
Evocação de silêncios (Ferreira Gullar)
Data 19/05/2011 19:40:01 | Tópico: Poemas -> Introspecção
|  O silêncio habitava o corredor de entrada de uma meia morada na rua das Hortas
o silêncio era frio no chão de ladrilhos e branco de cal nas paredes altas
enquanto lá fora o sol escaldava
Para além da porta na sala nos quartos o silêncio cheirava àquela família
e na cristaleira (onde a luz se excedia) cintilava extremo:
quase se partia
Mas era macio nas folhas caladas do quintal vazio
e negro no poço negro
que tudo sugava: vozes luzes tatalar de asa
o que circulava no quintal da casa
O mesmo silêncio voava em zoada nas copas nas palmas por sobre telhados até uma caldeira que enferrujava na areia da praia do Jenipapeiro
e ali se deitava: uma nesga dágua
um susto no chão
fragmento talvez de água primeira
água brasileira
Era também açúcar o silêncio dentro do depósito (na quitanda de tarde)
o cheiro queimando sob a tampa no escuro
energia solar que vendíamos aos quilos
Que rumor era esse? barulho que de tão oculto só o olfato o escuta?
que silêncio era esse tão gritado de vozes (todas elas) queimadas em fogo alto?
(na usina)
alarido das tardes das manhãs
agora em tumulto dentro do açúcar
um estampido (um clarão) se se abre a tampa.
Ferreira Gullar, poeta brasileiro, In: Muitas Vozes, Ed. José Olympio.
Imagem: João de Almeida Photography
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