
Contrabandista
Data 28/03/2011 23:40:52 | Tópico: Poemas
| Sou poeta. Um contrabandista de sonhos, Atravesso a salto Todas as fronteiras existenciais. Montado num cometa Tomo de assalto Os castelos que, risonhos Desde os tempos imemoriais, Estão no topo dos montes, Em todos os horizontes Deste mundo que é meu E teu, De todos nós Sem excepção. Todos tombam ao som Da voz Do meu coração. Nada há de mau ou bom Em tudo isto: Nem a cruz de Cristo No peito da minha veste; Nem a minha montaria A que chamo peste; Nem a sanguínea ria Que corre por ali abaixo; Nem sequer o velho capacho Com o dizer perdido: “Seja bem vindo Quem Vier por bem!”
Mas eu sou contrabandista E nos meus sacos, Pelo que diz a lista, Levo ilusões, Paixões, Sentimentos vãos, Assassinas mãos E dois anjos velhacos Que há muito tombaram do céu, Para dentro do saco meu.
Sim, sou contrabandista, Mas quando passo em revista O que no meu saco trago, Logo percebo Que sou mancebo E todos, com um olhar vago, Me dizem que meu contrabando Não lhes serve para nada, Pois todos têm entravada Em si A mesma ilusão E dor no coração Que em mim Carrego. “venha outro dia Quando For de alegria A nossa saudade, Quando A realidade Não for etérea, Mas real, Como o dom imortal, Que um jovem mortal Transcreve para o papel; Quando For verdadeira A alma derradeira Que torna possível O impossível, Visível o invisível, Tocável o intocável; Mas hoje não, Que temos outras tarefas Na mão. Temos outras tarefas…”
Mas eu, poeta, Flagelado fui pela seta, Vivendo fugido, Perseguido De e por mim próprio, Numa viela secreta, Nas trevas e ao frio, Procuro refúgio De mim E o fim, Já tão próximo, Leva-me ao jardim Ultimo, Onde a vida desaparece, Como uma antiga prece, Se perde na memória De quem reza Na certeza E na tristeza De encontrar a glória, Duma vã vitória, No sangue dos inocentes Em guilhotinadas mentes, Por um severo tirano, Que ao poeta insano, Rasga a pele e as vestes, Deixando as pestes Tomarem conta Do corpo velho, Que ainda conta Histórias do Evangelho, Da carochinha, Do capuchinho vermelho E da má rainha, Aquela que deu a maçã, Naquela leda manhã E fez adormecer a bela Donzela…
Sou contrabandista! E não tenho nenhuma pista De como aqui vim parar. Já não tenho fronteiras para saltar, Além daquelas que eu crio Quando, numa folha de papel, Descrevo o que sinto, Letras na folha pinto, Para depois ler para mim próprio. Pois jamais alguém Quererá ler os sonhos do impossível, Escritos por quem Vive em si fechado, Censurado, Aprisionado, Sem fuga possível.
E assim sonho ser Um semeador A colher Apenas frutos da dor E dos sentimentos perdidos, Por mim outrora sentidos, Mas hoje tão distantes…
Sonho ter outros semblantes, Ser outra pessoa, Diferente de mim. Sonho ser outra pessoa, A quem a dor tanto magoa.
Mas quando acordo vejo a realidade, E percebo que não passo Dum contrabandista De sonhos e saudade, Perdido no tempo-espaço Da minha existência.
Sou um cientista Sem ciência, Nem experiência; Um filósofo que não pensa, Mas não há ninguém que me convença A ser eu próprio Outra vez, A esquecer o letrado rio, Regressando a mim Outra vez…
Perco-me neste jardim, Olhando as flores Humanas e naturais, Suspirando vezes sem fim, Dizendo que nunca mais Viverei seguindo valores E ideias, Que não os meus. E quando chegar a hora do adeus Pedirei a uma létide Que me escreva na lápide:
“Aqui jaz Um contrabandista De sonhos e saudade, Que nunca encontrou a paz, Nem tinha a mínima pista Que se o que dizia era verdade!”
26.03.1996
|
|