
Catando os cacos do caos (Afonso Romano de Sant'Anna)
Data 26/07/2011 15:49:18 | Tópico: Poemas -> Introspecção
|  Catar os cacos do caos como quem cata no deserto o cacto ............ - como se fosse flor.
Catar os restos e ossos da utopia ............ como de porta em porta o lixeiro apanha detritos da festa fria e pobre no crepúsculo se aquece na fogueira erguida com os destroços do dia.
Catar a verdade contida em cada concha de mão, como o mendigo cata as pulgas no pêlo ............ - do dia cão.
Recortar o sentido como o alfaiate-artista, costurá-lo pelo avesso com a inconsútil emenda à vista.
Como o arqueólogo reunir os fragmentos, como se ao vento se pudessem pedir as flores despetaladas no tempo.
Catar os cacos de Dionisio e Baco, no mosaico antigo e no copo seco erguido beber o vinho ou sangue vertido.
Catar os cacos de Orfeu partido pela paixão das bacantes e com Prometeu refazer o fígado ............ - como era antes.
Catar palavras cortantes no rio do escuro instante e descobrir nessas pedras o brilho do diamante.
É um quebra-cabeça? ............ Então de cabeça quebrada vamos sobre a parede do nada deixar gravada a emoção
......Cacos de mim ......Cacos do não ......Cacos do sim ......Cacos do antes ......Cacos do fim
Não é dentro ............ nem fora embora seja dentro e fora ..... no nunca e a toda hora que violento .....o sentido nos deflora.
Catar os cacos do presente e outrora e enfrentar a noite com o vitral da aurora.
Affonso Romano de Sant'Anna, poeta brasileiro.
Foto: Praia de Caco de Vidro Colorido, Califórnia.
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