
Canto e Palavra (Affonso Romano de Sant'Anna)
Data 17/09/2011 11:53:59 | Tópico: Poemas -> Introspecção
|  1.
Todo homem é vário. Vário e múltiplo. Eu sou menos: sou um duplo e me contento com o que sou.
Fosse meu nome legião, meu destino talvez fosse a fossa e o abismo onde a vara de porcos me emborcou.
Não sou tantos, repito, sou um duplo e me contento com o que sou.
2.
Sou primeiro o canto e o que cantou e só depois – palavra e o que falou.
Meu corpo testifica este conflito quando entre palavras e canto não se perde ou se dissipa, mas se afirma e me redime.
O homem primeiro é o canto. só depois se organiza, se acrescenta se articula, se clareia de palavras e dissipa o que são brumas.
Se o canto é o eu fluindo, a palavra é o eu pensado. na palavra eu sempre guio, mas no canto eu sou guiado.
O canto é o que atinjo (ocultamente) sem me oferecer, e quando, de repente, eu me descubro – sem querer.
A palavra, ao contrário, é o ato claro, o talho e o atalho – no objeto,
embora seja como o corpo um ser concreto e como o mito – um ser incerto.
3.
Quereis saber como eu faço ou de mim como eu quero? É fácil: Cultivo em mim os meus contrários e a síntese dos termos cultivo, sabendo que o canto é quando e a palavra é onde , e que ela o ultrapassa mais que o complementa . E certo que o homem embora sinta e pense, cante e fale seus conflitos nunca vence, é que eu tranqüilo me exponho, em fala me traduzo, em canto me componho: pois um homem somente se organiza e completo se apresenta quando com seus contrários se acrescenta.
4.
Difícil é demarcar o limite, o dia, o instante em que o homem de seu canto se destaca. O limite, o dia, o instante em que o homem se desfaz da imponderável música-novelo-e-ovo e configura-se no gesso, e do que era um homem-canto emerge um homem-texto.
Difícil é dizer como e onde, não o porque, um dia a gente se observa, Se admira, Mais que isto: um dia o ser do homem todo denuncia: já não se flui como fluía, nem se esvai como esvaía, edo organismo informe e vago emerge a vida organizada.
Nada se perdeu nem jamais se perderia neste homem que de novo se formou. Algo duro nele se passa e em seu trajeto se passou, quando indo do canto à palavra a si mesmo ultrapassou.
Affonso Romano de Sant'Anna.
Imagem: João Almeida Photography.
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