
Renovar
Data 17/09/2007 21:44:49 | Tópico: Crónicas
| Estava sozinho num mundo desolado. Estava rodeado de ruínas, numa enorme planície, que outrora tinha sido uma utópica cidade. Conseguia lembrar-me bem da sua magnificência. Mas agora tudo era ruína. Como se assim estivesse à milhares de anos, abandonado. Ao longe conseguia ver umas montanhas. A cobrir tudo estava uma poeira cinzenta e espessa. Os céus estavam vermelhos, como se estivessem ensanguentados. E a mancha de sangue ia aumentando a pouco e pouco com o passar do tempo. Tudo era desolação… Tudo era silêncio… Tudo era vazio… Estava um frio estranho, pois não era desconfortável. Era como se o frio não me afectasse. Eu passeava-me no meio daquela angústia, em busca de algo, ou alguém. Usava uma armadura brilhante que contrastava com toda a ruína em meu redor. Quem era eu? Não sei. Talvez a mistura de todas as minhas vidas, numa só existência vã. Caí de joelhos no chão e perguntei ao sangue que cobria os céus: - Quem fez isto? Foram os homens? Não obtive resposta. Então perguntei novamente: - Porque é que teve de acabar? Então o sangue respondeu: - Tem de recomeçar novamente. Tudo que termina tem um principio, esse principio sucede a um fim. É um ciclo… Eu respondi: - Porquê assim? Porquê? Porquê?... Não obtive resposta, mas no fundo eu sabia o porquê. Então perguntei: - E eu? Que vai acontecer? O sangue que inundava os céus respondeu: - Tu viverás novamente, no novo mundo, como viveste até hoje… Baixei os olhos resignado. Queria contestar, mas não tinha argumentos nem tão pouco palavras. Apenas disse: - Porquê? Criação... Crescimento… Destruição… Nesse momento a minha mente foi assolada por recordações. Aquele momento, vivido vezes e vezes sem conta. Aquele momento que era o fim, mas também o principio, vivido incontáveis vezes. Incontáveis vezes em que tudo que conhecemos é criado e destruído num ciclo vicioso. Na esperança de um dia alcançar a perfeição. Resignado tirei a armadura, de nada me era necessária. Rapidamente ficou coberta pelo pó cinzento. Eu encostei-me, à espera, cansado. Não consegui conter uma só e única lágrima que me escorreu pelo rosto. Nem sequer me dei ao trabalho de a provar…
Não sei se era sonho, ou lembrança…
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