
Homem fiel
Data 02/03/2011 23:55:10 | Tópico: Contos -> Humor
| Ele estava completamente concentrado em seus relatórios diários quando bateram à porta. Parou por um instante, elevando um pouco o queixo, e voltou a escrever. Novamente, bateram à porta. – Senhor, posso entrar? Era uma voz feminina, quase sensual. Melíflua, parecia que deslizava nos ouvidos dele. A famosa voz de travesseiro, que, como se feita de pluma, se abraça com o vento e fica dando voltas e voltas até finalmente cair (ou sumir – como um sussurro). Mesmo sentindo-se tentado, ele se limitou a um “uhum”. Não tinha tempo para comportamentos adolescentes, apesar de sentir-se altamente excitado com a idéia de ter um caso com sua belíssima secretária. Além do mais, era um homem casado, não deveria prestar-se àqueles pensamentos infames. Ela entrou na sala. Usava uma saia justa – na altura do joelho – e um suéter carmesim. Tinha os cabelos presos, mas alguns fios escapavam ao penteado, emoldurando-lhe o bonito rosto, contemplado com um par de belos olhos verdes. Um semblante impecável, não fossem as olheiras escuras abaixo dos olhos e o nariz levemente corado, como de quem andou chorando. Entretanto, apesar da aparência estonteante da mulher e do impulso devastador de oferecer-lhe algum consolo, ele continuou concentrado na papelada sobre a escrivaninha... Precisava se controlar. – Senhor, é a terceira vez que sua esposa liga. Ela parecia angustiada... Você não deveria atender a ligação? – Não. Ela sabe que não deve me incomodar durante o trabalho. – Mas senhor, parece ser muito importante. – Pois diga a ela que resolveremos tudo quando eu chegar em casa. – Mas o senhor sempre chega muito cansado em casa, e acaba dormindo durante as discussões. – Isso não é de todo verdade. – ele disse, sem desviar a atenção dos papeis, resistindo à atração quase magnética que o decote dela exercia sobre seus olhos. – Me sirva um pouco de café, por favor. – Realmente, é uma verdade incompleta. O Senhor dorme durante o sexo também! – ela acusou, enquanto enchia um copo na máquina de café expresso. – Mas isso é um absurdo! Não vou discutir minha vida sexual com minha secretária. – E sua esposa. – O que disse? – Sua secretária e esposa. Ele olhou-a por cima do copo, com uma sobrancelha arqueada. Parecia furioso. – Onde você quer chegar? Nós já combinamos que aqui eu sou apenas o seu patrão, e como tal, mereço seu respeito integral. Não posso tolerar esse tipo de comportamento, entendeu? – Pois eu me demito! – Está bem. Esse é seu aviso prévio? Quando pretende deixar a empresa? – Você não entendeu, eu me demito como sua esposa! O homem pareceu chocado ao ouvi-la, e suas feições passaram por uma seqüência de cores e expressões, entre vermelho-raiva, roxo-indignação e cinza-tristeza. – Se é o que você quer... Mande seu advogado falar comigo mais tarde para resolvermos a questão do divorcio. Pode ir. Ela sentiu um aperto na garganta, os olhos ficaram embaçados; a voz saiu embargada de um choro iminente, contido pelo orgulho. – Sim senhor. Eu... – como não pudesse completar, ela simplesmente deu-lhe as costas para se retirar, mas ele a impediu. – Espere! - chamou. - Eu e a minha esposa, nós já estamos tecnicamente separados, não é? – Sim. Você está completamente livre, se é isso que quer saber. E então um braço forte a envolveu de repente, e seu corpo chocou-se com o corpo másculo do homem, agora de pé à sua frente. Ele ofegava, e ela sentiu uma onda de calor subir por seu corpo quando as mãos dele pousaram-se bruscamente sobre suas pernas, e suas bocas encaixaram-se num beijo faminto, cheio de desejo.
|
|