
Sonho em contra-mão
Data 27/09/2007 08:24:45 | Tópico: Poemas
| Sonho em contra-mão
Abro os olhos com lentidão porque ainda abrigo a preguiça nos lençóis e o nariz sente o frio matinal equilibrado na ponta. Tenho a vaga ideia que sonhei... era de noite... mas também podia ter sido madrugada... a escuridão pendurada nos cortinados baralhou-me o tempo . Vi flores no papel de parede do meu quarto e esqueci que as paredes agora são pedra nua rosada... Inspirei o aroma da relva molhada prisioneira no meu tecto e fiz caracóis no cabelo que faziam inveja a qualquer mar turbulento... Escrevi meia dúzia de livros com os dedos sem tinta porque nos lábios usava bâton e as palavras assim avivadas de vermelho carimbam-se facilmente em qualquer folha de papel assimétrica... Joguei às cartas com o tapete e o candeeiro de areia roubou-me a cor do dinheiro porque estava cansado de tanto azul a mergulhar nas suas costas... Quis fazer bolas de sabão com a água das garrafas e pastilhas efervescentes com sabor a laranja... mas elas não voaram para fora do copo e foi mesmo ali que fizeram todas as manobras arrojadas... Morreram todas em poucos minutos mas deixaram no vidro fortes marcas da sua existência. Dá-me vontade de rir quando me lembro da demência deste sonho... Mas depois ... pensando bem... Porque haveria eu de rir de um sonho tão cheio de sabor... só porque ele me aparece no cérebro em contra-mão? A sensaboria em demasia na realidade que se apresenta impecavelmente vestida com linhas rectas Pode parecer que não... mas também enjoa!
Daniela Pereira
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