
IMORTALIDADE
Data 21/11/2011 12:59:24 | Tópico: Prosas Poéticas
| . IMORTALIDADE
o calor em sensações preguiçosas e descabidas mormaços rebuçavam urubus e arrebóis os móveis do quartinho esvaziados de cupins os batentes descascados as portas rangentes e empenadas um quartel esfarelado portão adentro logo ali por perto vagavam aquelas mulheres no supermercado à espera do próximo feriado fofocavam em trejeitos, tocavam-se nos braços sorriam dentes brancos e amarelos, ruges e batons pediam às dúzias o pãozinho francês para o café conceder o final de tarde enquanto alguém fatiava duzentos gramas de mortadela cento e cinquenta de mussarela e presunto magro logo um quarteirão abaixo, quase no último exalar do céu o guarda-noturno pularia lépido o baixo muro dos fundos da dona-de-casa desamparada do marido que jogava truco no armazém do Seu Zézinho o leite da panelinha velha já quase borbulhava... o cão cafungava o lixo, depois corria pelo quintal balangando vitorioso entre dentes um papel pardo de embrulho todo melado da carne do açougue da esquina umas florzinhas azuis, mínimas (que até hoje não sei o nome) cobertas da terra vermelha e fina da rua clamavam por gotas de chuva que naquela tarde não viriam na geladeira, descansava o manjar com ameixas em calda - eu preferia com doce-de-coco - à espera da minha ávida boca (Um trecho de imortalidade impossível de abandonar)
Gê Muniz
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