
Vocação de Poeta (F. Nietzsche)
Data 25/07/2011 16:56:57 | Tópico: Poemas -> Introspecção
|  Recentemente, ao repousar Sob essa folhagem Ouvi bater, tiquetaque, Suavemente, como em compasso. Aborrecido, fiz uma careta, Depois, abandonando-me, Acabei, como um poeta, Por imitar o mesmo tiquetaque.
Ouvindo assim, upa, Saltar as sílabas, Desatei de repente a rir, Durante um bom quarto de hora. Tu poeta? Tu poeta? Estarás assim mal da cabeça? «Sim, senhor, você é poeta», Diz Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.
Quem espero eu sob este arbusto? Quem estarei a espreitar como um ladrão? Uma palavra? Uma imagem? Logo a minha ruína aparece. Nada do que rasteja, ou que saltite Escapa ao impulso dos meus versos, «Sim, senhor, você é poeta», Diz Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.
A rima é como uma flecha, Que temor, que tremor, Ao penetrar no coração, Lagarto a contorcer-se! Morrereis assim, pobres diabos, Ou ficareis embriagados, «Sim, senhor, você é poeta», Diz Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.
Versículos informes que se atropelam, Pequenas palavras loucas, que efervescência Até que, linha a linha, Pendeis todas do meu tiquetaque. Haverá espantalhos A quem isso diverte? Os poetas serão impiedosos? «Sim, senhor, você é poeta», Diz, Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.
Troças, Pássaro? Apetece-te rir? O meu cérebro já tão doente, Estará o coração ainda pior? Ah! receia, teme o meu rancor. Mesmo no íntimo da cólera, O poeta rima a direito. «Sim, senhor, você é poeta», Diz Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros. Friedrich Nietzsche, in: "A Gaia Ciência".
Art: Carl Spitzweg - Der arme Poet (Neue Pinakothek).
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