
A traição: Acerto de contas
Data 27/10/2007 18:14:51 | Tópico: Contos -> Romance
| I
Risos, barulho de copos, e o ploc seco das bolas de bilhar se entrechocando... O amigo aos cochichos, chamou-o ao canto do bar. _É a sua mulher... Soube de fonte limpa que está de rolo com o tal do Zé Garçom. Ele estatelou os olhos pequenos, segurou-se na parede passando as mãos na cabeça, para aprumar as idéias. _ Você viu? _Sim, entrando na sua casa, depois que você viajou. Palavras que não esperamos ouvir, mesmo que curtas e rápidas são como Davi apedrejando Golias: fulminam em um segundo! Bento foi embora aturdido, vagou pela rua, sem rumo. Amanhecendo chegou em casa, e na ponta dos pés entrou no quarto. Olhou para a cama e viu a mulher dormindo como um anjo. Tirou a calça, arredou devagar as cobertas, e deitou-se ao lado da companheira. Fritou na cama, pensou, revirou-se até arrancar os lençóis. Pela manhã nem podia olhar para o sol; de tão inchados os olhos! Saiu de novo para a rua, andarilhou longe...longe. E foi na pracinha da capela de Santa Rita que pensou na solução. Resolveu tirar a limpo o que o amigo contou. Arrumou o caminhão, lavou, poliu, abasteceu, e disse que sairia para levar uma carga na madrugada seguinte. Acordou lá pelas cinco, pegou a matula e foi-se. Andou uns 30 quilômetros, parou num posto e esperou. Esperar leva uma eternidade, e a dúvida, é uma ave agourenta, que fica sobrevoando o pensamento para depois que assentar nos fatos sumir grasnando satisfeita. Bento andou pela rodovia, olhou o relógio por vida, balançou o chaveiro mil vezes, sentindo a estranha sensação de flutuar, e de ouvir longe todos os barulhos dali. Tinha que esperar mais.Tinha que se acalmar. Finalmente a noite chegou, e ele voltou de onde veio. Tomou o cuidado de deixar o caminhão, duas quadras de distância, e foi se esgueirando pelas sombras das calçadas, até a casa onde ele e a mulher viviam desde que se casaram. Ocultou-se na moita de erva cidreira que plantara no jardim. Esperou. Esperou pouco, e logo ouviu um assobio do outro lado da rua. E bem vestido, esticando o pescoço para os lados da casa divisou o Zé Garçom. Outro assobio. Então a mulher acendeu e apagou a luz amarelada do alpendre, e segundos depois ele viu, a sombra apressada do homem, casa à dentro pelo corredorzinho lateral. Silêncio... depois música, risos, e as luzes se apagaram. Voltou para o caminhão, chorou a mais não poder, esmurrou a direção, chutou onde alcançava, até doerem os pés, e lá pela madrugada, deu partida e se foi.
II
Comeu o pão que o diabo amassou com o rabo, na insônia recorrente, na tristeza e humilhação que cortavam seu peito como punhal desbeiçado. Fez fretes distantes, emendou trabalho em trabalho por três meses inteiros. Os filhos moços, estudando fora, não estranharam a viagem que durava tanto tempo. E viajando, sozinho com suas mágoas, ele tinha estranhos e controversos pensamentos! Ora pensava em jogar o caminhão de uma serra, seria um jeito rápido...Ora pensava em surrar a ingrata, no meio da praça, bem em frente da matriz... Por fim, pensou na mulher, que sempre lhe fora cuidadosa, trabalhadeira, boa mãe, e que poderia dar a ela uma chance... Cresceu nele essa idéia, e então resolveu voltar. Chegando tomou o cuidado, de buzinar desde a esquina. Entrou batendo a poeira, tentando disfarçar o nervoso, e mostrar-se natural. A mulher alegrou-se ao vê-lo, tomou-se de atenções, comidinhas, carinhos, e quase que ele esqueceu da traição recebida.
III
A vida continuou. Ele ficava agora muito mais tempo em casa, e se viajava, cumpria o sonoro ritual de buzinas desde a esquina. Comprou um plano de saúde para os dois, televisão nova, reformou o guarda roupa e andava agora na estica! Interessante o que a dor e a frustração promovem no ser humano...Ajeitar-se, melhorar o visual, mas deixar pela aparência o que precisa de fato ser mudado por dentro. Tornaram-se mutualistas de um plano esquisito chamado Cantinho do Céu. Disse à esposa que tinha que pensar longe, e que caia bem ao espírito, saber onde ia descansar a carcaça depois que a morte o pegasse. Passou um ano e meio do funesto sucedido. Bento casou a filha em janeiro, com o namorado de infância, e fez uma festa bonita no fundo do quintal. Uma imensa lona preta abrigava muitas mesas, cobertas de papel rosa, tudo muito arrumadinho. A música sertaneja, a criançada correndo... Churrasco, servido nos pratinhos de papel, faziam a fartura saltar e dançar alegre. E também ele dançou a noite toda com a filha, a mulher, e a comadre Maria Benigna, mostrando para os convivas, a família de invejar.
IV
Era o melhor motorista da firma, considerado pelo patrão como amigo, tinha certas regalias que não gostava de usar. E assim ia Bento poupando favores e férias. Naquele sábado calorento, saiu de manhã como sempre, para lavar o caminhão. Recomendou ao frentista que era o mesmo há anos, [é que nas cidades pequenas, emprego é coisa difícil, (e nas cidades grandes, pior!)], o capricho na lavagem. Mandou polir, aspirar por dentro o pó, e passar um preto brilhante que deixava os pneus com cara de sapato velho engraxado, enquanto com os amigos, tomava a cerveja agendada há cinco anos e para os próximos vinte. Tinha viagem marcada para segunda feira, e no final daquela manhã ensolarada, saiu com o caminhão para a casa do patrão. Abriu o imenso portão lateral, e colocou o caminhão dentro de um galpão. Ninguém da casa percebeu, e ele caprichoso, colocou as chaves e os documentos, bem em baixo do tapete, do lado de quem dirige. Fechou o portão com calma, e caminhando, chegou para o almoço. A casa cheirava bem, e atiçava a fome de todos da vizinhança. Chegou, até a cozinha, destampou a panela grande e experimentou a carne de que mais gostava: bistecas de porco com um montão de cebolas, salpicadas de cheiro verde. Bento elogiou o tempero para a mulher, que lavava as folhas da alface com paciência de monge. Foi até o guarda-comidas, seguido pelo sorriso atento da companheira e pegou a melhor faca. E numa investida certeira, enterrou-a no pescoço da esposa, fazendo-a cair inerte. Aparou o sangue na bacia da salada, arrastou-a até o banheiro, deu-lhe banho, perfumou-a, colocou nela a roupa de ir a missa, um cachecol de musselina azul, deitou-a na cama carinhosamente, do lado que sempre dormiu. Saiu do quarto, telefonou para os filhos, disse para que viessem, pois a mãe estava com uma doença terminal. Colocou em cima da televisão os dois carnês pagos do “mútuo” Cantinho do Céu, o seguro de vida, a quitação da Caixa Econômica Federal, que provava a casa paga, tomou banho, barbeou-se, colocou a roupa nova, deitou-se ao lado da morta e atirou certeiro no rumo do coração. Bento finalmente acertou as contas com Bento. <br />A história é verdadeira e aconteceu na cidade de Batatais, Sp - Brasil. Foram omitidos nomes e lugares que pudessem constranger as familias envolvidas... mas tenho que confessar que um tiquinho, um tiquinho assim é pura invenção minha.
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