AOS QUATRO CANTOS

Data 20/10/2011 18:35:33 | Tópico: Poemas


AOS QUATRO CANTOS

Combativo ao medo,
pelo horror
do que descreve,
sobrevive.

Seu destemor é perigoso, nocivo.
Ele, um delator cerimonioso
das palavras recusadas por tantos.

Pois
até o respirar natural,
algumas vezes,
dá-lhe certo nojo.

Sente que gozar a vida
também pode ser
escarnecimento,
entojo.

Tem plena certeza
de que lhe resta
apenas o deus que o homem
- para suportar o sabor
do próprio fel - criou.

É como, no seu céu,
um encarvoado véu cerrasse
as delícias iludidas
da terra.

Justo é quando
morre nos braços de si
a imortalidade irretocável
dos anjos.

Justo é quando
não consegue mais
evitar a dor injustificável
deste dilema.

Justo é quando
alivia-se na escrita
que, no seu lugar,
sente a dor e grita um poema
aos quatro cantos.


Gê Muniz



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