
O medo (Carlos Drummond de Andrade)
Data 12/06/2011 12:12:28 | Tópico: Poemas -> Reflexão
|  A Antônio Candido
"Porque há para todos nós um problema sério... Este problema é o do medo." (Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração)
Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor, este célebre sentimento, e o amor faltou: chovia, ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo... Nevava. O medo, com sua capa, nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti, meu companheiro moreno, De nós, de vós: e de tudo. Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses, Nosso caminho: traçado. Por que morrer em conjunto? E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo, vem, ó terror das estradas, susto na noite, receio de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos, lentos poderes do láudano. Até a canção medrosa se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo, duros tijolos de medo, medrosos caules, repuxos, ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência, com resplendores covardes, atingiremos o cimo de nossa cauta subida.
O medo, com sua física, tanto produz: carcereiros, edifícios, escritores, este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor, Os mais velhos compreendem. O medo cristalizou-os. Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente, recuando de olhos acesos. Nossos filhos tão felizes... Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade. Depois da cidade, o mundo. Depois do mundo, as estrelas, dançando o baile do medo.
 Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro.
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