
DESENCANTO
Data 30/03/2011 10:32:51 | Tópico: Sonetos
| 111
Não me cabe conduzir Este mundo de tal forma Que tentando outro porvir Encontrara em vã reforma O caminho a prosseguir Nesta angústia que deforma.
Reunindo o quanto possa E talvez já nada reste O meu mundo, a sorte nossa O cenário mais agreste Onde quis e nada endossa A visão clara e celeste.
E se vejo ou não o quanto Bebo apenas desencanto.
112
Na palavra mais venal No sentido onde disperso O resumo tal e qual Tento ousar em tom diverso Do que pude em ritual Em tormentos, quando verso.
Resumindo o meu caminho Onde nada se fez tanto O meu passo mais daninho Garantindo o ledo pranto E bebendo deste vinho, Sei do todo em vão quebranto
Resplandece esta ilusão Em sobeja dimensão.
113
Nada mais se vendo enquanto O que pude não viera A verdade aonde espanto Derradeira primavera, O meu verso noutro canto, A palavra mais sincera.
Resumindo o que não vivo E sequer possa encontrar Num momento onde me privo Da vontade de chegar O meu passo mais altivo Já não tem qualquer lugar,
E sem porto, o meu navio Segue em louco desvario.
114
Marcas destas noites vãs Entre tantas que busquei As angústias tão malsãs Entre os rumos mal tomei As palavras mais louçãs Dominando a velha grei.
No momento onde a clausura Dita o rumo e nada traz, A verdade que tortura Deixa a sorte para trás. E a incerteza se perdura Mostra um rumo atroz, mordaz,
Restaurando o que se quis Já não possa ser feliz.
115
Destes louros da vitória Que sonhara no passado, Emoção se torna escória E o meu tempo desolado, Não redime esta memória Nem progride; então me evado.
Esquecera qualquer sonho E vagando em noite escassa A palavra onde a proponho Na verdade nada traça Tão somente este enfadonho Caminhar em leda praça.
Marcas de outras eras trago E cultivo cada estrago.
116
Arremato cada verso Onde pude ser além Do cenário mais disperso Quando o nada nos convém E se possa eu desconverso O vazio sem meu bem.
Restaurando o que inda pude Apresenta-se o final E meu canto mesmo rude, Desarvora bem ou mal, E tentando outra atitude Vejo a antiga, tão banal.
Escusando quem me fira, Apagando a torpe mira.
117
Marejando sem cuidado Com a fúria do oceano, Onde louco, agora invado, E mostrasse novo dano, O meu canto desolado, Dele mesmo não me ufano.
Resta apenas o que eu traga No meu peito sem temer, A explosão audaz e vaga Noutro rumo a me perder, Afiando cada adaga E sabendo ora prever
O momento sem palavra Onde o tempo a morte lavra.
118
Na medida do possível Tento acreditar no sonho, E se fosse tão mais crível O cenário que componho, Num momento mais plausível Outro enredo ora proponho.
Versifico quando busco Dos meus ermos um sinal, Que pudera ser tão brusco E deveras sensual, Novamente se me ofusco Tento um novo ritual.
Esquecendo o que não levo Meu amor não foi longevo.
119
Açodando o que vivera Com palavras mais sutis O pavio aceso e a cera Pouco a pouco já desfiz, Onde a sorte concedera Eu jamais serei feliz.
Expressando em verso atroz O que nunca mais se visse, Espalhando ao longe a voz, Anuncia-se a mesmice E o meu canto em ledos nós Nem sequer o sonho ouvisse.
Resplandece o meu futuro Onde em nada me asseguro.
120
Bebo e tento num instante Desvendar este infinito O meu passo não garante Nem sequer o velho rito E se molda num rompante O que possa e necessito.
Esbarrando no vazio No momento mais cruel Onde o rumo em desafio Faz a vida em carrossel, Tramo o quanto ora desvio Num sombrio e ledo céu.
A palavra não nos cura, Traz somente esta tortura...
|
|