
[Futuridade]
Data 29/07/2011 15:28:54 | Tópico: Poemas
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[À memória de Augusto dos Anjos, essas “Memórias do Largo da Matriz” – Araguari-MG]
Abandonou-me a lira radiosa em que as belas alamandas, resplandecentes ao sol da manhã, fariam meus versos planger alegrias!
Fugiu-me aquele alegre pensamento que passeia, brejeiro, por entre as rosas rorejadas do orvalho da madrugada, e senta-se no vazio dos bancos da praça.
Desvaneceu-se do meu olhar o poente avermelhado daquele tempo em que as andorinhas me descreveram, com voos rápidos, vãs esperanças de eu escapar.
Apagou-se, no instante em que eu a buscava, a última luz da casa da ponta da rua, essa misteriosa luz que me augurava promessas de uma vida que nunca seria minha.
E ficou-me a dor, a cortante dor, a dor fina da constante latência do Fim, fria como os cortantes ventos de agosto que longe levam a fumaça do fogão de lenha.
Dor pelo absurdo da Morte que inda ontem eu vi, coberta de brancas e simplórias margaridas, seguida de perto pelos homens semimortos, a subir lentamente a infinita ladeira do Rosário!
Era o séquito da implacável demolidora de sentidos, vazia, dura como só pode ser a morte que nos tem: a futuridade das vaidades e de todas as miradas, para sempre perdidas na vã caminhada!
____________ [Penas do Desterro, 26 de maio de 1999] Da minha coletânea "Arribadas[O Passo da Volta]" - ilustrada por Paula Baggio
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