
[Aroma de Chocolate]
Data 11/09/2011 17:31:51 | Tópico: Poemas
| [Contrapontos: um sonho, as dores do crescimento, o corte e de novo, a dor — na noite, evola-se um aroma de chocolate!]
Madrugada... acordo num sobressalto; deitado de costas, esfrego os olhos; tateio a cama. no silêncio da casa adormecida, os ruídos se avivam —, estalos de madeiras, o estrídulo de um grilo na copa,
e nos outros quartos, o uníssono ressonar. Ao longe, de pontos distintos da cidade, os latidos dos cães parecem alastrar a noite como se o Amanhecer nunca antes existira.
E o barulho de um carro que se distancia, torna ainda mais vazia a extensa avenida e deixa no ar um por quê sem resposta que insiste em me fazer pensar na morte.
Nervoso, de olhos pregados no escuro, reviro as cobertas numa bucha empapada de suor. a insônia dói... a ansiedade aumenta, o silêncio avulta em zumbidos intensos;
o vazio cresce e é tanta a sede, que me levanto e vou até à cozinha; a luz incandescente transtorna as coisas —, ferem-me os olhos os gumes dos punhais
do brilho intenso dos alumínios na prateleira. sobre a escura madeira da mesa nua, restos de ontem —, biscoitos de polvilho, algumas xícaras, um bule esmaltado.
Formiguinhas pretas trabalham ativamente na faina de carregar os cristais do açúcar derramado, e um vidro mal tampado de chocolate em pó —, a súbita estupefação de as coisas serem sem mim!
De repente, estaca-se o escuro trem de pensamentos; paro... abro o vidro bem devagar, fecho os olhos, e lentamente, sorvo o delicioso aroma do chocolate... O que me traz, e aonde me leva, esse aroma?!
Agora, a vida me parece, de novo, possível, posso até saborear alguma [antiga] felicidade, ter de novo aquela singela alegria criança, aquela, que a Manhã sempre me trazia —,
a alegre corrida pelas ruas ainda sonolentas, para chegar em tempo, antes da sineta da escola, e assim, mais uma vez, renovar a promessa de um dia, eu vir a "ser gente"!
Não ouso fechar a tampa do vidro de chocolate para não encerrar a promessa de mim, pois, neste instante, é tênue o fio da lembrança. e para o sonho, o corte e a dor pungente,
o aroma do chocolate trescala na noite e promete uma ruidosa esperança no amanhecer —; a criança eu vive ainda, e pensa que vai "ser gente"!
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