
A Velhice do Padre Eterno
Data 18/09/2011 00:35:55 | Tópico: Poemas
| Jehovah, por alcunha antiga o Padre Eterno Deus muitissimo padre e muito pouco eterno, Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz: Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz, Tirou d’esse nariz o que um nariz encerra, Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra. Em seguida tirou da cabeça o chapeu, Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo. Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente Era um velho penante, um penante indecente, Já muito carcomido e muito esburacado, E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado. Depois o Creador (honra lhe seja feita!) Achou a sua obra uma obra imperfeita, Mundo serrafaçal, globo de fancaria, Que nem um aprendiz de Deus assignaria, E furioso escarrou no mundo sublumar, E a saliva ao cahir na terra fez o mar. Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos Com bulas da cruzada alguns cruzados novos, E Tartufo podesse inda d’essa maneira Jejuar, sem comer de carne á sexta feira, Jehovah fez então para a crença devota A enguia, o bacalhau e a pescada marmota. Em seguida metteu a mão pelo sovaco, Mais profundo e maior que a caverna de Caco, E arrancando de lá parasitas extranhos, De toda a qualidade e todos os tamanhos Lançou sobre a terra, e d’este modo insonte Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte. Depois, para provar em summa quanto póde Um Creador, tirou dois pellos do bigode, Cortou-os em milhões e milhões de bocados, (Obra em que elle estragou quatrocentos machados) Dispersou-os no globo, e foi d’esta maneira Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira.
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Por fim com barro vil, assombro da olaria! O que é que imaginaes que o Creador faria? Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo, A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo O pobre Creador sentindo-se já fraco. (Coitado, tinha feito o universo e um macaco Em seis dias!) pensou: — Deixem-nos de asneiras. Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras, Fastio… Isto dá cabo até d’uma pessoa… Nada, toca a dormir uma sonata boa! Descalçou-se, tirou os oc’los e chinó, Pitadeou com delicia alguns trovões em pó, Abriu, para cahir n’um somno repentino, O alfarrabio chamado o livro do Destino. E enflanelando bem a carcassa caduca, Com o barrete azul celeste até á nuca, Fez ortodoxamente o seu signal da cruz Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz, E de pança p’ro ar, n’um repoiso bemdicto, Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito N’um immenso enxergão de nevoa e luz doirada. E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.
Guerra Junqueiro
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