
MEUS SONETOS VOLUME 136
Data 02/01/2011 08:53:51 | Tópico: Sonetos
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1
Quem dera se tivéssemos na vida Toda uma certeza que trouxesse Distante da tristeza em despedida Uma alegria feita em bela prece.
Assim nós poderíamos; querida Saber desta beleza em que se tece Planície calmamente concebida Na qual nossa esperança robustece.
Meu verso te procura; companheira, Em meio a tempestades e terrores. A minha paz se mostra passageira
Distante dos teus braços, minha amiga. Tu trazes no teu peito tais pendores fazendo com que a vida em paz prossiga...
2
Quem dera se tivesse inda o deleite Que tive há tanto tempo em belo dia. A sombra da esperança; fugidia, Esgueira-se legando como enfeite
O manto da tristeza em que se deite Amor que fora pleno de alegria, Agora se liberta em alforria, Sem sorte ou novidade que se espreite.
As urzes de um amor abandonado, Roçando o meu caminho de viés, Amor que se fez luto em triste Fado,
Tortura quem sonhara com a glória, Apenas as correntes nos meus pés Resquícios que carrego desta história...
3
Quem dera se pudéssemos voltar Histórias do passado no presente. Assim um mundo inteiro a recriar Moldando em nova sorte o que se sente.
Talvez por ter amor a se fartar A Terra em si seria diferente. No céu que já rebrilha sobre o mar Apenas da verdade um contingente.
Quem dera, meu amor, se a primavera Tomasse novamente toda a Terra Assim já bem distante de uma guerra
Iríamos viver novíssima era Aonde feito amor, o paraíso Seria sempre aberto e sem juízo...
4
Quem dera se pudéssemos perfumes Espalharmos, amiga, em nosso abrigo. Decerto atingiríamos tais cumes Num esplendor divino, pois amigo.
Andando sem temor, sempre contigo, Desdenho quaisquer formas de ciúmes. Adivinhando a curva em seu perigo, Desfruto da amizade, nossos lumes.
Na extensa vastidão destes desertos, Não quero tal resignação de ascetas, Nem forro de ilusões as minhas metas,
Apenas quero passos, firmes certos. Quem tem de uma amizade; os arcos, setas, Encontra seus caminhos mais abertos...
5
Quem dera se pudesse ter tal glória, E ser teu companheiro vida afora, A vida não seria merencória No encanto em que este amor ressurge, aflora.
E ao ter esta resposta que buscara Vagando por sombrias e ermas sendas Sabendo que encontrei a jóia rara Na bela caminhada que desvendas
Usando o sentimento mais sublime, Riscando o céu de raios multicores, No gozo deste encanto que suprime Legando ao desvario velhas dores.
Sagrar cada poema a quem eu amo, Florindo na vereda; tronco e ramo...
6
Quem dera se pudesse te esquecer, Fingir que tudo aquilo foi mentira. Calando num instante a velha lira Que, lúdica, embalava o meu prazer...
Um novo sol regando amanhecer, A Terra incontinenti, sempre gira E o dardo que este deus, inda desfira Trará depois de tudo, um outro ser...
Sentindo em outros lábios a alegria Que um dia desfrutei ao lado teu. Pensar que nosso amor já se verteu
Descendo a correnteza, sem magia... Quem dera se eu pudesse. Ah! Se eu pudesse... Porém o coração nunca obedece.... Marcos Loures
7
Quem dera se pudesse te entregar As horas mais bonitas dessa vida, Roubando as estrelas e o luar Buscando a juventude já perdida...
Quem dera se quisesses meus poemas Em volta desta lâmpada saudade... Amores e delícias os meus lemas, Tramando tantos sonhos de verdade...
Não vejo mais promessas no que falas São farsas essas falsas esperanças. Amando sem pensar sequer nas malas Que fazes nesses sonhos onde alcanças
Caminhos mais distantes deste amor. Fugazes nos aromas de uma flor...
8
Quem dera se pudesse ser teu homem Aquele que esperavas mas não vinha. As dores que te deram, logo somem, Abraço que te toca e adivinha...
Quem dera se pudesse te trazer O gosto que esqueceste dessa vida. Matando uma vontade de morrer Deitado em tua cama adormecida.
Quem dera se cantasse o mesmo canto O coração que bate mas não sente. Vivendo teu amor, vestindo o manto Que trama no prazer, viver contente...
Assim eu poderia mais me expor A todos os desígnios deste amor!
9
Quem dera se pudesse alvorecer Tocando como um vento a tua boca, Sentindo tua voz ardente e rouca, Aos poucos me tomando em tal prazer
Que a vida neste instante se treslouca Num êxtase divino, uma mulher Deitando seu desejo e quase louca, Unindo em corpo e alma, o bem querer.
Há tempos esqueci que a mocidade Não pode ser eterna primavera. Depois de tantos anos, dura espera,
Acordo e a mão cruel da realidade Roçando minha pele, fria e triste. Porém uma esperança vã persiste...
10
Quem dera se poeta, um dia eu fosse Poder cantar a lua do sertão, Na maravilha rara que amor trouxe, Emoldurando em sonho, uma paixão, Falar de uma alegria que se esboce Vibrando bem mais forte o coração
Quem dera se pudesse em poesia, Falar desta morena sertaneja Que trama no seu rosto a fantasia, À qual meu canto enfim, tanto deseja, Da terra quase seca, uma magia, Mostrada em tal beleza que sobeja.
Num canto tão airoso e mais gentil Riquezas destes solos, do Brasil..
11
Quem dera se poeta um dia eu fosse Para cantar em versos quanto eu quero, E nisso eu te garanto, sou sincero Que sonho em tua boca, um gosto doce.
Do amor um guardião, um sentinela, Trafego entre as estrelas mais distantes, Bem mais do que pensara outrora e antes Suprema fantasia se revela
E molda um caminhar bem mais sereno, No quanto meu desejo se faz pleno, Palavras já não bastam, são fugazes.
Viver cada momento intensamente, Cevando com ternura esta semente Que em versos delicados tu me trazes...
12
Quem dera se perene fosse o sonho... Avesso às galhardias do desejo Ao barco em que navego já prevejo O fim num grande abismo, mal medonho...
Da fétida impressão eu me componho Rastreio cada falso relampejo, E quando sei do nada que inda almejo, Retrato-me feroz, mas sou bisonho.
Titubeante, sigo sem destino, Cultivo o velho câncer com cigarros. Recebo em farto brinde estes catarros
Prenunciando o fim. E desatino... Na hemoptise da alma me esvaindo, Acérrima ilusão de um gozo infindo...
13
Quem dera se o mosquito que te pica Na nuca devagar, não me te mordesse, Na língua delicada em que se estica Aos poucos, com carinho te lambesse.
A pele arrepiada logo fica E num sussurro bom, cedo gemesse. Suor ia pingando como em bica, Uma picada leve. Ah! Se pudesse...
Querida, te garanto, neste dia Jamais esquecerias tal picada Que louca de vontade desceria
Até chegar à gruta bem molhada. Amor, este mosquito que mordeu, Não reparaste amada, mas era eu... Marcos Loures
14
Quem dera se o amor fosse parceiro Daqueles que sonharam com a paz O dia da procura, derradeiro, Somente uma tristeza amarga traz.
Mas ouço em teu cantar alvissareiro Um último regalo. Eu sou capaz De crer que talvez tenha um verdadeiro Amor de quem promete e satisfaz...
É doce este teu canto, amada amiga, Acariciando um peito antes amargo. Quem sabe nos teus braços, eu consiga
Rever uma esperança que deixei. Depois de tanto tempo, sem embargo, No encanto deste amor, eu me encontrei...
15
Quem dera se meus versos te tocassem Mostrando a dimensão do que ora sinto. Por mais que em amargura te encontrassem, Talvez pudessem ser o teu absinto.
Realidade plena demonstrassem Além do que em meus sonhos, tolo, pinto. De toda a fantasia te inundassem Do sonho fosse além. Claro e distinto.
Porém sem poesia, frágeis versos Daqueles bem mais belos, tão diversos, Distante da beleza predileta.
Quem dera se eu pudesse... Quem me dera... Palavra que não domo, imensa fera, Entrega-se somente a um bom poeta... Marcos Loures
16
Quem dera se meu sono fosse manso Em volta da lareira, quento o frio. O colo de quem amo, meu remanso, Depois de tanto tempo por um fio...
As cordas do meu velho violão Depois de tanto tempo sem tocar Faltando tão somente o mi bordão A noite me convida a procurar.
Os cantos esquecidos na gaveta Nas salas deste velho coração Que sabe muito bem e se completa Nas noites e luares do sertão.
No colo desta serra e da morena Que ao longe, tão distante inda me acena
17
Quem dera se isso fosse assim, amiga, Esta taquicardia que me ataca Demonstra que a saúde já periga, Cigarro vem fincando a sua estaca...
Mas vejo de outra forma, na verdade Também uma saudade faz estrago. Doutor já me falou com claridade Que isto piora sempre quando eu trago.
Não deixo de querer uma pequena, Mesmo que ela me diga: demorou! Um velho quando joga, mas não treina Não sabe a direção e perde o gol.
Contra impotência forte em noite magra, Amiga só tem jeito com Viagra... Marcos Loures
18
Quem dera se exercesse algum fascínio Naquela que desejo há mais de um ano, O amor não obedece ao meu domínio, De todos os meus atos, soberano.
Não tendo mais um verso além. Define-o E assim não me trarás mais desengano. Perdendo desde sempre este escrutínio Eu entro, sem desculpas, pelo cano.
Neste inglês macarrônico que eu falo, Eu quis dizer que eu amo quem me quer, Do jeito e da maneira que vier
Não quero nesse amor cantar de galo, Somente alguma frase de consolo, Apenas um pedaço deste bolo... Marcos Loures
19
Quem dera se eu tivesse este pendor De ser o companheiro predileto Andando junto a ti, mesmo em deserto, Ninguém me julgaria um sonhador.
Mas longe do carinho e sem afeto, Restando este vazio a me compor, Meu peito, vago e só, tão sofredor, De uma felicidade encontra o veto.
Beijar, como beijei, a tua boca, Quem dera... Fantasia quase louca Guardada dentro em mim, qual um segredo.
Agora que percebo amor distante, Não resta nem sequer mais um instante Apenas me sobrou triste degredo...
20
Quem dera se eu tivesse esta certeza Do amor que tantas vezes desejei. A vida nos prepara uma surpresa, Mudando, de repente história e grei.
Forjando uma esperança que falseia, Trazendo o gosto amargo da saudade. A lua que eu julgara plena e cheia, Minguando pouco a pouco. Que maldade!
Restando o meu olhar sem paradeiro, Ausente de teus olhos, vou sem rumo. O sonho que eu pensara verdadeiro, Perdendo a cada dia mais seu prumo.
Talvez, quem sabe um dia; voltarás Trazendo novamente o riso e a paz...
21
Quem dera se eu tivesse em minhas mãos Poder de discernir amor e dor. Embora tantos versos soem vãos, Recolho no caminho espinho e flor.
Colhendo o que plantara em frios grãos Espalho pelos campos frio ardor Os olhos que se querem feito irmãos, No fundo não percebem treva e cor.
Assim ao repartimos nossos rumos, Bebendo vez em quando os mesmos sumos, Somando, na verdade dividimos.
Se eu tento disfarçar o quanto adoro, Ao mesmo tempo morro e rememoro Momentos em que sou o que sentimos... Marcos Loures
22
Quem dera se eu tivesse algum talento E pudesse falar da piriguete Mascando o coração, nova chacrete Expõe nos seus quadris o sentimento.
A bunda balançando, segue o vento Na boca desdenhosa algum chiclete, Menina disfarçada de vedete Procura no caderno um pensamento
Tentando ser a dona do pedaço, Princesa dos garotos mais safados Ridícula figura, eu te confesso
Posando de putinha, ganha espaço Sacode o popozão pra todos lados. Quem sabe então teria algum sucesso... Marcos Loures
23
Quem dera se eu soubesse o que não sei, Falar de poesia mais a sério, Porém ao escrever vou sem critério Tentando seguir métrica qual lei.
Em tanta teimosia eu esbarrei, Agora estou distante deste império Seguindo sem ter tempo ou refrigério Aonde hipocrisia vira lei
Que faço se não posso conceber Soneto sem ter rima sequer ritmo A poesia além de um logaritmo
Vivendo tão somente ao bel prazer, Não pode ter correntes matemáticas Nem mesmo repetir velhas temáticas... Marcos Loures
24
Quem dera se eu pudesse traduzir Em versos a emoção que me tomou Ao ler esta beleza a refletir Uma alma que decerto iluminou
Os passos deste pobre trovador Que tenta e mal disfarça a tentativa De ser tal qual o velho cantador Que no Nordeste fez-se patativa.
Um simples repentista não merece Palavras tão sublimes de um poeta. Eu venho agradecer, amigo, em prece À tua alma divina e tão repleta
De doce poesia alvissareira Dos Reis um sonetista de primeira!
PARA O GRANDE AMIGO E SONETISTA GONÇALVES REIS
25
Quem dera se eu pudesse ter o porte De um mar em vastidão inalcançável, Um ser que assim vivesse palatável, Distante da magia feita em morte.
Talvez assim sanasse cada corte Em lâmina cruel imaginável, A vida poderia ser afável, Mudando o meu caminho em novo norte.
Mas vejo que também chorando assim, Quem poderia um dia ser alento Perdida num deserto que sem fim
Não deixa mais sobrar nem fantasia, Sangrando e destilando em agonia, A dor que se emoldura em sofrimento...
26
Quem dera se eu pudesse ter nas mãos A força que comanda uma esperança, Os dias com certeza outrora vãos Teriam a alegria de uma dança,
Na festa consagrada ao louco Amor, Eterno passageiro dos meus sonhos. Beijando a tua boca com fervor, Delírios em momentos mais risonhos.
O sol dourando a terra, mansamente, Forrando em fantasias, meu celeiro Enquanto a poesia, plenamente Derrama sobre nós mel verdadeiro.
Assim eu poderia ser feliz, Mudando do meu céu cor e matiz... Marcos Loures
27
Quem dera se eu pudesse te falar Do quanto a nossa vida é tão ingrata. O medo de viver tanto maltrata Que impede muitas vezes de sonhar.
A dor que se avizinha vem mostrar Na lágrima que escorre pela mata, Descendo em podres águas na cascata, Sujando as esperanças deste mar,
São marcas indeléveis da presença De uma civilizada e má doença Sangrando em nascedouro um amanhã.
Percebo que a cobiça e o desamor, Ganância e covardia em destemor sejam dos paraísos, a maçã...
28
quem dera se eu pudesse te esquecer... talvez ainda houvesse uma esperança de ter uma ilusão que não se alcança fadado inutilmente ao tal sofrer...
o quarto abandonado, posso ver, em cada canto apenas a lembrança de quem levou consigo a temperança, pingente dos meus sonhos, passo a ser.
Eu quis amar além do que devia, Do quanto a dor existe, eu mal sabia, Hipnotizado enfim, não percebia
Que tudo fora apenas fantasia. E quando o teu olhar, sonho recria, Eu morro um pouco mais a cada dia...
29
Quem dera se eu pudesse te beijar, Sentir o teu perfume junto a mim. A rosa mais sublime do jardim Distante de meus olhos, faz sonhar...
Vagando noite imersa bar em bar, O tempo de esperar chegando ao fim, Talvez inda pudesse... Mas, enfim, Reflexo de uma estrela sobre o mar...
Nas cinzas do cigarro, meu espelho, Ao lobo solitário me assemelho E sigo, uivando tolo para a lua
Que deita em cada raio bela trilha, Porém minha alma tosca, uma andarilha Ausente de esperança em vão flutua... Marcos Loures
30
Quem dera se eu pudesse ser tão cúpido, Sem súplica sem tédio e sem combate, Coragem se tornando um disparate, Deixando-me deveras mais estúpido.
Quadrúpede que escreve em linhas tortas Oferecendo amor a quem quiser, Não sabe dos segredos da mulher Matando sem cuidado flores e hortas
Cambota poesia cai à toa, Virando desde sempre esta canoa, Fazendo uma arruaça, tolo frêmito...
Pagando meus pecados desde antanho No Nilo ensangüentado eu já me banho, E pra maior azar, sou primogênito! Marcos Loures
31
Quem dera se eu pudesse ser poeta Cantar amor sincero e verdadeiro, Tocando o coração em linha reta, Nas mãos a pena imersa no tinteiro, Traçando a fantasia como meta E ser, além de tudo, mais inteiro.
Deixando o coração numa avenida Unindo o meu sertão à capital, A sorte de encontrar desprevenida Morena mais sestrosa e sensual, Mulher que Deus deixou em minha vida, Levando todo amor num embornal.
Quem dera ser, talvez um trovador, Cantando emocionado o nosso amor...
32
Quem dera se eu pudesse ser menino, Pegando a bela rosa no jardim Saudade deste lago cristalino Perdido em algum canto dentro em mim.
Enquanto no teu tom eu desafino O coração fazendo este motim, Sabendo do amargor do meu destino Acendo de esperanças, o estopim.
A fé no que virá move montanhas, Estrelas de ilusão que tu apanhas Derramas sobre os olhos sonhadores.
Os meus cabelos brancos nada dizem, Por mais que as fantasias se matizem Terei ainda em vida, teus amores? Marcos Loures
33
Quem dera se eu pudesse ser amigo Daquele que comanda cada passo, Condena quase sempre ao desabrigo, Deixando pela rua o mesmo traço.
Se eu tento na verdade eu não consigo Caindo pouco a pouco, cedo espaço. Fingindo tantas vezes que não ligo Queria tão somente um teu abraço.
Os beijos que sonhei e não me deste, Afagos e carinhos – ilusão... Levado pelo canto sedutor
A vida preparando o mesmo teste Secando em nascedouro a floração Deixando bem distante o louco amor... Marcos Loures
34
Quem dera se eu pudesse qual pragmático Deixar o sentimento para trás O olhar desta morena; tão simpático Loucuras e vontades; logo traz.
De um jeito tão sutil quão enigmático Aos poucos, conquistando satisfaz, Às vezes compenetra, mas errático Penetra o coração, manso e voraz.
Voltando à vaca fria, meu amor, Eu tento ser alem de sonhador Um cara com os pés tocando o chão.
Mas nada do que eu digo, assim se escreve Amor que é tropical esquece a neve Legando ao pensamento, ebulição...
Marcos Loures
35
Quem dera se eu pudesse prosseguir Ao lado da morena mais formosa Que um dia conheci. Mas é pedir Demais à minha sorte caprichosa! Tu és além do que posso sentir Perfume delicado em rara rosa.
O vento da promessa me diz tudo, Chegou o meu final da primavera. No canto da esperança não me iludo A vida se passou sem ter espera. Um coração tão velho fica mudo, Aguarda o meu final. Ah! Quem me dera!
Minha alma também saiba; é toda tua... Meu pensamento livre inda flutua....
36
Quem dera se eu pudesse num poema Falar do amor somente e nada mais, A vida com certeza em cada algema Impede que se veja um manso cais.
A morte que se mostra como um tema Deixando meus caminhos, sempre iguais, No encanto que socorre, amor que crema Tornando estas misérias mais banais.
Amputo mais um pouco da esperança Que um dia em frágil sonho, concebi Decerto que este rumo que perdi
Um novo alvorecer jamais alcança. A podridão que toma este cenário Traduz nosso futuro, temerário... Marcos Loures
37
Quem dera se eu pudesse na viola Traduzir em meu canto o sentimento, Numa alegria imensa que consola, Tocado pela lua e pelo vento Minha alma num momento já decola E voa em liberdade, o pensamento.
Quem dera se eu pudesse traduzir Em poucas redondilhas a beleza Que eu vejo neste céu claro a luzir Cobrindo como um manto a natureza Em cores e matizes a cerzir Força descomunal, mas indefesa...
Quem dera se eu pudesse, na verdade Dizer que a salvação vem da amizade...
38
Quem dera se eu pudesse festejar A volta de um amor que já perdi. As fases justificam o luar Retorno ao meu passado: estou aqui.
Os pés tão calejados de sonhar, As altas cordilheiras eu venci, Porém não tendo forças para amar, Nos olhos do vazio me embebi.
Satíricos amores, não mais quero, Almejo algum carinho que sincero Permita este pernoite em plena paz.
Do quanto ainda me resta de alegria, Eu quero que saibas que hoje em dia Qualquer alento ou riso satisfaz... Marcos Loures
39
Quem dera se eu pudesse encontrar a ventura Que a toda gente traz plena consolação. Que traz a mansa luz e esconde escuridão. Transforma a dura pena em fonte de ternura.
Acalma o violento e o enche de brandura. Sossega a tempestade, acalma o furacão. Eleva-nos ao monte e nos traz amplidão. A quem sofre: esperança, aos doentes, a cura!
Quem dera se eu tivesse esse dom, meu encanto. A dor que, hoje, maltrata; ah! Não doía tanto... Felicidade, então, seria um bem perene.
Para sempre alegria, amor pleno de glória. Nem um traço de dor, já morta, sem memória Quem dera se eu tivesse amor de Marilene! Marcos Loures
40
Quem dera se eu pudesse crer em algo. No amor ou na esperança que transforma. Porém a dor me invade e assim deforma Quem crera num amor nobre e fidalgo.
No sonho em que liberto vou, cavalgo Por entre estrelas raras, medo informa Que a noite se perdendo em cruz, em valgo, Refaz em nebulosa a bela forma
Perdida entre negrumes, sombras, trevas. Afugentando a luz para outras plagas, Ao recortar minha alma em frias chagas.
Porém, ao perceber, que ao largo levas Meu sonho, companheira, em amizade, Permito-me já crer na claridade! Marcos Loures
41
Quem dera se eu pudesse compreendê-la Talvez ainda houvesse uma esperança De ter em minhas mãos a bela estrela Que em noite audaciosa enfim se avança
E vaga pelo etéreo; asas plenas, Em batalhões distantes constelares, Amor que em borbotões, tristes falenas Andara em aguardentes, becos, bares.
Rondando em minha noite, pesadelos, Roçando a minha cama, sudorese, Sentindo a maciez de teus cabelos, Depois a gargalhada em que despreze
O quanto desejei e que perdi Do amor que dediquei somente a ti...
42
Quem dera se eu pudesse arder em chamas, Queimando sob as luzes da paixão, Minha alma cativada, quando inflamas, Mergulha na total satisfação...
Amargas esperanças; cultivara Ouvindo o mesmo não repetitivo. Se mesmo a natureza desampara Propondo eternamente o ser cativo
No quarto sempre escuro do desejo O medo em relampejo trovejando O quanto que te quero e sempre almejo Aos poucos se perdendo e desabando.
Abandonado e só, nada me resta. Amor em solidão tristezas gesta... Marcos Loures
43
Quem dera se eu pudesse ao menos concordar Com toda a fantasia em que falas do amor. O ser humano é podre e mata por matar Escória do universo, um verme a decompor.
Perene tempestade em meio ao grande mar Imagem tenebrosa assim a se compor Demonstra a realidade. E teimo em procurar Ainda o que me resta. Um pouco de torpor
Nesta caricatura uma paisagem nobre Que ao fim da fria tarde um sonhador descobre. Porém quando ressurge o sol de um novo dia
O escárnio renascido, a miséria se expondo O cheiro deste corpo aos poucos decompondo Resumindo a verdade, esconde a fantasia... Marcos Loures
44
Quem dera se eu pudesse ainda crer, Que existe alguma chance de vitória, Porém a minha estrada merencória Eu vejo; dia-a-dia, esmorecer.
Agradecendo cada amanhecer, Eu sei que a minha luta é vã e inglória. Pudesse refazer a velha história, Mas sinto uma esperança fenecer.
Fui homem, tive sonhos, hoje o nada Rosnando em meus umbrais, tomando a cena, Nem mesmo a fantasia me serena,
Meu corpo, pouco a pouco se degrada, A morte quando bate à minha porta, Encontra esta esperança, ausente... Morta!
45
Quem dera se eu dissesse à solidão Este definitivo e sacro adeus, Tocado pela glória do bom Deus Eu teria, do etéreo, a sensação.
Cultivo da esperança, cada grão, Vencendo escuridão, doídos breus, Sentindo estes prazeres todos meus, Teria em pleno amor, satisfação.
Mas quando o frio chega, duro inverno, O olhar que imaginara calmo e terno, Afasta-se de mim, matando o sonho...
E ausência destruindo a fantasia, Enquanto uma alma neva e não estia, Nas mãos da solidão me decomponho...
46
Quem dera se estivesses por aqui, Por certo me farias bem feliz. De toda uma tristeza que senti A vida se tornando cicatriz.
Uma alegria imensa sinto em ti De sorte e sol em mágico matiz. Desse amor que em teus olhos percebi Desta explosão divina quero o bis
E vamos lado a lado, o tempo inteiro Correndo de mãos dadas com a vida No amor que se mostrou tão companheiro
Toda uma certeza imensa que domina. Tu és a minha sorte tão querida, Mulher tão delicada, uma menina...
47
Quem dera se este tempo,enfim, parasse, E a vida então seria mais feliz. O gozo da alegria em que me alçasse Traria toda o bem que eu já te quis.
Mas como o tempo passa, sempre algoz, Nos leva em suas asas, sem perdão. De tudo o que vivemos, tristes pós Deixados nesta estrada, resta o chão
Que,embora empoeirado inda resiste, Guardando uma lembrança do que outrora Vivera, e o coração batendo triste Durante a vida inteira rememora,
O tempo que não pára, na verdade, Persiste tão somente na saudade!
48
Quem dera se esse mundo acompanhasse O canto desse amor que já nos toma. Talvez toda esperança sem disfarce Viria percebendo que se assoma
De nós uma canção mais delicada Que é feita desse amor em amizade. A sorte então seria renovada Trazendo para nós felicidade...
Não deixe que se cale nossa voz Nem mesmo que a tristeza nos provoque A solidão decerto tão feroz; Quem em nossas emoções, jamais as toque.
Eu quero o teu cantar sempre feliz Trazendo todo o bem que sempre quis... Marcos Loures
49
Quem dera se esse canto de promessas Não fosse tão somente um simples canto A vida vai passando em tais remessas Diárias de ternuras e de encanto.
Recebo tais lufadas com prazer E vivo tão somente em alegria Se nada mais da vida eu irei ter Senão esta certeza de alegria.
Eu amo como nunca mais pensei Depois de tanto tempo mais tristonho Que eu dia neste mundo enfim terei Certeza deste amor que te proponho.
Eu quero ter contigo tanta luz, Amor que me protege e me seduz... Marcos Loures
50
Quem dera se esperança não cansasse Talvez assim pudesse ser feliz. A sorte que em sorriso, traz disfarce Descrenças e tristezas já me diz. É como se perdesse cada enlace Moldando em outra face o que se quis.
Vivendo a fina flor do desalento, Cultivo uma ilusão em meu jardim, Movido pelo fogo sempre atento Incinerando tudo, vou assim, Apátrida, sem rumo, o meu lamento Ecoa, num segundo, traça o fim.
Uma esperança apenas me alivia Da morte que trará tanta alegria...
51
Quem dera se entendessem a linguagem Das flores e das plantas, primaveras Matariam algozes feito em feras Deixando para trás a sacanagem
Daqueles que dizendo uma bobagem Não deixam que se pense em novas eras De um mundo em liberdade que tu geras Somente no pensar numa miragem.
Talvez esta utopia prevaleça Sentido verdadeiro da amizade. E o amor igualitário venha e cresça
Trazendo para todos, liberdade. Amor que eu aprendi, e nisto insisto Encontro tão somente em Jesus Cristo... Marcos Loures
52
Quem dera se entendesse desse amor Que tantas vezes dói e me maltrata, No fundo sempre sou um sonhador Vagando sem destino em densa mata.
Falando em sentimentos mais penosos, Desisto plenamente deste tema. De tantos os caminhos pedregosos A dor, amor, cansei de ter por lema.
Prefiro descansar esses meus versos, Falar de coisas tantas que não sinto, Vagar sem ter sentido por diversos Caminhos que no fundo, sempre minto...
Eu nunca mais farei versos de amor. Vazio, vou sozinho pr’onde for!
53
Quem dera se engatasse nesta gata Que mia toda noite no telhado, Um gato quase um velho, apaixonado, A plena mocidade já resgata,
Ao ver a precisão com que se engata Depois de tanto tempo abandonado, Sabendo que miara no passado, Porém quando ela mia me maltrata...
Da gata quero engate mais gostoso, Tocando com felina tentação, Até que chegue em fúria, o nosso gozo,
Fazendo toda noite uma arruaça Debaixo da soleira ou no portão, No meio do quintal, em plena praça...
54
Quem dera se ela fosse a mesma o tempo inteiro A moça faz a festa e deixa por promessa Um riso que eu bem sei jamais foi verdadeiro, O quanto que eu errei meu bem já me confessa
Não tendo, na verdade, a tinta no tinteiro Depois de certo tempo eu não tendo mais pressa Não quero mais sentir da moça nem o cheiro. A marca que deixou, doeu demais, à beça.
Amor não tendo tédio é sempre mais gostoso, Porém se é feito em farpa, amor é perigoso, Morrendo em nascedouro, esquece-se do encanto.
Desembestei o sonho em busca da morena. No fundo não queria. Eu sei, não vale à pena; Mas finjo que inda gosto; embora eu goste tanto
55
Quem dera se deixasse que eu viesse Da noite em tal ternura que te amanse, As mãos que te carinham, numa prece, O passo sorrateiro que te alcance.
Quem dera se trouxesse meu carinho E desse tantos beijos nesta nuca. Depois ir te despindo com jeitinho, Amor que não maltrata e nem machuca...
Apenas no gemido desta noite, As pernas se entrelaçam num balé, Me apego na ternura em manso açoite Amor que me transmite rogo e fé.
Não quero nem ao menos transformar Apenas o que quero, enfim, te amar!
56
Quem dera se bebendo do veneno Que a própria cascavel inda produz Morresse da picada, em ódio pleno, Serpente que rasteja e que conduz
Por sobre a terra fria, a jararaca Lambendo cada rastro, traz no bote, O cheiro mais impuro da cloaca Enchendo a paciência, quebra o pote.
Mas sangue desta cobra em alergia, Causando-me terrível urticária, Um dia, se mostrando com magia, Já teve sedução, bem temporária.
Agora balanço o seu chocalho, Não resiste sequer aos dentes d’alho...
57
Quem dera repartir os meus anéis, Esse ouro que carrego nos meus dedos. A vida que se passa, de víeis, Talvez já não guardasse tantos medos.
Quem dera repartir uma riqueza Que sempre desejei e bem não fez, Quem dera perceber que uma beleza Provoca, tanta vez, insensatez...
Quem dera repartir as esperanças A cada novo amigo que recebo, Criando não somente as alianças Fazendo deste amor, o que percebo.
Quem dera repartir os meus pecados? Egoisticamente estão guardados...
58
Quem dera prisioneiro em tua cama, Tomado por desejos quase insanos. Amara-te nos lençóis, até na lama; Instintos devorando, tão profanos.
Atado aos teus carinhos, viva chama, Escravo dos prazeres soberanos. Certeira sensação em louca trama, Não permitindo nunca mais enganos.
Na entrega sem limites, com paixão, Fazendo de teu corpo moradia, Roubando desta noite a tentação,
Hedônica vontade me domina, Além de todo o bem que te queria, Na fome que nos toma, e me alucina... Marcos Loures
59
Quem dera primavera retornasse. Talvez assim seria mais feliz... Olhando meu espelho sem disfarce A pele vai mudando de matiz...
Os olhos antes vivos, tão sem vida, A boca vai perdendo seu turgor, De todas as entregas desta vida O preço vou pagando com rancor.
Não tenho mais os braços que sonhara Na cama que queria fosse minha... Amar, amar, amar, palavra amara, Deixando uma esperança mais sozinha...
Mas tenho dentro d’alma tanto desejo... Morena vem depressa e dá um beijo!
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Quem dera onipresente e onisciente; Veria ao fim da tarde, o sol nascendo. Sendo felicidade um tosco adendo Quem sabe muitas vezes, quem mais mente.
No início; o precipício quis poente E o beijo da mulher/aranha; emendo. Segredos de um poema não desvendo, Nem luto contra a força da torrente.
Pelejo contra Deus, mato o Diabo, Letárgico país adormecido, Potencializando a tal libido
Nas coxas da morena eu já me acabo. Operando milagres na tevê Pastor coleta a grana; e ninguém vê...
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Quem dera no teu seio adormecer E sonhar com tanto amor que te guardei Vivendo nosso canto sem temer O mundo que prá nós imaginei...
Quem dera ser o triste beduíno Que encontra seu oásis e sorri. Amor que sempre tive, genuíno, Aos poucos, sem saber, eu já perdi...
Eu quero nos teus lábios maciez Nos mais divinos toques sensuais Sentindo teu desejo em languidez Vontade de querer decerto mais...
Amada não se esqueça como é belo Amor que tanto sinto e te revelo...
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Quem dera não tivesse tão má sina, Não teria a certeza desta espora... A mão que me tortura e desatina, Essa dor chegaria, iria embora...
Saudade, essa mulher que me assassina, Na certa não traria essa demora... Meus olhos embotados, lamparina, Amor que me castiga, sempre implora...
Quem dera não tivesse mais desculpas, Não sei se conseguias me entender... Minúsculas as festas sei com lupas,
Meus barcos nunca vão me surpreender. As mortes que tiveste são sem culpas Nas ondas de teu mar, sobreviver...
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Quem dera não tivesse a sombra da emoção Arrasta em desafio e mata o sentimento. A força inconseqüente invade o coração E mata devagar, num fogo firme e lento...
Sonhara estar distante. Um mero pensamento... Durante a tempestade, a chama da paixão O gozo da saudade, o medo em explosão... Meu mundo desabando apenas num momento.
Inútil este alento em forma de mil versos, Os olhos vendavais se fazem mais dispersos... O quanto nada tenho é tudo o que pressinto
Terei depois de tudo, o chão deveras duro. Meu canto se perdendo, o gozo deste impuro Tormento que em verdade explana amor que sinto...
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Quem dera me livrar desta emoção Que a cada anoitecer vem e tortura. Esgarçando o que resta de ternura Hemorrágica sanha, perdição...
Meu verso que em formato de oração Inutilmente os sonhos, vão, procura. Vagando sem destino, a dor perdura E encontra por resposta o mesmo não...
São rudes os meus dias, disso eu sei. O sol já se perdeu em outra grei Deixando escuridão, tão triste herança.
No amor que nunca veio meus espelhos, Minha alma tola em prece, de joelhos, Ainda tenta, inútil, uma esperança... Marcos Loures
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Quem dera fosse um sonho! É pesadelo! A gente faz das tripas coração Elogiando a pele, cor, cabelo, Depois de certo tempo. Traição...
Enrosco que me enrosco no novelo, Aguardo a cada passo o tropeção; Pior do que secar barra de gelo É crer que exista amor. Pura ilusão.
Velhaco de tocaia nos espreita, Aguarda algum momento de vacilo. E como diz o Quadros, porque qui-lo
Eu fi-lo sem saber desta maleita Que quando pega é febre da terçã É lobo que se esconde sob a lã.... Marcos Loures
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Quem dera fosse fera: audaz, cruel, fatal... Nos olhos mago brilho, as garras sempre atentas... Caçadora mordaz, impura, sensual... As patas deslizando, avançam, mansas, lentas...
Um gesto qualquer, tenso, a fera perigosa, Neste segundo a mais, as presas rasgam fundo.. Na beleza venal, força maravilhosa. Denso turbilhão louco, o bote dá, profundo...
Mas, delirantemente, esta fera tão temida, Que é, verdadeiramente, um símbolo de guerra. Ao ver tua beleza... Estranho... Cai ferida.
Não sabe deste amor que é luz e que é quimera; Arrasta-se gentil, deitada sobre a terra... É muito bom te ver domando esta pantera! Marcos Loures
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Quem dera eternidade num amor Que sendo fátuo traz dor e prazer. E quantas vezes; teimo em me perder, Distante do que eu possa recompor.
Cantando ternamente em seu louvor, Apenas intempéries vou colher, Eu sei que deveria já saber Do frio após as ondas de calor.
Arrisco-me no abismo, precipício, E sei que amar é quase um tolo vício, E nisso, com certeza, me eternizo,
Ouvir a voz que vem do coração, Da amarga teimosia, um guardião Enfrenta em placidez, chuva e granizo...
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Quem dera eternidade neste sol! Os ermos desolados e tristonhos, A lua desfraldando seu lençol Em meio a pesadelos mais medonhos...
Incêndios invadindo meu paiol, Eu me embriagarei, doces medronhos... Licores me farão perder farol, Martírios e torturas, enfadonhos...
Horrenda garatuja me persegue. Espectros e fantasmas me torturam. Embalde, tanta vida foi entregue,
Partícipes fiéis desta agonia... Mas, paradoxalmente, as dores curam, Vislumbro, no final, um claro dia... Marcos Loures
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Quem dera estar nos versos que colhi No jardim que em minha alma cultivei. São dores perfumadas, vão aqui, De todas essas flores, temperei;
São simples sentimentos sem palavras Que as luzes e calores fecundaram. Amores em meu peito, calmas lavras, Que as lágrimas passadas tanto aguaram...
Se trago minhas mãos tão calejadas, De tantas poesias que sonhara, As rosas por amores já podadas, As flores que cultivo são tão raras...
Brotando neste esterco de minha alma, Espinhos penetrando, mão e palma...
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Quem dera em ritual tão delicado Roubar de teus segredos cada mel. Depois destes rompantes, saciado Voar ao infinito, qual corcel.
Amor rodando; gira em carrossel Em lábios, bocas, dedos. Desfrutado Sem tréguas, sem limites vai ao céu Com tal vigor, pra sempre iluminado
Roçando a tua pele sensual, A boca te percebe extasiada, Repete novamente o ritual
E adentra tuas sendas, teus caminhos. Assim, nesta canção apaixonada, Demonstro com ternura, os meus carinhos...
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Quem dera descobrir em mansa mata Entrada do caminho mais ardente. E penetrar derrames de cascata, Seguindo pela rota simplesmente
Na fúria da paixão tão penetrante Matar a sede intensa de tal anjo Vibrando como um deus a cada instante Tramando na magia doce arranjo.
Entrar nesta planície que orvalhada, Invado e que também me orvalho tanto. Fazendo do desejo, minha amada, A toca que penetro, meu encanto...
Sabendo que eu ardendo em tal prazer Encontro, assim, vontade de viver...
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Quem dera cavalgasse em meu corcel No encontro da rainha em seu castelo. Vagando qual cometa no teu céu, No sonho mais bonito que revelo.
Por certo encontraria em seu dossel Aquela por quem sofro e tanto velo. A sorte descortina um belo véu, Contigo meu destino, amor, eu selo.
E vejo teu sorriso cristalino, Rainha de meus sonhos, soberana.. Retorno aos meus bons tempos de menino
E vivo novamente uma esperança. Da vida que nos toma e tanto engana, Quem sabe me darás última dança?
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Quem dera algum ourives da palavra, Apenas um ignaro trovador Usando da esperança a minha lavra, Um antiquado e mau agricultor.
Meu canto sem recanto pra descanso, Embora desarmônico, persiste. E quando ao tolo sonho, em vão, me lanço; Tento dissimular meu peito triste.
Às expensas do riso sem sarcasmo Revolvo os meus estúpidos caminhos, A vida se desnuda em tal marasmo Sem ter sequer licores, gins e vinhos.
E quando de mim mesmo eu já me afasto, Escondo-me do espelho. Sou nefasto.
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Quem decerto faz a fama Preparando um bom descanso, Quando encontra alguma cama Quer o gozo, eu te afianço.
Mas decerto sem um drama A verdade não alcanço, Se acendeste assim a chama O meu peito aquieta manso
E fazendo do meu verso Algo além destas palavras Quem me dera no universo
Já pudesse enfim granar Com ternura as duras lavras Que aprendi com dor arar... Marcos Loures
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Quem de magoar-te, sem pensar havia Senão quem tanto amara, mas não quer Deixando a tua imagem em qualquer Caminho em tão distante fantasia.
Palavra traiçoeira e tão sombria Às vezes vai saindo sem querer Mostrando, bem no fundo, que o prazer Largado em triste canto poderia
Ser transformado em fúria em desalinho Depois que um coração ledo e sozinho Não visse mais estrada pela frente.
Amar e ser assim, tão descontente Sem ter sequer visão de algum carinho, Transforma a nossa vida, de repente... Marcos Loures
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Quem chora se insistente ganha e mama, Eu sei desta verdade musical. Que enquanto ela desfruta o carnaval Eu deito aqui sozinho em minha cama.
Não posso mais fazer do fato um drama, Mas isso fica muito feio no final, Cansado desta cara feita em pau A fúria que me toma, tudo inflama;
Sentar uma porrada na safada; Usar mesma moeda, numa troca. Na comida botar um pó de broca,
Que nada; vou dormir: cabeça inchada; Depois chega fingindo-se inocente, Ganhei- um belo chifre de presente...
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Quem canta seu amor quase impossível, Espalha as esperanças no caminho. Liberto o pensamento, um passarinho Se mostra com poder imprevisível.
O brilho em seu olhar se faz visível E traz na fantasia a luz de um ninho Que mesmo tão distante, um raro vinho, Inebriante molda-se possível...
A par dos meus enganos, nada temo. E mesmo na ilusão à qual me algemo Eu sigo; peito ereto em destemor.
E quando a morte vir com suas garras Ao menos eu terei solta as amarras Que foram meu tormento e meu louvor.... Marcos Loures
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Quem canta se chorando nada faz Procura por sedenta juventude Porém se não mudar uma atitude Em pouco tempo tudo se desfaz.
Nos campos que quiser ser mais capaz Tremulam as bandeiras amiúde Em versos que precisam a saúde De todos os que não serão jamais...
Mas nada me proponho que não faça Espero que depois disto proposto A vida se refaça do desgosto
E não permita fogo nem fumaça. A mando dessas rugas no meu rosto, A juventude em mim, já se esfumaça. Marcos Loures
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Quem busca, nas guerrilhas, pelas pazes Não sabe quanto mata uma peçonha Embora tal antídoto que trazes A dor desta ferida é tão medonha.
A morte vem trazendo estas tenazes Marcando uma esperança mais risonha. Os dentes da pantera são vorazes, Deixando com que a vida não se exponha.
Meus olhos destruídos pelo brilho Feroz de quem tentei ter por amante. Aborta um bom futuro, mata o filho,
E mesmo assim se quer mais deslumbrante Assim é na amizade, uma traição, Causando uma indefesa convulsão...
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Quem busca tão somente em destempero Fazer da sua vida um novo templo Aonde com certeza já contemplo O risco de tornar-se amargo e fero.
Ao exemplificar esta conduta Encontro uma resposta em falsos ritos, Nem mesmo a vã dureza dos granitos Suplanta esta raposa assaz astuta.
Ao crer noutra manhã que nos refaça Soergo a fantasia da fumaça E volto a ser quem fui tempos atrás.
Sacias minhas sedes, esperança, Enquanto a tua mão em paz me alcança, Eu bebo do calor que amor me traz
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Quem bate na criança e chuta alguém Caído sem defesas deve ter Nem mesmo punição? Não posso crer Que seja realmente homem de bem.
Não creio que uma crítica que fale A dura realidade seja ofensa. Será que tal barbárie recompensa E faça com quem vê que já se cale?
Desculpe se o Toró vira chuvisco, Falando essa verdade eu já me arrisco A ter numa mordaça, esta amargura.
A violência prova o destempero Falar deste episódio, devo e quero, E não me calarei frente à censura! Marcos Loures
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Quem andara sozinho tantas léguas, Ouvindo tão bel canto se enamora. À solidão pedindo logo tréguas Percebe que emoção chegando agora
Em doce afago doura o seu caminho E mostra a solução de seus problemas. Quem vive em mansidão sabe o carinho E traz felicidades como lemas.
Sem dúvidas, persegue a sorte infinda Emoldurando amor dentro do peito. Um mundo mais feliz que se deslinda Já pressupõe futuro satisfeito.
Assim, ao me entregar, também me salvo, Deixando que Cupido acerte o alvo... Marcos Loures
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Quem amor com amor retribuir Será bem mais feliz; eis a verdade, No brilho desta luz a reluzir Segredo para a tal felicidade.
Amar é conceder e repartir, Acalma toda a dor em tempestade. Toda a alegria assim a repartir, Num ato de carinho e de amizade.
Assim a solidão fica distante, A glória se faz clara e transparente. Tomando o coração de toda a gente.
Jamais se apaga o brilho radiante De quem fez de um amor o bem constante. Por isso não desista, amiga, tente.
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Quem ama, na verdade traz bandeira E esquece a falsa pedra diamantina, Apenas a verdade me alucina, O resto é luz opaca, feiticeira.
Deitando uma esperança nesta esteira Aguardo algum sorriso da menina, Nas águas da lagoa cristalina Reflexos deste amor que um dia queira
Vestir a minha pele em sua tez, Trazendo à vida alguma maciez, Jogando este vazio para fora.
Quem sabe poderei dizer um dia, A frase que o destino mudaria: O tempo de viver já não demora! Marcos Loures
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Quem ama sabe sempre que os espinhos Apenas dissimulam as defesas, Belezas encontradas nos carinhos Bem valem espinheiros de tristezas.
Eu sei quanto te quero e nada mais tenho Senão uma alegria assim, sem par, Das terras e dos sonhos de onde venho, Feliz por que encontrei quem quis amar.
Não sabes, mas há tempos te observo E cada vez que vejo mais me encanto. Não quero o nosso amor cativo e servo; Prefiro a liberdade em nosso canto.
Bem sabes que te adoro, de verdade, E sei que nunca existe crueldade... Marcos Loures
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Quem ama sabe o laço que suporta, Não teme os desenganos; vai em frente, Se a estrada se apresenta dura ou torta Segredos desvendados, num repente.
Abrindo com firmeza cada porta, O coração se ilude, mas não mente, E mesmo que esperança surja morta Na fantasia crava cada dente.
A música se espalha pela casa, Alvoroçando tudo; maremoto. E o sonho que pensara ser remoto
Tomando toda a cena não se atrasa Chega numa explosão, num fogaréu Ensangüentando em glória todo o céu...
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Quem ama quando, enfim, é tão amado, De sonhos inundando todo o mar; Não pesa, flutuando, vai alado... Aos poucos aprendendo, vai voar...
Transformando sua alma em doces asas, Passando por estrelas e cometas... Por sobre estes castelos, ruas, casas; Viaja por milhares de planetas.
Semeia uma alegria, sem igual; Encontra ressonância no silente. Decora com seus sonhos, todo astral. Descobre um paraíso, de repente.
Percebe quanta luz, quanta ventura; Caminha sobre um mar, todo ternura...
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Quem ama purifica cada dia Transforma a solidão em plena paz. Vivendo tanto amor em poesia De um novo mundo, sinto-me capaz De ter assim um pouco de alegria, Que somente um amor à vida traz..
Dançando com palavras, sentimentos, Na festa em que esta vida se transforma Entregue o coração aos fortes ventos Tomando a cada dia nova forma Procuro ser fiel, santos momentos, Senão toda a tristeza me deforma..
Estrela divinal que se anuncia, Bebendo de teu corpo em tal magia...
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Quem ama nos ensina que na vida A falha cometida no passado, Se noutras vezes, sempre repetida, Mostra que quase nada foi guardado. Etapa por etapa assim cumprida, Capítulo bem visto e encerrado, Lição já decorada e aprendida, O resto: bem melhor deixar de lado... Acendendo uma vela que clareie, Iluminando o rumo tão escuro; Permite que o futuro não receie Aquele que aprendeu esta lição: “Pensando neste brilho que procuro Eu deixo assim de lado, escuridão...”
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Quem ama não se esquece, disso eu sei. E vejo nisto a glória de viver. Aquilo que nos deu calor, prazer, Invade mansamente a nossa grei.
Na estrela que em delírios desenhei O lume inesgotável posso ver. E mesmo que ilumine um outro ser Eternamente em paz eu guardarei.
O amor não tem remédio. Pois ele é Quem cura e quem redime, farto ungüento, Embora nos pareça uma galé
Somente num Amor, a redenção, Não faça dele um vago sofrimento, Mas sim a luz que doura o coração. Marcos Loures
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Quem ama não desiste quando a chuva Surgindo em temporais inunda a margem Se, no princípio temos visão turva Depois de certo tempo, uma paisagem Surge calma e serena. Quando a curva Fechada nos proíbe uma passagem, Amor que nos caiu como uma luva Promete as alegrias da viagem Depois de certo tempo, aberta a estrada Mais nada nos impede a caminhar. Eu peço paciência, minha amada, Difícil que pareça, a pedra dura, Essa água que persiste sem parar, Depois de certo tempo, a pedra fura...
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Quem ama e só tem laço, e assim fraqueja Não sabe desta missa nem metade Amar não é só ter o que deseja Precisa ter a força na verdade
De quem sabe que a vida relampeja E molha quem não teve liberdade, O fim de todo amor, que se preveja, Já passa pelo fio da saudade.
Nos olhos da morena, dei um nó Atado com vigor e com coragem. Agora com certeza não vou só
Seguir o meu caminho, uma viagem Que mesmo que se faça em tanto pó, Encara as tempestades que ultrajem.
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Quem ama de verdade não se cansa Decifra todos os signos que encontrar, Não teme mais distância, enfrenta o mar E segue, peito aberto, com pujança.
Nas ruas e luares, a lembrança Permite o que se quer rememorar, Fazendo de teu porto o meu altar, Numa alegria imensa de criança.
O coração de um triste sertanejo, Entregue à sensação – calmo desejo, Escuta um canto amargo do passado,
Mas tendo o plenilúnio de um amor, Compõe num verso breve e sonhador, Toada de um caboclo enamorado. Marcos Loures
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Queimando cada etapa desta vida, Um velho mensageiro da esperança Depois de tanto tempo, não alcança Sequer o labirinto e quer saída...
Silenciando a voz, na despedida, Quisera pelo menos temperança. Sorriso em ironia, uma vingança Da sorte que se molda desvalida...
As mãos que tu me estendes, calmaria, Talvez sirvam de alento ao sonhador, Que morre a cada dia, sem valor
Jogado num porão em noite fria. O tinto do meu sangue em palidez Demonstra que chegou a minha vez... Marcos Loures
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Quebrando estes espelhos não consigo Vencer o tempo-rei que nunca pára, Apenas na ilusão encontro abrigo Realidade cerca e desampara.
Agrisalhando assim o que foi trigo Minha alma envelhecida se prepara, E mesmo quando tolo; em vão desdigo Manhã jamais será tão mansa e clara.
O corte se aprofunda e nada faço, A cicatriz ocupa todo o espaço E embaço-me nos passos mais fugazes.
Quem dera se pudesse retomar A estrada que perdi noutro lugar A vida me escondeu coringas, ases...
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Quebrando este telhado que te abriga Do frio, da saudade e da tristeza; A sorte que te fora sempre amiga Abandonada, busca noutra mesa Repasto. Tu quebraste a forte viga Que tanto sustentou; qual fortaleza, A relação mais forte e tão antiga Onde eu não esperava tal surpresa... Amiga... Já pressinto que a desdita Virá te acompanhar no dia a dia... A sorte que tu pensas ser maldita Foi quem te iluminou por tanto tempo... Matando toda a fonte da alegria, A vida te trará só contratempo...
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Quem dos olhos em chamas se perdeu, Distante de meus braços, vaga tonta, O resto do quem fui já não sou eu, E a solidão, vingando-se remonta
Aos dias em que o mundo fora meu Olhar de quem amei, divina conta Luzindo num momento, morto o breu, Apenas a lembrança ainda conta.
Ultimo o pensamento, não resisto, E volto meus desejos ao passado Um vento se transforma num tornado
E o cálice dos beijos que inda insisto Trincado pelos ódios das paixões, Sangrando dentro da alma, aos borbotões... Marcos Loures
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Quem dormira num sonho mavioso Acordando em quimera desditosa Esquece que vivera em fino gozo, E dorme se espinhando em mansa rosa...
Amada nosso amor somente meu Depois de tanto tempo descoberto Aos poucos sem sentido, enfim morreu, Distante de teus olhos mas tão perto...
Dizer que não te adoro, é vã mentira Porquanto esses meus versos não se calam. A noite que em meus braços outra atira Nos braços e na boca nada falam...
Parti, já fui embora, revivi... Devolve o coração, deixei aí...
99
Quem dorme com criança sabe o mijo E acorda bem molhado, eis a verdade. Do canto do aloprado, enfim me alijo E exijo pelo menos qualidade.
Não vou ficar mais discutindo com panaca É coisa de imbecil, isso eu não sou. À bala, canivete, ou com a faca, Barriga de um macaco se estourou.
Pior que ser palhaço é ser otário, O rabo balançando mostra o cão, O rego do chifrudo, um estuário Aonde o dedo encontra a direção.
Depois venha dizer que não te disse Já não suporto mais tanta tolice...
13600
Quem era o que jamais pudesse ser Ousando ser talvez o que teimasse, A vida se mostrando desta face Risonha e ao mesmo tempo sem saber
Dos erros cometidos, posso ver Idolatrado engodo onde se trace O rumo se moldando neste impasse E o canto traz o raro enternecer.
Vestir esta ilusão, seguindo em frente E o todo noutro rumo se apresente Moldando o descaminho aonde eu sigo
E tento discernir qualquer alento, E quantas vezes busco ou mesmo invento Ultrapassando assim qualquer perigo.
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