
Apetece-me o vento (que não tarde...)
Data 02/11/2011 21:04:09 | Tópico: Textos -> Outros
| Lá fora, o vento vagabundo contorce revoltas vivas e os seus uivos desertificam a rua lavada em lágrimas. Ninguém lhe concede portas abertas e só a chuva lhe parece entender os desvios alucinados e o arremessar louco dos espólios que se expõem, incautos, à sua mercê. Por trás da minha janela de falsa segurança, espargida por partículas das suas raivas furiosas, apetece-me dar-lhe as mãos e permitir-me a sua errância desnorteada. Apetece-me o vento. Apetece-me afrontar ondas assassinas, barreiras amuralhadas, escarpas espigosas! Apetece-me atravessar montes e mares, empurrar velas e vagas, rasar vales e medos! Arrisco uma nesga de abertura à minha janela em pranto e deixo-me arrebatar, como folha à deriva ou boneca de trapos colorida. Sinto-me, finalmente, livre, acordada de fresco. O vento penteia-me os cabelos, a chuva lava-me, finalmente, a pele encardida, e risco, finalmente, uma nota de cor na tarde acinzentada.
(republicação)
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