
[Do que me Comove]
Data 09/12/2011 01:42:43 | Tópico: Poemas
| Lugar ermo, sombrio, som gutural, cavo de um córrego que escapa, por entre barrancos altos, íngremes, inóspitos, de uma grota escura e funda.
A água estreita-se em um valo cravado de inúmeras árvores sedentas, e mais abaixo, coalha-se de folhas podres que a corredeira rápida revolve.
Eu procuro esse lugar tantas vezes visto, tantas vezes visitados em outras horas mortas... É destas águas que bebemos eu e o meu cavalo; é destas águas que eu bebia ali, bem junto aos focinhos dos arfantes bois de guia.
É para provar que sou sublime, para demonstrar o meu amor pelas causas dos homens, para provar o quanto me comovem, para provar o quanto valorizo a sociabilidade, que eu procuro essas águas ermas... Águas que parecem verter não da terra, mas do inferno [se mais fundo, melhor, pois segundo Dante, o inferno é cônico].
Que eu desça aos infernos, ou que os infernos venham até mim cantarolando maldições nestas águas — tanto faz, pois repito, tudo tanto faz!
Se não me comovem as lágrimas, se não me comovem o riso, a dor, se eu prefiro a face dura, o que é que me comove?
Se me atrai, me incomoda; e se me incomoda; me atrai: pago para ver — truco! ______________________________
[Penas do Desterro, 26 de novembro de 2011]
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