
A alma do vinho (Charles Baudelaire)
Data 08/10/2011 12:08:25 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
|  A alma do vinho assim cantava nas garrafas: "Homem, ó deserdado amigo, eu te compús, Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas, Um cântico em que há só fraternidade e luz!
Bem sei quanto custa, na colina incendida, De causticante sol, de suor e de labor, Para fazer minha alma e engendrar minha vida; Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,
Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo À guela do homem que já trabalhou demais, E seu peito abrasante é doce tumba que acho Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.
Não ouves retinir a domingueira toada E esperanças chalrar em meu seio, febrís? Cotovelos na mesa e manga arregaçada, Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:
Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida; A teu filho farei voltar a força e a cor E serei para tão tenro atleta da vida Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.
Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia, Grão precioso que lança o eterno Semeador, Para que enfim do nosso amor nasça a poesia Que até Deus subirá como uma rara flor!"
Charles Baudelaire (1821-1867), poeta francês.
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