber de sonho oculto Ou submergida pedra, A êsse perene repicar de sinos e mais sinos, A êsse doce adorado crepúculo de outono, A essa mínima flôr curvada sobre o lago.
Agora estou nu Imerso em terra viva palpitante, Com um pouco de seiva entre os dedos E outro pouco de formigas pelos lábios.
Sinto como me chamam ai de cima as árvores, Como se embeleza e chega a primavera ao mundo, Como me vão gritando sua mensagem as cousas. Porém prefiro estar-me, saber-me totalmente imóvel sobre esta quietude de sombra e pranto. Aqui, meus olhos ôcos vão olhando a tudo : O passo dêsse cachorro que arranha a tristeza, O pêso da lápide que cela meus séculos, O rouxinol amigo que salta entre as fôlhas. Aqui, tão quietamente, na eterna espera, Hei compreendido a enorme, brutal sinfonia Que o vento sepultado desperta nas aranhas. Quando na vida era um homem, mas um homem. Então, quando era, eu me dizia as vezes : "Quarenta pazadas de terra é muita coisa para tapar um só punhado de cinza; demasiadamente pouca, para tanta terra." Agora me sobra tudo. Só tenho um pequeno Desvão de pó e turva madeira destroçada, Aonde vou arrumando meus ossos, meus pedaços, Nesta sempre noite de minha larga antevespera. E lhes digo que prefiro êsse silêncio, Êste perene e mudo conhecer de raizes, A vossa desvelada melodia.
Creiam-me. Com isto já me sobra; Com isto e uma neblina levíssima de chuva, Com isto e uma gôta de nuvem chorosa, Que se filtre e me chova nos lábios já ressêcos.
|
|