
Marcha (Pedro Tierra)
Data 28/11/2011 10:35:38 | Tópico: Poemas -> Introspecção
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Venho da pátria dos tormentos. Venho de um tempo de crimes. Venho das chagas que a noite lavrou na carne dos homens.
Não pedirei perdão à corte dos meus carrascos pelo grito de rebeldia arrancado do meu sangue, pelo sonho, pelas armas, pela marcha do meu povo contra os muros!
Como se desata o cereal da terra, levanto meu corpo de trigo do corpo estendido de Orocílio Martins sementeira de fúrias e esperanças –, sangrando nas ruas rebeladas de Minas.
Liberto meu canto de pássaro da voz impossível dos mortos: luz acesa no porão da treva, memória enterrada do povo.
E canto pela boca destroçada do Comandante Carlos Marighella dez séculos depois do silêncio; pela garganta emudecida de Mário Alves, grito eterno que anda;
pelos olhos vazados de Bacuri, estrelas sangrando na memória;
pelas cabeças cortadas no vale do Araguaia, terra de rebelião;
pelo peito metralhado do Capitão Carlos Lamarca, granito de sonho enterrado entre as pedras do sertão;
pelo corpo mutilado de Manoel Raimundo Soares, nas águas do Rio Guaíba, sangue dos ventos do sul;
pelas mãos atadas de Alexandre, arados de terra livre; pelo sangue derramado de Aurora Maria do Nascimento, promessa de amanhecer.
E me faço boca de todas as bocas assassinadas, canto de todos os cantos aprisionados, sonho de todos os sonhos submergidos pela mão armada dos carrascos do meu povo.
Hoje, o Poder se absolve dos seus crimes. Mantém à sombra dos seus muros os açoites e as vergastas. Recolhe sob a manga verde-oliva as mãos ensangüentadas dos verdugos e espera...
E as mães aflitas do povo tecem nos cegos teares da dor um espesso tecido de agulhas infinitas:
quem responderá pela morte dos meus filhos?
Quem responderá pelos torturados até a loucura?
Quem assassinou a esperança de Frei Tito?
Quem prestará contas ao meu coração pelo destino dos devorados?
Pelas vidas, pelos sonhos que a Noite transformou em cruzes?
Hoje, o Poder se absolve dos seus crimes. Recolhe sob a manga verde-oliva as mãos ensangüentadas dos verdugos e espera...
Do ventre fecundo das filhas do povo, das cinzas dos ranchos, da terra queimada, das marchas, das greves, das ruas feridas nascerão seus julgadores!
Pedro Tierra (Hamilton Pereira da Silva), poeta, ex-preso político. Poema escrito em 1979.
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