
O lobo das estepes (Hermann Hesse)
Data 04/02/2011 23:01:20 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Eu, lobo das estepes, corro, corro, a neve cobre o mundo, da bétula levanta voo o corvo, mas nunca aparece uma lebre, nunca aparece um cervo.
E como eu amo os cervos! Se acaso encontrasse algum, prendia-o com garras e dentes: é a coisa mais bela em que penso.
Com os sensíveis seria também sensível, devorava-os todos de extremo a extremo, bebia-lhes até ao fundo o sangue púrpura e espesso, e solitariamente uivava pela noite dentro. Contentava-me com uma lebre.
É tão doce à noite o sabor da sua carne quente. Porventura foi-me negado tudo quanto possa, um pouco, alegrar a vida, um pouco apenas?
A minha companheira, há muito que não a tenho, o pêlo da minha cauda começa a ficar cor de cinza, e só quando há bastante luz é que vejo.
Agora corro e sonho com cervos, ouço o vento soprar nas grandes noites de inverno, e a minha alma dolorosa, entrego-a eu ao demónio.
Hermann Hesse, poeta e escritor alemão, In: Doze Nós numa Corda. Poemas traduzidos por Herberto Helder.
|
|