
Longe (Cecília Meireles)
Data 31/08/2011 00:36:30 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
| Longe nas eras corre um menino. Voam as nuvens, cantam os pássaros e as borboletas sugam o silêncio na seda fina de aéreas conchas. Corre um menino longe no mundo, longe no tempo. Voam as vozes dos homens, longe. Um tênue vento balança as ervas, oprime as pétalas, leva os rumores graves dos carros. O pólen voa, fogem abelhas.
Corre um menino por entre os séculos.
Corre um menino solto, sozinho, na madrugada de um país claro.
Assim te vejo até agora, náufrago límpido e solitário.
Noutros lugares constroem barcos para teus olhos com arabescos de algas e anêmonas. Noutros se formam secretos rostos, estranhos lábios, para te verem em noites de ouro, para chamarem tua presença tão provisória, para chorarem sobre a saudade dos teus retratos.
E estão dormindo a onda mortífera e a estrela acerba. E estão nascendo os dedos pálidos, com ramos verdes de misereres para o teu dia sobre os oceanos desbaratado.
Longe do mundo voas disperso, alheio a tudo que os anjos erguem sobre o teu passo. Sobre o teu passo, o louro campo, movido apenas por brando vento, ervas floridas e sem memória outra vez cerra.
(Ó longitudes, ó logaritmos entre o celeste e o humano mapa!)
No chão da infância o fim do orvalho sepulta lágrimas que vão pisando teus pés, ligeiros, cortando o tempo, dançando pressas para a chegada.
Longe, na vida, longe, entre as almas. Pequenas conchas estão nascendo para escutarem tua passagem.
Longe, nos verdes limos das águas. Que outros ouvidos irão sabendo de tua sorte? Os céus, tão altos... Tão fundo, as algas! Teu nome apenas no rol dos mortos, cinza das cinzas na mão do vento que se desata...
Voam as letras, voam as datas, voa a memória de tristes asas...
Ó alegria dos campos claros! Vieste, correste - não foste nada!
E as cotovias estão cantando, e ao longe saltam ruivos cavalos.
Cecília Meireles.
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