
Dona Só
Data 29/12/2010 00:35:40 | Tópico: Poemas
| Rendava nos panos graças veias de ternura… Tinha névoas a dias no olhar verde míope. Espairecia pelo mundo breve, cabelos tão antigos que havia rumos com histórias na encruzilhada das lembranças. Pelo corredor, num passo brando, linho de doce e brandy mel, ia pela tarde encontrar as cinco no baloiço do sol cansado. Debruava a sombra numa parede de companhia… Rangia pelos ossos conversas ocas dos armários habituados no caruncho e no silêncio do sol ocaso. Impressionava os ouvidos com ajuda das pestanas a engelhar um sobrolho surdo. Miava-lhe o gato ao caminho, macio como um novelo para lhe saber o respirar. Esquecia-se no nome de regar plantas mortas… As begónias entristecidas choravam noites inteiras num vaso de terra firme. Sozinho, o tempo, tinha-a sempre confidente quando olhava os retratos… E havia uma família inteira a fazer sombras na parede com coisas de quase saudade. Dona só da minha rua, laço de veia ternura, silhueta de janela… Renda velha e soturna, amarela e taciturna, a plantar calma, doce e bela. Decora a minha sombra e a mão begónia desassombra um aceno pela vidraça… Passo sempre passo a passo devagar e porque faço um gosto neto de a olhar… Hoje não estava lá sentada, estava uma begónia prostrada e um gato a miar.
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