
Barco Errante
Data 26/10/2007 03:23:56 | Tópico: Poemas -> Amor
| Rio de águas puladeiras, Pedras pontiagudas, poços sorrateiros, Leva nas veias de inquietas corredeiras O meu frágil barco a navegar.
Na velocidade das quedas, Faz água, quase tomba... Sustos e mãos suadas, Que se agarram pelas bordas; As frouxas bordas, finas bordas... Maluca montanha-russa, Ondulando vai-e-vem descompassados.
Tão depressa o trambolhar nas águas! Tão pouco tempo para ouvir, Os chamados sonoros dos bem-te-vis saltitantes, O piado aflautado das siriemas ariscas, O balanço preguiçoso dos buritis ao vento,
Apenas momentos, relances, Do cheiro do capim marmelada, Dos currais entardecendo, Dos assa-peixes tristonhos: Pouso bêbado de delicados coleiros equilibristas.
Zune o barco nos remoinhos, Balança nas curvas das águas, Tocadas pelos braços dos velhos jambeiros cansados.
Zune a sonhar na espera, De que uma laçada certeira Traga o barco para a margem, E que laçador e laçado, Possam ver e ouvir juntos, Sons e cenas do sertão Antes que com as águas, Vá o meu barco errante, Desaguar no oceano.
Se assim for, eu não serei Nem mais barco, nem mais sonho Serei água: só mais água fragmentada e chorosa, Que vira chuva e desaba, Nos campos da minha infância.
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