
MEUS SONETOS VOLUME 141
Data 03/01/2011 22:14:09 | Tópico: Sonetos
|
1
Recordo a velha casa onde morava Um anjo, a bela deusa desta rua Que um dia em serenata fez-se nua Deitando sobre amor, desejo em lava.
O peito de quem sonha já se lava Nas águas da saudade. Continua A noite constelar que entregue à lua Durante tanto tempo me entranhava.
Olhando estes letreiros da cidade, O sonho em que pintei felicidade Esvai-se, esfumaçado, já sem brilho
O verso em que dizia deste encanto, Vagando perambula canto a canto E morre sem luar, velho andarilho... Marcos Loures
2
Recordações tão vivas na memória, Marcantes os momentos que vivi. Guardada fielmente em minha história, Alçando o pensamento volto a ti.
Saudade se demonstra em plena glória, De um tempo que jamais eu esqueci. Relego ao sentimento, vil escória O tempo em que sozinho eu me perdi
Marcando em cada gesto, volta à tona, O que jamais morreu, tão só ressona E mesmo em agonia trama flores.
Do quanto que sofri e não mereço Promessas do sublime recomeço Vieste dirimindo minhas dores.
3
Reconhecendo os erros e pecados, Há tanto que procuro um cais seguro. O céu que muitas vezes fez-se escuro Moldando os meus caminhos malfadados.
Os dados sobre a mesa são jogados E a sorte que deveras eu procuro Se esconde atrás da cerca, enfrenta o muro Porém não vencerei jamais os Fados.
Irônico falar de solidão? Perceba quanto o amor se fez em vão No olhar lacrimejante que carrego.
Pior do que saber escuridão, É perder das estradas, a noção E ver que em plena luz, prossigo cego...
4
Recôndito desejo agora exposto, Rompendo qualquer trava, ganha a rua, E enquanto vejo a deusa amante e nua Amarga realidade perde o posto.
Eu sei que isto te causa algum desgosto, Porém a nossa vida continua Minha alma há tantos anos já foi tua Mas sei que em nosso caso é pleno agosto.
Assim, vou procurar na filial Aquilo que a matriz me sonegou. Se o sonho num momento se acabou
Retorno imaginando triunfal Fará com que esta luz se reacenda O amor jamais suporta alguma emenda...
5
Recônditas lembranças do quintal Sonatas ensaiadas; violões. O quanto se perderam emoções E o tempo se mostrou vago e banal.
Subindo novamente este degrau Encontro sob a porta as ilusões, E volto a ter somente nos porões O que julguei ser bem, mas faz tão mal.
Mas teimo sertanejas luas frágeis Os dedos na viola dançam ágeis Batendo nesta tecla: romantismo.
Porém realidade bate à porta, E vejo a Musa exposta, semi-morta, Aprofundando assim, o imenso abismo...
6
Recôndita emoção que bruxuleia Tomada pelas falsas iguarias, As nuvens negam lua clara e cheia, De amores tão somente vis sangrias...
Não posso mergulhar, minha alma anseia As sendas mais distantes e sombrias. Licores de esperança perdem veia E bebem ilusões sem serventias.
Cáspite! Reconheço os meus pecados, Os erros repetidos e sobejos. Os atos cometidos, malfadados
Os olhos no vazio. A sordidez Aonde os mais estúpidos desejos Levaram à total insensatez!
7
Recomeço das cinzas, faço versos E trago na fumaça do cigarro Os dias que passamos mais diversos, E nada da buzina do meu carro
Que quieta não mais fala de universos Nem deixa que a morena tire um sarro. Qual avião travando os seus reversos Fazendo-me voltar de novo ao barro.
Um flamboyant vermelho cor de sangue Morrendo no quintal sem ter cuidado Minha alma quando exala puro mangue
Um puro sangue foge. Na verdade, Começo desta história mal contado, Ainda bem, amiga, nunca é tarde...
8
Revendo tantos medos que sentira Por ter uma saudade consumindo; De tanto que tristeza mais me tira Amor vem, recupera, construindo...
Amar recuperando uma esperança Guardada neste cofre, coração. Fazendo deste velho, uma criança; Renova e regenera uma emoção...
Quem dera se esse amor não me deixasse; Chegasse a mim; grudasse: tatuagem... Que a fonte deste amor não mais secasse; Não fosse simplesmente uma miragem.
Mas creio que este amor já se aproxima, Trazendo, no seu braço, uma menina...
9
Revendo a velha casa onde morei Durante a minha infância, já perdida, Encontro o que por tempos, procurei, Razão pra prosseguir a minha vida.
Castelos e princesas que matei, Ressurgem na minha alma distraída, O rio decorando a velha grei, Pescar cada ilusão adormecida...
Recordações... somente e nada mais... O tempo me responde; enfim: jamais! Agora o paletó domina a cena.
Escombros do que fui, pobres remendos, Os juros não surtiram dividendos, E a morte em ironia, agora acena...
10
Revendo cada cena que passamos Não posso mais negar esta saudade. A vida sem ter: pura maldade, Que vale um arvoredo sem seus ramos?
De tudo o que vivemos, desfrutamos, O amor se fez em plena claridade, E quando a solidão audaz me invade, Pergunto por que nós nos separamos...
Não cabem mais desculpas, quero a ti, Se outrora, noutros braços me perdi, Apenas ilusão e nada mais.
Saber que tu voltaste me redime, Embora guarde a sensação de um crime, Não quero te perder, amor; jamais...
11
Revendo anotações em alfarrábios Eu vejo que se estampa em um retrato Os lábios que se foram sempre sábios Com astrolábios sigo o nosso trato.
Audácia sem falácia e sem desculpa Com lupa eu posso ver o gozo estúpido Daquela que sem vela estende a culpa Com olhos sensuais e um jeito cúpido.
Na típica mentira atira os guizos Abalroando o barco abarca a sanha Deitando em minhas costas lanhos, frisos Partida que eu pensara estar já ganha
Agora se perdendo em pouco tempo, Mostrou que fui somente um passatempo... Marcos Loures
12
Revelaste teu mistério: Foste minha companheira? Amor que pensei sério, Zombaste esta vida inteira...
Sempre o mais duro minério! Fingiste ser verdadeira... Amor exige critério; Levaste na brincadeira...
Nevaste cada momento Onde fogo consumiu. Não tens arrependimento;
Nem sabes o que fizeste. Pássaro peito fugiu... Pobres penas se reveste... Marcos Loures
13
Revelas relvas ervas e valores, Vaticino futuro glorioso! Nas almas e nos âmagos amores, Nos olhos tantos óleos. Oloroso
Perfume que me encharca, raras flores. Decoro com coragem, caloroso, Os templos que se ergueram sonhadores. Meu peito me maltrata tão idoso.
A fome de viver já me domina. Não quero conhecer eterna treva. Um brilho deste olhar cedo alucina,
Os olhos de quem morre e já se neva. És último estertor, bela menina, Primeiro e derradeiro amor, és Eva...
14
Revelas atitudes tão diversas Nestas situações mais complicadas. As noites que vivemos vão dispersas Em meio a tantas dores disfarçadas.
Não sabes quanto encantas. Nem percebes... Eu vivo em teu amor, uma esperança. Viajo o pensamento em calmas sebes, Nirvana em fantasia, uma alma alcança.
Me hás dito que medito sempre em vão, Malditos os momentos que perdi Em ditos e desditas da ilusão, Meus ritos mais doridos são por ti.
Mas amo, nunca nego essa verdade, Se ver-te arde, prefiro a ter saudade...
15
Revejo tais mistérios, toda a fúria, Que trama o fervilhar deste desejo. Na cama se contorce na luxúria Revolta com as ânsias deste beijo...
A carne se explodindo vai ao céu. Mergulho meu amor em tantos pomos. Bebendo desta abelha todo o mel, Devoro desta fruta vários gomos...
E sinto depois disso, um abandono Que traz esta delícia tantos sucos... Dormito inebriado, fundo sono, Os medos se esgotaram, vãos, caducos...
Cansado, desmaiando; mas lascivo, Refaço-me no amor e sobrevivo...
16
Revejo o meu amor em primavera, Nascendo em cada flor, uma esperança Que enquanto se transforma em mansa espera, Não traz do duro inverno nem lembrança.
Florindo, apascentando a fria fera, Fecunda toda a Terra enquanto avança A cada nova flor, decerto gera O olhar que enamorado já se lança.
A brisa que se faz primaveril, Tocando a nossa pele, mais gentil Espalhando verbenas pelos campos
Crisântemos, jasmins, lírios e rosas, As noites sob luzes fabulosas, Estrelas no meu céu são pirilampos... Marcos Loures
17
Revejo esta caixinha de rapé Deixada como herança. Na gaveta Guardados esquecidos. Um café Bebida tantas vezes predileta,
Celebra o meu passado que sem fé, Retorna como um rabo de cometa. Na velha sensação de um cafuné, Cenário do que fomos se completa.
Tivemos, inda lembro, alguns momentos Em que favorecidos pelos ventos, Ainda poderíamos sorrir.
Agora ao apagar antiga tocha, Eu calço do passado esta galocha E olho, sem ter ânimo, o porvir... Marcos Loures
18
Revejo cada dia que vivi Ao lado de quem tanto desejei. Decerto em mares outros naveguei E sei que ao fim de tudo, eu me perdi.
O quase que traduz o que há de ti Forrando os descaminhos que encontrei, O quanto amor me fez ser tolo rei Deveras não estavas mais aqui.
E segues tão soberba e indiferente, Buscando ser feliz com outra gente, Olhando para frente, desdenhosa.
Os gritos da saudade ainda ecoam Enquanto as melodias se destoam Na voz desta minha alma tão fanhosa...
19
Revejo cada cena que vivemos, Tragédias e comédias, intercalo. Momentos de prazer num intervalo Demonstram quantas vezes nos perdemos.
Quem sabe faz agora, percebemos Que enquanto beijo a boca eu já me calo, Montanhas da esperança, quando escalo Percebo lá de cima o que não temos...
Ciúmes, levianos e imbecis, Deixaram mais profunda cicatriz Fazendo da alegria um desespero.
Se eu quero que tu venhas para mim, Perceba que perfumas meu jardim, Trazendo à minha vida, algum tempero... Marcos Loures
20
Retratos na parede do meu quarto, Lembranças nas gavetas, pensamento. Deste menino audaz jamais me aparto, A noite revivendo em cada vento...
A casa aonde eu fui bem mais feliz, Sobrado derrubado há tantos anos. Qual fora algum fantasma ainda diz Da vida que perdi em desenganos...
As árvores, quintal, jardins e risos. Meu pai e minha mãe, irmãos chegando... Os dias se passaram sem avisos, Assim como as paredes, desabando...
Procuro e nada encontro, na verdade O que me resta enfim, tanta saudade!
21
Retratos esquecidos na memória Álbum amarelado pela vida, Enquanto a tua imagem, esquecida, Refaço dia-a-dia, a minha história.
O quanto imaginara riso e glória, Depois de tantos anos, a ferida Jamais cicatrizada, mas ungida Nas mãos que me diziam da vitória,
Minha cabeça serve de troféu Entregue de bandeja para a fera, O tempo vai passando e degenera
Dilacerando assim num carrossel As minhas esperanças e ilusões, Salvando as aparências em borrões...
22
Retratos deste sonho sem igual Numa moldura feita em ouro e prata. Desejo de te ter já me arrebata, E eu bebo deste raro ritual.
Amor que tantas vezes, triunfal Toando a fantasia nos retrata Na força que jamais algo desata Vencendo em harmonia qualquer mal.
Atônicas tristezas lá se vão Tomadas por gentil arribação Jamais retornarão, tenho a certeza.
Assim, ao debruçar-me na janela Eu vejo que este sonho se revela Com olhos embebidos em beleza... Marcos Loures
23
Retratos de nós dois são congruentes E sobrepostos formam um mosaico. Vivendo um novo tempo aonde o arcaico Se perde entre mil cores envolventes.
Sentir o que desejas, queres, sentes, Talvez fosse em verdade tão prosaico. No mundo sem juízo, intenso e laico, Dois corpos se mostrando enfim, contentes.
Qual fosse um passarinho que sem grade, Alçando em plenitude a liberdade Etéreas maravilhas cedo alcança,
Vislumbro no horizonte esta paisagem Refletindo qual fora uma miragem, O céu que nos dourou em esperança. Marcos Loures
24
Retrato pendurado Numa parede fria, Moldura de um passado Que eu não esqueceria
Não fosse o passo dado Em rumo à fantasia De um beijo apaixonado Em plena sintonia.
Agora, do teu lado, Eu canto todo dia, Um verso enamorado,
Tal qual eu não previa, E ser teu namorado, É tudo o que eu queria...
14025
Retrato o teu olhar dentro do meu, Num infinito espelho em que me dou. Além do que o amor imaginou, Teu rosto nos meus olhos se perdeu,
Neste redemoinho o que era teu Mergulha num instante aonde eu vou No interminável ir e vir. Quem sou; Há muito tempo a vida se esqueceu.
Por isso, e por não ter outra saída No labirinto imenso que formamos, Destino tão igual nós encontramos
Já que somos e temos mesma vida, E nesta imensidão que somos nós, O amor se torna assim nascente e foz... Marcos Loures
26
Retrato cultural deste país, Rebola a melancia, a periguete. Inteligência encontro nos quadris E toda noite a cena se repete.
Pior que todo mundo pede bis, É só fazer, amiga alguma enquête. Cultura não se aprende só com giz Tampouco se pintar somente o sete.
Assim o que dizer da poesia? Que mofa no porão da livraria Enquanto em auto-ajuda, que sucesso!
Desordem na cabeça da guria, Vestida de ilusão, de fantasia Vendo na mulher-fruta ordem/progresso. Marcos Loures
27
Retrata o que vivemos no passado, O brilho de um olhar que tanto quis, Pensando muitas vezes ser feliz Num sonho, mesmo breve, abençoado.
O medo na amargura retratado Deixando a vida inteira por um triz, Esperança, uma velha meretriz, O corte sempre assim, aprofundado
Saudade me marcou qual tatuagem, Procuro e nada encontro; uma miragem Do oásis salvador, pleno deserto.
Teimando, eu não me canso de sonhar, Mostrando que apesar de inda sangrar O peito escancarado segue aberto. Marcos Loures
28
Retorno, em pensamento à antiga rua, E ao tempo em que sonhar era possível. Minha alma, ao mesmo tempo já flutua Trazendo um sentimento imperecível.
Às vezes, no quintal, olhando a lua Um simples molecote fez ser crível, Distante da verdade amarga e crua, O sonho de poder ser invencível.
Momentos que se foram pra não mais, A vida ao demonstrar a realidade Manteve; ainda a força, quase fé
De ter felicidade como um cais. Meus versos embebidos de saudade, Repetem o seu nome: Muriaé... Marcos Loures
29
Retorno aos velhos tempos, mocidade, Vagando bar em bar, sem ter destino. Sorvendo nas mulheres, claridade, Lembrança do que eu tive, e me alucino.
O gosto do vazio que me invade, Tomando as minhas mãos em desatino, Do beijo que trocamos. Que saudade! Momentos que tivemos. Cristal fino...
Ao desfrutarmos, loucos, da paixão, O vento transformado num tufão Tivemos alegria de saber
Que tudo nesta vida é temporário, Por isso é que eu percebo necessário Viver intensamente este prazer.
30
Retorno aos meus momentos de loucura, Vagando pela noite bar em bar, Na intensa sensação de uma procura Roubando cada luz deste luar.
Outrora a madrugada tão escura Distante deste mundo, a soluçar, Coração vagabundo se tortura Na ausência de quem sempre quis amar.
Encontro o teu retrato em cada copo, O amor que tu me deres, quero e topo, Vivendo sem limites ou juízo.
Voltar à boemia é ser feliz, A cada esquina encontro o que eu mais quis, Na luz dos cabarés, meu Paraíso... Marcos Loures
31
Retorno à mesma casa que deixei Num ato de total insanidade. Buscara conhecer felicidade Vagando sem destino em outra grei.
Por vários descaminhos procurei Saber de uma possível claridade, Depois, na mais completa ansiedade Eu percebi que o amor é régia lei.
Voltar e te sentir junto comigo, Sublime sensação de um calmo abrigo Num horizonte claro e transparente.
Beijar a tua boca mansamente, Teu corpo junto ao meu? Tudo o que eu quis, E assim, eu finalmente sou feliz!
32
Retiro uma esperança do caminho E sigo sem ter rumo ou ter destino Nas lavras que me restam só espinho, No canto que te faço, um desatino.
Ao ver chorar sem trégua um pobrezinho Nas lágrimas doridas do menino, A morte sem segredos, ganha o ninho No corpo tão faminto magro e fino.
Somente uma certeza se denota Na sombra do cadáver ambulante, A vista delicada já se embota.
Será que um dia a justa liberdade Virá de uma verdade repugnante? Minha esperança faz-se na amizade...
33
Retiro tua roupa devagar, Desnudo-te e me entrego ao teu desejo Sentindo tua pele arrepiar, Requebras com tesão, louco molejo
Na loca tão gostosa de provar O leite derramando num lampejo, Eu gozo enquanto sinto o teu gozar Alcanço em plenitude amor sobejo..
E a gente recomeça nosso jogo, Brincando num delírio ateio o fogo Lambendo tuas tocas, rijos seios
Passeios por montanhas, vales, fendas E na doce umidade dessas sendas Paisagens deslumbrantes belos veios
34
Retiro de minha alma a lama suja Que fez meu verso triste e sem sentindo. Rascunho de desejos, garatuja, No fundo do que sou vou me esvaindo. Amor que nunca veio de lambuja Chegando faz meu dia bem mais lindo.
No rito solitário da paixão, Troquei a vaidade pelo sonho. Restando tão somente esta emoção O vaso que quebraste, de tristonho, Perdeu todo o sentido e a razão, Mas mesmo assim querida, te proponho
Lançarmos nosso dardo ao infinito, No que se fora amor, mesmo maldito...
35
Retiro calmamente o belo véu Que esconde o teu olhar, divina dama, A noite sem juízo já me chama, E bebo o teu carinho em coquetel
Tu dizes que me queres, vou ao céu Sem asas pra voar, refaço a trama E deito meu carinho em nossa cama. Sorvendo a tua chama feita em mel.
Assim nas sensações mais benfazejas As noites sem limites são eternas, Eu quero tanto amor quanto desejas,
Numa mistura feita com ternura, Nós confundimos sempre as nossas pernas, No emaranhado pleno de loucura... Marcos Loures
36
Retirar o perfume destas flores Na tristeza, os espinhos desconheço, Refaço cada passo de um tropeço Vertendo em pleno escuro, novas cores.
Assim ao receber os dissabores Eu mudo desde sempre de endereço Usando uma ilusão como adereço Espero em noite amarga, bons alvores.
Fazendo da palavra um instrumento, Por vezes outro dia, agora eu tento E vivo da esperança de poder
Ceifar toda a amargura do caminho, Sentindo de quem amo, este carinho Que ajuda veramente a reviver... Marcos Loures
37
Retira desta senda um duro espinho Quem sabe quanto amor nos faz tão bem, Seguindo passo a passo vou também Usufruir contigo este caminho.
Nos beijos mais suaves eu me aninho Enquanto a tarde passa e a noite vem. A dádiva sublime é muito além Da simples expressão feita em carinho.
Amor sendo um mergulho destemido, Estende-se na insânia de um gemido Deitando depois disso em plena paz.
Ser teu é tão somente o que desejo, Contigo imensa luz sempre prevejo, No amor que nos domina e satisfaz... Marcos Loures
38
Retinas pelos brilhos ofuscadas, Não vêm mais os seus passos pelas ruas. Imagens tão fantásticas moldadas Apenas nos meus sonhos. Continuas, Nestas recordações imaculadas, Miragens desbotadas, pobres, nuas.
Viaja o pensamento e te procura, Em plena escuridão; cego, eu tateio. Na busca tão insana por ternura Não vejo e nem vislumbro mais um meio De ter tua presença. A dor tortura E trama em meu futuro o frio anseio.
Quem dera se eu pudesse em novas eras, Eternizar verões e primaveras...
39
Retinas fatigadas”, velhas fotos Guardadas na gaveta, valem nada; A fonte da ilusão desbaratada Encontra antigos veios, tão remotos.
Cordatos sentimentos, ledos totens O tempo não perdoa, e vai em frente. O verso que se mostre descontente Mostrando o que não queres, de onde vens...
Telúricas manhãs, vozes macias, Senzalas destruídas, liberdade... Enquanto tens nos olhos claridade,
Um verso mais sutil, eu sei que crias. Sem crises nem deslizes, a amizade Estende nos varais, as alegrias...
40
Resumos de nós mesmos, necrológico, Notícias estampadas no jornal, O vento da ilusão, demais ilógico Permite esta resenha em ritual.
Perene sensação do nada ter, Vestígios esquecidos, esgarçados. Vagando o tempo inteiro a se perder Momentos infiéis e desgraçados.
A faca que cortando a carne podre Derrama tanta linfa pelas ruas, O vinho da esperança avinagra odre As bocas que se mordem, morrem cruas.
Ao ter em minhas mãos, carnificina, Luxúria em mil orgasmos me alucina...
41
Restando solução, quero problema... A vida nega tempo mas não ligo... Quem sabe contornar o velho tema, Não vive nem pretende ter perigo.
As letras que maltratas pedem trema, Os olhos mais distantes não persigo. Dos ouros que perdi, nem sei a gema... Meus motes são medalhas, fino artigo.
As pranchas que alisam teus cabelos, As hordas que venci foram novelos, Nos cortes que sofri com finas facas...
As mortes que embarquei nas minhas barcas; Arando toda a terra, meus rastelos, As bocas já colei com gomas lacas...
42
Restando sobre a mesa só migalhas Do amor que se perdeu em noite frágil, Políticos procuram no sufrágio Ganhar os votos teus, belas medalhas.
Se enquanto em luz sombria, te atrapalhas Não vês: terás aumento de pedágio, O barco condenando-se ao naufrágio É carne que se dá pras velhas gralhas.
Eu quis poder amar e não sabia Que amor veste a mortalha da alegria Fazendo como um pleito, uma eleição.
Vendeste cada voto e foi bem caro, Agora, na suplência, eu já disparo Atiro sem ter rumo ou direção... Marcos Loures
43
Restando o muito pouco, sigo em frente Bebericando o sangue em conta-gotas Apenas quero ser mais transparente Mostrando minhas roupas velhas, rotas.
Na mão que acaricia; uma serpente, Venenos que me dás além das cotas Com fúria e abstinência feito crente Crivando no meu rosto agulha e botas.
À parte o que pensara, vou vazio Criando meus fantasmas, teu reflexo Do nada quando muito o nada crio,
Mas sigo satisfeito mesmo assim. Sorriso melancólico faz nexo Tragando o que melhor existe em mim...
44
Resta somente um passo. Dos abismos Adivinho a presença da desgraça... Tudo roda, vou trôpego e me embaça A vista, já prevejo cataclismos...
Nada me restará nem exorcismos, A vida sempre foi cruel trapaça. Fendeu, quebrou, rachou a carapaça, Deixando penetrar microrganismos
Que cortam, virulentos e fatais... Resta somente um passo, nada mais. De tudo que restou, podre lembrança
Procura por apoio, pois flutua... Ao longe, ao avistá-la, bela e nua, Desesperado clamo-te, esperança!
45
Ressuscitando amor já quase extinto Num peito que se fez teu devedor, Nas cores que me deste se me pinto Refaço meu desejo em cada cor.
Às vezes insincero tento e minto, Mas forjas outro mundo encantador Me embriagando, louco, neste absinto, Te sinto em cada rama em cada flor.
Se queres meu querer, não faças isso, Honestos sentimentos sempre trago, Amor não se refaz somente em viço,
Precisa mais profundos argumentos. Eu quero teu amor em manso lago, Não vibro mais em trágicos tormentos...
46
Ressurge como um tolo falastrão, Eólica esperança em grave canto. Professa com certeza o desencanto Estampa em passaporte a negação.
Estrelas vão partindo em procissão, Vazio se espalhando num quebranto Regendo a nossa vida em tal espanto, Não deixa que se saiba a direção.
Um sonho que em fronteira, aduaneiro Buscando assim o trigo, traz o joio. Tristezas vem trazendo em seu comboio.
Melífera ilusão de um jardineiro Fazendo da colheita o seu troféu, Permite mesmo em trevas ver o céu... Marcos Loures
47
Ressona do meu lado, minha amada. Depois de mansa noite de prazer; Nos mares que vivemos, embarcada, As luas sem ter calma, conceber...
Ressona calmamente; ri distante... Não sei se de alegria ou de saudade. Amores que passaram claramente Depois de tanto tempo; nunca é tarde...
Não posso dominar sequer meus sonhos, Nem tento adivinhar do que ela ri. Às vezes pareciam tão tristonhos Os olhos que encontrei e estão aqui.
Mas sabe que eu a amo, isso é que importa, O seu manso sonhar... Que mar aporta?
48
Ressoa em cada concha, uma esperança Um grito de lamento em liberdade Do todo que se guarda na lembrança Resquícios do oceano, uma saudade
Procela resguardada que se lança Na gênese de um mundo, rompe a grade Qual prece que em marulhos sem alarde Traduz um turbilhão em temperança;
Num frágil arcabouço cabe o mar E dele uma oração que se reflete Nos sons quase inaudíveis, caracol.
A vida num eterno marulhar A cada novo ciclo se repete, Deitando sobre areia à lua ou sol.... Marcos Loures
49
Resquícios de alegria; um mavioso estio... O céu se torna espesso, as nuvens vão chumbadas... O tempo, que era claro: em raios, trovoadas... A tarde me promete um mundo duro e frio.
Na fumaça da vida, enchente vaza o rio; Alaga todo o campo, encharca essas estradas. Assim como minha alma, estão enlameadas. Acordo e não te vejo. A fantasia crio;
Promessas? Ilusão... Níveo dia? Jamais... Eu te chamo, ninguém... O dia? Nunca mais... Noite eterna, doída... O sol jamais virá...
Persigo uma lanterna (esperança) e se apaga... A noite na minha alma, eterna e dura praga. Ó meu Deus me responda: onde Nívea andará? Marcos Loures
14050
Resposta que eu buscara há tantos anos Depois de ter vivido em tal deserto No qual os medos forram desenganos Porém o coração mantive aberto.
A vida tem decerto, ritos, planos A cada novo tempo em que desperto Deixando os sentimentos desumanos Do amor que inda terei, estou bem certo.
E ver tua presença redentora Permite que hoje eu cante em alegria, Tocado pela luz que me irradia
A lua que em delírios me decora Trazendo o raro brilho da esperança Que em plena maravilha já me alcança. Marcos Loures
51
Respiro teu respiro, minha amada Embora tanto vôo seja solo, Preciso te encontrar na madrugada Deitar minha cabeça no teu colo;
Soando o que se teme neste lago, Em plena sintonia nada trama. Vivendo desse amor, no manso afago, Deitando certamente em tua cama...
Não quero te sugar todo esse ar, Nem quero esse teu canto mais sozinho. Nem deixo que te possam mais sangrar, Eu quero te encontrar no nosso ninho.
Fazendo dessas penas travesseiro, E mergulhar teu mar, assim, inteiro!!!!!
52
Respirando essa boca bebo luz... Tens os caminhos livres para a paz... De cravos e canelas, ser capaz... De vastas cabeleiras faço cruz...
Escondes tuas peras no capuz... Esparsas tremedeiras, sou audaz... Me mordes verdadeira, vero antraz. Não quero-te primeira, faço pus...
Ratos lambendo a casa, velhos ratos... São ratos que caminham no porão... São ratos que te beijam tuas salas...
São ratos que desfrutam dos teus pratos. São ratos que freqüentam coração São ratos, simples ratos, nada falas... Marcos Loures
53
Respeite esta donzela, sim senhor, Que traz do caminhão todo o sustento, Às vezes eu te juro, amigo, tento Mas nada do que penso vou propor.
Se o jeito é ser na vida um sonhador, Falando deste amor que é sem alento E aos poucos, sem juízo eu me arrebento, Mudando este cenário, face e cor.
No fundo não consigo ter coragem Que a moça sempre mostra na viagem. De tanta admiração, eu sou suspeito.
Fazendo do volante o seu afã, É preciso valentia e muito peito Comprar um caminhão, ter sutiã...
54
Resolva teus problemas sem demora Que a vida não espera um só segundo. Enquanto a poesia nos decora, O peito segue em vão, um giramundo... Escute com carinhos quem te adora, O corte da ilusão é tão profundo!
Ouvir a voz do mar em praia imensa, Sentir o vento fresco feito em brisa. O amor que não se dá em recompensa Agrisalhando a vida não avisa Da tempestade amarga, fria e intensa Com a qual a discórdia se divisa.
Nas ruas e calçadas um sonâmbulo Coleta do final cada preâmbulo.... Marcos Loures
55
Resisto bravamente aos meus anseios... Vou decididamente buscar teus braços. Quase que me encontrei, teus doces seios. Nas praças e nos Paços, tantos passos...
Menina, a juventude, sem rodeios, É fonte inesquecível, deixa traços... Mas passa, nos restando seus meneios Os olhos esquecidos, tristes, baços...
Balões e serpentinas foram ritos, Amores e verdades, simples mitos. Não canso de buscar tantos entalhes
Em meu rosto, esculpidos nos detalhes. Cada vez que me vejo neste espelho, A um velho navegante, me assemelho... Marcos Loures
56
Resisto aos meus apelos? Não mais sei. Caprichos e vontades, guiam passos, Enquanto ao desfazer antigos laços Esgarço a caminhada, nego a grei.
Aonde tantas vezes mergulhei Vencido pelas noites e cansaços, Nos olhos solitários, frios aços Quem dera se inda amasse que amei...
Arcana das vontades, a alegria Jazigo da esperança construíste Não quero ter amor deveras triste
E fujo mal percebo raie o dia Volvendo os meus olhares nesta busca Que o sol da realidade logo ofusca... Marcos Loures
57
Resisto aos mais diversos temporais, Qual rocha enfrento mares e procelas. Rompendo os meus grilhões, antigas celas E quero na verdade muito mais.
Revelando-se em cantos magistrais, Estrela em que meus sonhos sempre atrelas Em plena tempestade abrindo as velas Percebo nos teus braços, o meu cais.
Ventura de saber quanto te quero, O mundo sem juízo, amargo e fero Prepara a cada dia uma armadilha.
Mas tendo teus carinhos, não receio, Sabendo desvendar caminho e veio, Aonde uma esperança amiga trilha...
58
Resinas entre estrelas de marché, A par dos sentimentos inauditos Os olhos procurando algum por que E os bares são seus portos e granitos.
Durante tantos sem cadê O quase se mostrando em velhos ritos, Minha alma alegoria tudo vê E deixa-se perder. Antigos mitos.
Sabatinando a sorte, visto as ramas, Dominicais sorrisos de menina. A lua se deitando sobre lamas
Não quero mais saber se sonhas e amas, O gozo que nos farta me extermina, Brilhando como estrelas de resina... Marcos Loures
59
Resgata uma procela em louca aragem. O amor que nos promete insensatez Mudando num segundo a paisagem Estampa a fantasia em tua tez
Riscando nossos céus, doce cometa Trazendo as boas novas, rastro em luz. Fantásticas viagens; acarreta Enquanto ao paraíso nos conduz.
Farturas em divina providência, Não cessam nem durante um vendaval; Palavra que se diz em eloqüência Num rito sem limites, sensual.
Sabendo no teu corpo, refrigérios, Eu quero desvendar os teus mistérios... Marcos Loures
60
Requintes dos banquetes deste amor... Nos talheres de prata dos desejos... Nos cálices cristais, na fina flor... Brindando assim a todos os teus beijos,
Nas valsas que dançamos com vigor. Porcelanas tão raras, azulejos. Nos lustres de cristal brilho e fulgor... Distante inda se ouviam realejos...
No baile sensual dos nossos sonhos, Nos empalideceram tantos planos... Os dias se transformam, vãos, tristonhos...
Nas pétalas da rosa, sangue, gotas... Em meio a tempestades, meus enganos. As roupas da ilusão, desmancham, rotas...
61
Requebros da Lacraia Pocotó Traduzem a cultura nacional. Da mídia que se mostra magistral Eu vejo a mocidade assim cotó.
Sabendo desde sempre deste pó Jogando em nosso amor a pá de cal Eu quero esta mudança radical Que impeça ter somente medo e dó.
Num ritmo alucinante noite afora, Cupido sem vergonhas comemora, O sarro que termina no motel.
Na mística mentira do Coelho Do mago sacripanta em que me espelho, Amor se transformou somente em créu...
62
Repugnantes carcaças que me entregas Entre miasmas, gozos e delícias, Transpiro estas vontades, duras, cegas, Na exposta lividez, falsas carícias,
Em torpes ilusões, amor renegas, Expondo o que restou, tantas sevícias, O riso em ironia que me esfregas Marcado por sarcasmos e malícias,
Sarcófagos herdando deste amor, Bastardas emoções seguem vazias. No corpo delicado a decompor
As mãos que acariciam, seguem frias. Nos vértices dos sonhos eu me esfumo, Entregue aos teus desejos, perco o rumo...
63
Reproduzes imagens da aquarela Em que se transbordaram cores várias. Destino navegante em procelárias Claro caleidoscópio se revela
Tomado como Norte, guia-estrela Em rotas tão diversas, temerárias. As palavras que acalmem, necessárias Mensagens que recebo invadem tela.
A voz que silencia-se, pasmada, Ecoa em ventos lúdicos, em brisas. Cenário em que transmudas e matizas
Mimetizando os lumes da alvorada Que em prismas se derrama multicor, Da aurora boreal, um refletor... Marcos Loures
64
Repouso o pensamento em teu regaço, Deitando sem temor carinhos tanto. Encontro a mansidão em teu abraço E dele a me entranhar divino encanto.
Percorro o teu caminho e em cada passo Descubro mago alento e como um manto Teu corpo junto ao meu, cansado e lasso Depois da noite plena em dança e canto.
Estás junto comigo o tempo inteiro, O amor como um supremo companheiro Do qual a voz macia, sempre escuto,
Penetro nos portais do Paraíso, Sem ser nem necessário, pois preciso, Usar para adentrar, salvo-conduto... Marcos Loures
65
Reporto à nossa vida, no começo, vivíamos crianças mais felizes. Depois de certo tempo, num tropeço; comum a quase todos aprendizes,
agora, nestes erros, eu confesso, marcados por profundas cicatrizes, palco das esperanças, más atrizes, trazendo estes castigos que mereço...
Agora, ao te encontrar querida amiga, percebo finalmente quanta sorte, depois de se curar ferida e corte,
eu agradeço o braço que me abriga louvando, com total sinceridade, os laços bem mais firmes da amizade....
66
Repleto de prazeres e ternuras. Que encontro tão somente em ti, querida, Alvíssaras invadem nossa vida Tramando o doce alento das loucuras.
Cerzindo com belezas emolduras Em nós a maravilha pressentida No quanto a luz se fez e foi vertida Nas plêiades, fantásticas molduras.
Qual fora um beija-flor enamorado, Vagando flor em flor, sinto ao meu lado Depois de tanto vôo, cego, ao léu
Permito-me dizer do quanto é belo Este mundo noviço que revelo, Bebendo nesta boca o doce mel.
67
Repleto de emoção, a noite inteira Dançando neste ritmo costumeiro, Balanço desde sempre esta roseira, Amor em gozo pleno e corriqueiro.
Usando todo gás do nosso isqueiro, Acendo sem juízo uma fogueira, Mulher maravilhosa vem ligeiro Da orgástica manhã, luz mensageira...
Licores entre rendas nos lençóis Suave transparência de organdi, Fazendo dos prazeres os faróis
Que guiam cada olhar mais desejoso, O amor em explosão, tramando em ti A divindade feita em pleno gozo...
68
Repito que te quero Mas não me escutas mais, Depois se desespero, Atracarei qual cais?
A cegueira que chega, Não deixa mais te ver, A vida sendo cega Me nega tal prazer
De ser teu companheiro, Amante amigo, amado, Busquei o tempo inteiro Estar sempre ao teu lado.
Mas não me deste amor, Mataste em botão, flor...
69
Repentes sempre faço Na voz de um violeiro Caminho em cada passo, Um canto verdadeiro,
Encanto traz o laço, E prende um traiçoeiro Amor que sem espaço Morreu, teu prisioneiro...
Porém uma amizade, Restou aqui no peito, Restaura a qualidade
De um mundo contrafeito, Deixando esta saudade Vazia, enfim, sem jeito...
70
Repasto que tu trazes: poesia, Banquete para os olhos com certeza. O quanto cada sonho propicia Atravessando a noite com destreza.
É certo que talvez ainda se possa Falar de algumas nuvens em momentos Aonde a fantasia vira troça Em versos menos nobres, violentos.
Com toda pompa, expondo tanta fleuma Que dissemine a paz, tranqüilidade, Distante de qualquer luta ou celeuma, Entendo a tão provável liberdade
Cadeiras espalhadas nas calçadas Do tempo que se foi pra não voltar, Estrelas em cantigas espalhadas No chão acompanhando o bel luar,
Que ao furar com beleza o nosso zinco Adentra o nosso peito já sem trinco...
71
Repare como o povo te festeja! Tu és a nossa chama, não se esqueça Que alçando a glória plena e benfazeja Permita que esta gente já mereça
Um pouco do carinho que deseja Daquela que entre nós é a cabeça, Tua alma delicada quando beija O coração de quem assim confessa
Felicidade imensa por poder Comemorar contigo, minha amiga, A data em que se molda tal prazer
De ter a companhia, num instante Daquela que se permita que se diga: É bendita esta aniversariante!
Marcos Loures
72
Repare como a lua se faz bela Moldada pela noite em raros tons. O amor ao explodir em megatons Adentra sutilmente esta janela
E posso num segundo, ver a estrela Que deita sobre os sonhos os seus dons Quem dera se eu pudesse, enfim, contê-la Ouvindo do infinito, ecos e sons.
A sanha deste inútil trovador Amordaçando, assim, angústia e dor Decerto mudaria, num instante.
Ao ver o plenilúnio anunciado, Percebo a maravilha que ao meu lado Traduz tanta beleza: o teu semblante! Marcos Loures
73
Renovo minha sorte em teu desejo. Sou barco que se perde em pleno mar. No céu que já nos guia em azulejo Encontro meus motivos para amar Teu corpo desterrado pede um beijo, Nas ondas vou tentar me equilibrar...
Alentos são me dados por teus versos, Que são tal equilíbrio que conforte. Te entrego meus sentidos, universos; Reluto mas por certo estou mais forte. Antíteses meus sonhos mais diversos, Deveras me escondendo matam morte...
Teu corpo no meu corpo faz sentir, Uma velha maneira de existir...
74
Renovei, minha amada, esta certeza De ser feliz um dia, estar contigo. Depois de tanto tempo em que persigo, Percebo que me farto nesta mesa.
Sentindo em teu carinho tal leveza Acreditar, por vezes, não consigo. O rastro que deixei, amargo, antigo, Levou minha esperança em correnteza.
Mas sinto que raiou um novo tempo Em dias mais felizes e risonhos, Permito-me voar em belos sonhos,
Afasto do caminho, o contratempo, E sigo tendo em ti, a redenção, Amor vai dominando esta emoção...
14075
A pobreza das palavras não consegue expressar o vigor dos sentimentos. Assim mesmo eu luto e tento transmitir minha mensagem, que se torna cansativa, por tantos, já, repetida. Eu desejo que a Esperança te conduza bem ligeira, nas asas do sonho, fagueira, fazendo brilhar sua chama viva, rubra, altaneira não somente neste agora, mas pra sempre – a vida inteira. Meu querido amigo, a você meu abraço cheio de carinho e afeto. Helena Renovam-se meus sonhos quando leio Teus versos tão amigos, carinhosos, Caminhos muitas vezes pedregosos Encontram finalmente manso veio.
Viver felicidades, meu anseio Meus cantos, muitas vezes andrajosos Bebendo destes teus, maravilhosos, Refletem na viola que ponteio
Trazendo a mais completa afinação, No amor nosso maior diapasão, Uníssono gorjeio de nossa alma.
Eu agradeço cada parceria, Seguindo com ternura a melodia Que ao mesmo tempo excita e tanto acalma...
76
Renovação se faz com sonho e luta, Sinônimos perfeitos de paixão. A mão que nos maltrata, mesmo bruta Jamais resiste ao fogo e à devoção
Que existe em quem conhece esta labuta Emanada de nosso coração. Por mais que a vida seja, assim tão curta Ela comporta a força em explosão
Que existe em cada ser apaixonado, Na entrega sem temor a cada dia, E mesmo que se encontre penedia
Esta procela imensa segue ao lado, Criando a cada sonho, resistência, Por ter também, não teme a violência... Marcos Loures
77
Renova esse semblante já senil Alguma sensação de poder ter Ainda o teu frescor que juvenil Não deixa o coração envelhecer.
Perdura então, assim, a mocidade Que mesmo sendo falsa me alivia. U’a réstia de alegria agora invade, Embora eu mesmo saiba: é fantasia.
Eterna juventude propalada Por mitos entre fontes e desejos. A face pelas rugas já sulcada Incrível que pareça, trai os pejos.
Por mais que seja só um sonho inerte, Um riso nos meus lábios, calmo, verte... Marcos Loures
78
Renego as incertezas, andarilhas, Acendo, com firmeza este farol, Depois de navegar distantes ilhas Aporto à maravilha de um atol,
Legando ao meu passado tais naufrágios Expressas ilusões de um peito só. Amor agora paga com mil ágios Fazendo-me surgir do amargo pó.
Matéria que se fez outrora bruta, Agora lapidada e cristalina Mostrando-se deveras tão arguta Cenário em cores claras já domina.
Elaborando um novo alvorecer Emaranhando em nós, todo o prazer... Marcos Loures
79
Renegam qualquer forma de prazer As velhas ilusões já se esvaindo. O que pensara ser um dia lindo Apenas tempestades, posso ver.
Sentindo da saudade, o seu poder, As chuvas mansamente vão caindo Sorrisos de mulher me perseguindo, Irônica expressão do nada ter.
O que restou de nós? Nem mesmo sei, Apenas um retrato na gaveta, Mas dói e corroendo, dia-a-dia
Volvendo eternamente à mesma grei A sombra do vazio me completa Inverno dentro da alma não se estia... Marcos Loures
80
Rendido totalmente, eu me perdi Ouvindo este chamado, agora eu sigo, Buscando toda a luz que existe em ti, Legando ao dejà vu qualquer perigo.
Sentir quanto é possível receber A luz do sol em plena claridade, O bom da vida mostra que o prazer Permite vislumbrar felicidade.
Olhando o que vivera; sonho algum, A dor deste vazio inda remexe, Porém do amor agora, em claro zoom, Eu vejo o teu sorriso, como um flash.
Bebendo desta fonte inesgotável, O amor se faz num brilho inexplicável...
81
Rendendo a todos crápulas meu hino Que emana a podridão de meu país. Bandeiras desfraldadas, meu destino Em meio a risos francos e gentis.
Quando ao dobrar, amiga, deste sino Percebo hipocrisia destes vis Que sangram o cordeiro – sangue fino- E deixam nossa sorte por um triz.
Os pássaros, as flores e o jardim Jogados num esgoto dentro em mim Somente poderão reproduzir
O esterco em que adubaram, tanta bosta A cada geração sendo reposta Até que a merda venha se explodir! Marcos Loures
82
Renascer desta morte, ser o pó Que faz do estrume a boa nova, amigo. Debulho cada bago deste trigo Consorte da esperança nunca só.
Não quero teus lamentos, renascendo Da imensa podridão um doce aroma, Na perda que julgavas sou a soma Que mostra-se sem medo, renascendo.
Seria muito bom se fosse assim, A flor que apodrecendo no jardim Trouxesse sempre adubo pra outra flor.
E às margens deste tempo, sigo em frente, Acompanhando em paz cada corrente Que leve para longe o dissabor...
83
Renascem outros sonhos destas gemas Explicitando assim, meu sentimento, Rompendo num instante tais algemas Eu vejo a vida leve, sem tormento.
Ungüentos que encontrei em teu carinho, Palavras benfazejas, riso franco. O sol vai penetrando de mansinho, Promessa que se faz de um dia branco.
Nas ancas do corcel sigo liberto, Chegando ao infinito dos teus braços, O futuro que outrora fora incerto, Agora se mostrando em novos traços
Permite que se sonhe e se imagine, Um mundo aonde amor nunca termine... Marcos Loures
84
Renascem novos dias em mil sóis Num mágico momento fulgurante Um vento que se mostra assim constante Invade fartamente os arrebóis...
Ouvindo, da alegria, a mansa voz, Uma esperança chega e num rompante Inunda a nossa vida num instante Sabendo do prazer que vem após...
Viaja o pensamento, vai liberto, Do quanto eu te desejos, sempre alerto Num canto em que me entrego por inteiro.
Amor, um estribilho renovado, Concebendo; por fim, meu Eldorado, Persisto neste sonho alvissareiro Marcos Loures
85
Renascem nos teus braços, esperanças De ter felicidade em minha vida. Sepultam a saudade e as lembranças. Dor bate em retirada. De saída...
As noites que prometem novas danças A música em minha alma, tão querida. Depois de longos passos, mil andanças; Encontro uma alegria, já perdida...
E vejo no meu céu a lua nova Promessa de plantio e de colheita. Meu coração agora se renova
Vivendo um belo ciclo de calor, A tempestade enfim está desfeita Já grana no meu peito um novo amor...
86
Renasce bem mais forte uma ilusão No peito de quem tenta ser feliz. Rondando em minha cama, um furacão Expressa o que eu quisera e amor me diz.
Mergulho nos teus braços, deusa amante Singrando os loucos mares da esperança. O quanto necessito a cada instante Da vida que se faz em temperança
Nos olhos de quem sonha com a lua O brilho não se apaga, é sempre forte O canto em madrigais já continua Riscando com desejos trama o norte
Assim, somando forças vou contigo Vencendo toda forma de perigo...
87
Remansos em tormentas, alagados O medo de viver queimando lento Os sonhos que tivera, espedaçados, O mundo se pintando em fingimento,
Os dias vão passando, transtornados, Sobrando tão somente um vão tormento, A seca dissemina sobre os prados, Da esperança sequer um bom momento,
As águas já secando em plena fonte As nuvens mais sombrias no horizonte Destino noutros rumos, vai malgrado
Açoites da ilusão, minha alma afásica A boca que me morde, assim, chagásica Meu passo segue, enfim, desencontrado... Marcos Loures
88
Remansos em carinhos e carícias Vertentes destes rios, nossa foz. Bebendo de teu corpo tais delícias Não deixo que esse mundo venha atroz,
Sorrisos que te estampam com malícias Convidam para a festa, vou veloz, Palavras são apenas as primícias O resto só depende, amor, de nós...
Beijando a tua boca, teu pescoço Descendo pela tez brônzea e divina, Encontro a cada ponto em alvoroço
Colosso de beleza que alucina. Até que vislumbrando a bela fonte Mergulho nesta gruta após o monte... Marcos Loures
89
Relíquias esquecidas, no passado, Por deuses que vieram do infinito, Demonstram que estiveram sempre ao lado Daquilo que é mais nobre e mais bonito.
Um canto de prazer extasiado, Amor que nos tomou em doce rito, O gosto de teu beijo delicado, A solidez divina do granito.
A cor destes teus olhos sonhadores, A fonte dos desejos, os teus lábios. O céu em seus matizes, belas cores,
Os deuses na verdade foram sábios. Percebo esta presença divinal, Neste teu corpo esguio e sensual.
90
Relíquia de outros tempos mentirosos Jogada nos porões não diz do quanto Se o ventre que pariu em desencanto Não trouxe os teus baús tão caprichosos.
Esgoto a minha força em melindrosos Dissídios que espalhaste em cada canto. Não quero ser demônio e não sou santo Apenas mostro os olhos andrajosos.
O velho que guardou num oleado Os restos dos tesouros que pilhou, Ouvindo a voz salubre do passado
Encharca-se de sonhos, pobre otário. Tesouro há tanto tempo se espalhou Pelas gavetas podres deste armário...
91
Relendo nossas cartas. Quanto tempo! Saudades que deixaste, meu amor... A vida nos trazendo contratempo Mas como nós vivemos esplendor!
Os passeios na praça, nossos beijos... As brigas, os ciúmes, tantas danças; Bailes no antigo clube. Meus desejos... Poucas coisas ficaram. Só lembranças...
Ah! Como vale a pena ser feliz! Mesmo que enfim, depois, a vida leve... Eu continuo apenas aprendiz, Felicidade, eu sei, é vento breve...
Relendo nossas cartas, constatei; Depois de tanto tempo: Como amei!
92
Relendo cada verso que te fiz; Revejo; meu amor, o sentimento, Que fez toda a mudança de matiz Causando da alegria até tormento.
Não sei sequer se fui ou não feliz, Só sei que tudo passa como o vento... A sorte que se perde já prediz, Depois da tempestade, o sofrimento...
A primavera passa, perco outono... Invernos na minha alma... Tua herança. Jogado sem ninguém, ao abandono,
Espero que retornes algum dia. No fundo inda me resta uma esperança: A que também releia a poesia...
93
Relendo cada carta que mandaste Nas fotos mais ousadas que tiramos, Desejos e delírios desfilamos, O quanto sempre em fogo me tornaste.
Sentidos e vontades provocaste Num ato em desvario nos tocamos, Insânia que em luxúrias entranhamos, Pecado e santidade num contraste.
Abrigos entre pernas e prazeres, Banquete para os olhos, a nudez Povoa a minha mente, insensatez,
Os lábios decifrando teus segredos, Do jeito e da maneira que quiseres Aguardo o renascer de tais enredos... Marcos Loures
94
Relendo antigas cartas encontrei, As marcas que deixaste em minha vida. Nas ânsias dolorosas da partida, Castelo que, magoado, eu derrubei.
Outrora a luz tomava toda a grei, A treva em outras sendas, escondida, Da sorte que sonhara; convencida, Minha alma fez dos sonhos, sua lei.
Porém ao perceber o quanto eu quis, Viver em plenitude, ser feliz, Os Fados destruindo cada sonho,
Volveram-se terríveis e venais, Matando os meus desejos ancestrais, Tornando o céu escuro e tão medonho...
95
Relembro o nosso amor em doce encanto, Com toda uma pureza em mãos serenas, Palavras delicadas, mais amenas, Uma ilusão servindo como manto.
Eu te amo, tão somente e tanto, tanto... Em ti jamais vivi as duras penas De amores que já foram, mas apenas Deixaram algum resquício feito em pranto.
Revejo o nosso amor e nisto creio Ter sido o momento mais feliz. Aberto o peito, a vida alçando vôo
Liberta sem temores, sem receio. Contigo, com certeza o que eu mais quis, Portanto em nosso amor, ainda ecôo... Marcos Loures
96
Relembro na manhã o torpe pesadelo Aonde num torpor eu viajava além. E, mesmo que disforme, ainda posso vê-lo Na imagem que persegue e agora inda me vem...
O amor deveras fátuo, é difícil contê-lo, Vagando em noite escura à procura de alguém Que imersa na amplidão, hiberna em pleno gelo E nas mãos tendo o Verbo, universo contém.
A vastidão dos Céus, o meu olhar sem rumo, A marca da pantera, as costas, unhas, dentes. O rastro se perdendo, em tantas nebulosas;
O mar tempestuoso, o barco vai sem prumo, As nuvens no horizonte, os ventos em repentes; E o gargalhar medonho, exposto quando gozas...
97
Relembro de uma noite, num sarau, Aonde declamavas Nilza Azzi, Beleza deste naipe, eu nunca vi, Jamais me esquecerei do recital.
O tempo foi passando e bem ou mal Chegava uma notícia por aqui Dizendo da meiguice que há em ti Até nosso reencontro triunfal.
Segurar tuas mãos... tremia tanto... Tomado sem defesas pelo encanto Que espalhas sem sequer tu perceberes
Senti com muito orgulho o privilégio De ver este sorriso, nobre e régio, Da mais maravilhosa das mulheres...
98
Relembro de teus seios, minha amada, Portais de nossas noites indomáveis. Com tal suavidade, beijo cada, Tornando estes caminhos mais amáveis.
O sol queimando lento cada parte Do corpo magistral que Deus te deu, Pintando em cada cena com tal arte No quarto, esta nudez, amor se deu...
Osculo cada parte destes seios, Viajo com as mãos as rédeas soltas, Os olhos vão distantes, tão alheios Saudade dolorosa , mil revoltas...
Por que tu foste embora? Te pergunto, Um sonho só é bom se sonhar junto...
99
Relembro de meus tempos de criança Andando pelas ruas da cidade. Perfume não saía da lembrança Ao traduzir, pra mim, felicidade.
Agora ao te rever, nova esperança Se faz em cada canto e na verdade, Selamos com vontade esta aliança Que sempre fez-se forte em lealdade.
Brincávamos, querida, de ciranda, O teu perfume, sei, era lavanda, O cheiro do passado que há em mim,
Agora que te vejo em tom erótico, Tu vens com um perfume mais exótico Mas mesmo assim floresce em meu jardim... Marcos Loures
|
|