
MEUS SONETOS VOLUME 105
Data 23/12/2010 19:14:00 | Tópico: Sonetos
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1
Nas lágrimas do mar que preencheram A taça de cristal dos meus afetos. Nas tantas madrugadas, se perderam, Ironias de antigos desafetos...
Nessas tantas quimeras que enfrentei Em busca dum viver mais venturoso. Sabendo que por vezes não achei Caminho que me fora dadivoso.
Trazendo meus amores com saudades, Fazendo dos meus versos a navalha, Quiçá talvez encontre na batalha,
Os medos que me deram liberdades. Amando muito mais que imaginara, Nas garras da pantera, amada rara...
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Nas janelas abertas, as falenas Penetrando não deixam-me dormir... Suas vidas tão frágeis, tão pequenas, Se embriagam do lume sem sentir...
Os amores prometem tantas cenas, Nas esperas, o sonho repartir. Ao final só restaram dor e penas, Foi apenas um raio a refletir...
Qual falena que morre, sem saída, Me amor se esvaindo, ledo fumo.. Evaporando a minha própria vida!
Janela aberta, fecho o peito, mudo... Nunca mais voarei incerto rumo. Nunca mais o teu brilho! Não me iludo... Marcos Loures
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Nas igrejas mineiras ouro e prata! A crença dissemina esta esperança! A mansidão voraz d’uma cascata Nas duras tradições dessa criança!
Igrejas ricas, povo se arrebata. Lamentos dos escravos na lembrança... A mão que beija, é certo, te maltrata... Morte e vida caminham na aliança!
As igrejas mineiras, funerais... As chibatas cortando esses escravos! A riqueza das minas, nunca mais...
Vila Rica, barroco, Aleijadinho... Essas mãos doloridas, calos, cravos... U’a sensação mineira, estar sozinho... Marcos Loures
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Nas horas que vagas Prometem descanso As distantes plagas Em sonhos alcanço
E sei que me afagas Coração tão manso A vida que alagas Num calmo remanso.
Vencendo estas dores Que a vida nos traz, Bordando mil flores
Em tal claridade, Encontro esta paz Na tua amizade...
5
Nas horas mais tristonhas, reconheço Que lembro de teus olhos, mansos guias Se a vida preparou tanto tropeço Ainda restam gotas de alegrias
Se eu tive muito além do que mereço, Sobraram do passado, as fantasias O amor que se faz como um adereço Espalha nos meu canto alegorias
Que falam deste tempo inesquecível Do sonho que hoje sei ser impossível, Felicidade plena; o que fazer?
Se em toda a minha vida nada tive, Apenas a saudade ainda vive Um último suspiro de prazer! Marcos Loures
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Nas horas mais difíceis te conheço Bastam que essas quimeras me profanem Que todos deste mundo já me enganem Para saber se em ti me reconheço!
Não tendo mais sequer rumo, endereço, Nem mesmo fantasias que inda emanem Dos olhos em que amores não explanem Além da frágil luz de um adereço.
Os lenços abanados num adeus, A paz que tanto eu quis e nunca veio, O andar sem os percalços do receio
Os dias que seriam teus e meus... Agora ao ver teu rosto escancarado, Entendo os meus temores do passado...
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Nas horas mais difíceis desta vida Quando quase nada nos traz paz Estrada já parece tão perdida, Nem mesmo de lutar sou mais capaz Parece que esta sorte decidida Apenas negritude a noite traz Não vemos mais sequer uma saída, Aí é que amizade então se faz. Amigos são pouquíssimos e raros, São quase imperceptíveis por vezes, Porém são preciosos anteparos Que impedem nossa queda de verdade. Às vezes tão distantes, anos meses, Mas nunca abandonando uma amizade.
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Nas horas em que vejo tua imagem Refletida nas águas cristalinas Percebo ser somente uma miragem, Mesmo distante sempre me alucinas...
Depois de ter na vida, uma ancoragem No cais feito de braços; nas colinas Das ilusões amores forram minas E matam emoções, vazios pajens...
Nas retinas cansadas teu reflexo Repete a mesma cena do passado. Do amor que se perdeu sem ter nem nexo,
Da boca escancarada do senão Do espelho que se fez de mais rogado, Nos cálices tão loucos da paixão....
9
Nas horas em que a vida se periga Tu soltas cada flato! O que fazer? Ainda continuas minha amiga, Assim irás pôr tudo a se perder...
Tem gente sem olfato que nem liga, Porém sem ter remédio eu posso ver Que nada disso serve como intriga Não posso suportar tal desprazer...
A culpa tu me dizes, do intestino Que gosta de brincar em desatino E cisma de roncar a qualquer hora.
Se tanta frouxidão é patológica, A coisa está perdendo sua lógica Busque um proctologista, sem demora...
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Nas horas complicadas desta vida. Comparsa e companheira, minha amiga. Navegas por meus mares sem intriga Minha alma se emparelha, repartida...
Não quero mais saber se vai perdida Ou se encontra nos braços ou periga, P’ras dores deste mundo: trago figa, Nem quero mais ficar, venha e decida!
Meus olhos vagamundos vergalhões. Vão vesgos vasculhando a decisão. Embarco-me na toca dos leões;
Do mundo quero amor e mansa brisa. Aguardas que me exploda o coração? Te espero atrás da curva amada Elisa!
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Nas margens deste rio meus cansaços Encontram, por sinal, bela morena... Os jogos que brincávamos, devassos, Tristeza nem sequer de longe acena...
Eu te fiz uma rede com meus braços Passarinho assistindo toda a cena, No canto homenageia nossos laços... Pena que, p’ra esse amor, vida é pequena!
Uma nuvem passeia pelo céu, Tampando o velho sol, envergonhado. Num barquinho de sonhos, de papel,
Navegamos por mares tão distantes... Lá longe, na montanha pasta o gado, Colorindo essa tela; dois amantes... Marcos Loures
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Nas margens deste rio a densa mata Verdeja uma esperança, toma a cena. Na turbulência imensa da cascata Procuro em vão uma água mais serena.
Beleza que tortura e me maltrata, Embora uma ilusão se mostre plena, A vida na verdade não retrata O que esta fantasia já me acena.
Quisera em nosso amor, a placidez Distante desta imensa corredeira, Buscado vislumbrar, quem sabe a foz
Expresse depois disso, a lucidez. Quem sabe tendo a paz como bandeira A mansidão se mostre para nós...
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Nas margens desta estrada verdes ramos Das plantas arenosas e espinhentas Recordam tantos sonhos que aparamos Em meio a tempestades violentas...
Por vezes, as palavras virulentas Com as quais sem pensar, nos torturamos, A nos destruir formas mansas, lentas... À margem desta estrada, não paramos...
As urzes esquecidas nos caminhos, No corte tão profundo dos espinhos Morrendo o nosso caso, devagar...
Ao ver as margens desta triste estrada, Percebo na clareza de um luar Por que entre nós dois nunca restou nada! Marcos Loures
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Nas mãos tão delicadas novo brilho, Nos olhos esperança destacada. Desejo teu amor como estribilho, As noites que passamos, na calçada.
Surgiste do infinito, já me pilho Em loucas fantasias sobre o nada. Por certo, tantas vezes eu me humilho, Na incerteza cruel, desesperada!
Em vias de loucura, cara amiga, As tuas mãos são bênçãos divinais. Ajudas a aplacar a dor antiga,
Daqueles que precisam deste cais. Alexandra ,também da humanidade, Faço parte, eu te peço caridade!
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Nas mãos tão dedicadas de uma amiga Fiel, em sentimentos mais vivazes A permissão perene que prossiga Os sonhos mais difíceis e tenazes. Que a vida assim serene e que consiga A sorte nos mostrar bem mais capazes.
Floresce uma amizade num rosal, Distante dos espinhos e mazelas. Iluminado sempre pelo astral Tomado nas tiaras das estrelas. Trazendo uma esperança sem igual Em noite que virá sempre a contê-las.
Um sentimento raro que enobrece Não pode ser assim, somente prece...
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Nas guerras, nos amores e na paz, Foram tantas promessas que fizeste Duvido, meu amor, se inda é capaz Saber se o sol nasceu no oeste ou leste.
O vento de esperanças não me traz O rumo que perdemos e que deste. A mão que me tortura é tão tenaz O fogo vence amor, lhe queima a veste.
Recebo das batalhas, a notícia Que tantas vezes, finjo que não quis. A dona do meu sonho de carícia
Retorna para, enfim, viver comigo. Distante das guerrilhas, do perigo, Com Hilda, certamente, sou feliz.
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Nas guerras sensuais, vitais pelejas Que tanto se constela nosso caso, As horas delicadas que desejas, Não foram simplesmente puro acaso.
Cabiam tais desejos, nossa lavra, Há tempos procurados, mãos e bocas. Sussurros e murmúrios, na palavra, Havia uma esperança em rubras tocas...
Vivemos embebidos da loucura Que tanto nos seduz quanto desmaia. Numa explosão fantástica em ternura, Deitado no teu colo, prá que saia?
Amada em nossos olhos, a promessa, Da noite em maravilha, que começa...
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Nas estrofes que tento, meu tempo urge. Marcas de tuas patas não saíram... Os dentes antes fortes, já caíram, Antes o sempre bravo já nem turge.
Vai solitariamente, a dor ressurge... As aves que voavam, descaíram, Os tempos que sonhara já se expiram... Da poeira noturna nem luz surge!
Nas estrofes que tento, nada faço. Não tenho mais canção nem serenata. A mão que acaricia me maltrata.
O resto que deixei, forjou abraço... O rosto que t’amei nem ouro ou prata. A noite vai vencendo meu cansaço
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Nas estrelas, decerto, ele tropeça Amor qual andarilho em noite imensa. Por mais que seu caminho não se impeça A vida às vezes segue audaz e tensa.
Descrente do poder que sempre tem, O amor em liberdade, alçando o céu, Procura tão somente por alguém Que venha em galopante carrossel,
Girando se entontece e quase cai, A sede não se mata simplesmente, Amor quer redenção, o seu Sinai, Mas louca convulsão já se pressente
Fazendo deste sonho, um pesadelo, Nos braços da paixão, firme novelo...
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Nas estradas sozinho, sem rumo. Vou buscando o sol que há de vir. Dessa vida bebendo o seu sumo, Quero mais e demais sei pedir.
Não tem pressa de ver a chegada Nem o medo do bote da fera. Toda noite me perco sem nada Nessas garras da linda pantera.
Quero o lanho nas costas marcando, Cicatrizes do amor mais feroz. Se pretendo seguir te adorando, Não consigo soltar minha voz.
Quero o beijo sedento e faminto, Na loucura do amor, meu absinto.
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Nas estradas desta vida Capotei meu coração, Tanto amor tanta ferida, Quero cicatrização,
Mas se não sei a saída Se eu perdi a direção A saudade não debrida Piora a situação
Porém quando sinto o abraço Desta amiga costumeira, Novo rumo então eu traço
Chego a rir do meu passado, Na alegria verdadeira Do peito cicatrizado... Marcos Loures
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Nas entranhas da Terra eviscerada Estranhas criaturas emergindo... O gosto da manhã despedaçada Seu sangue e suas linfas aspergindo...
Astutas esperanças dão em nada, Amor que não constrói morre fingindo... Sou matéria, inexisto, polvilhada... Do centro desta esfera irei fugindo.
Pirâmides, elipses, cubos, retas... Nas formas e desejos mais brilhantes. Nas vísceras expostas dos poetas,
Nesta hiperestesia que é patética... Fâneros e fornalhas latejantes, Nas veias que exporei, resta a poética... Marcos Loures
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Nas endechas perdida por inteira, A antiga melodia da esperança. Erguendo num momento esta viseira Eu posso vislumbrar a temperança.
Quem sabe quanto espera já se cansa E veste a velha roupa costumeira, O amor ficou restrito em vã lembrança Por mais que a fantasia ainda queira.
Agarro-me no lastro imaginário Tentando retornar, de novo, à tona. Enquanto o meu prazer, frágil, ressona,
Revivo a fantasia no antiquário Aonde ainda existe sem ser só, Ilusão travestida num brechó
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Nas emoções diversas que encontramos Durante a nossa vida, eu te garanto Que às vezes da alegria desfrutamos Em outras; sentimentos frios, pranto.
Embora em mesmo arból, existem ramos Que trazem fantasia ou desencanto. Em todo sentimento que espalhamos Felicidade imensa ou dor, quebranto.
Tu sempre demonstraste ser amiga, Numa alameda feita em flores raras, A quem necessitar, tu sempre amparas
Que Deus a cada dia te bendiga Sabendo que hoje é teu aniversário, Receba este meu canto solidário...
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Nas douradas searas te percebo E sinto teu perfume solto ao vento. Te vendo tão feliz, logo concebo Encanto que não sai do sentimento...
Vibrando o firmamento comemora A vinda deste amor nestas searas Pintando em claridade se demora E mostra tais belezas, soltas, claras...
A luz de teu olhar que se transmuda Na luminosidade que recebe Em tal felicidade me saúda Reflete tanto amor quanto recebe...
Na tarde que promete a bela lua, Minha alma, transparente, em ti, flutua...
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Nas delícias do amor, ó minha amante, Sou o que não percebes mas consentes. Espera que sorveste delirante No fundo não sou nada do que sentes.
Mas tua alma infantil sabe quem sou, Um verso que se esparsa em louco vento Louva deus que se perde e se restou, Um gosto adocicado, pensamento...
Recheio de esperanças, rocambole; No canto de qualquer uma vitrine De noite teu carinho vem e acolhe, Mas expulsas nem bem noite termine...
Cavaleiro, corcel que imaginaste, Na negra solidão que me encontraste!
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Nas danças que tu fazes nesta tenda, Em véus a fantasia em transparência. Aos poucos na nudez que se desvenda, Torturas meus desejos, inclemência.
Eu tento segurar, ter paciência, Porém sem ter juízo nem emenda, Num átimo penetro a bela senda, Num ato tresloucado qual demência
E te pego, odalisca, uma sereia, Um louco beduíno te desnuda A tenda, num segundo se incendeia
Quem passa vendo as sombras já percebe E a direção dos passos logo muda, E um louco desatino assim concebe... Marcos Loures
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Nas danças que fazemos, cama e chama, Eu clamo por teus toques mais sutis. A gente se renova e assim proclama A vera sensação de ser feliz.
Eu quero neste encaixe toda a trama De gestos mais audazes e gentis. Eu sei que tenramente amor nos chama E pede desejoso um novo bis...
Inundo de desejos corpo belo Desta mulher morena, tão bonita. Nudez maravilhosa que se fita
Vontade de querer demais, revelo E tomo cada gota mais sedento, Bebendo o teu prazer em fogo lento... Marcos Loures
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Nas danças e nos gozos lua e mar Abraçam-se em paixões mais violentas Deslumbre de quem sabe o quanto amar Traz nossas vidas loucas e sedentas.
Eu quero como a lua te encontrar Deitando sobre ti, em mãos mais lentas Até poder teu âmago tocar E perceber enfim quanto te assentas
A doce insanidade da maçã Que é feita de paixão e de delírio. A silhueta bela, qual colírio
Na dança anunciada, com afã Comigo num conjunto inseparável Formado por desejo incomparável... Marcos Loures
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Nas dálias nas corbelhas que encomenda Aquele que pensou amar demais. A vida não promete nem comenda, Quem sabe pede, nunca perde paz...
Amores sem tristezas leda lenda, As carnes se devoram canibais, Viver continuamente a mesma tenda, É jogo pra quem sabe ser capaz...
Das dálias que plantaste nada brota, O rumo que pensei mudou de rota, O passo que já deste foi tropeço.
Amor não deixa nunca recomeço. O rio se passou, alaga a margem, Não deves retornar dessa viagem... Marcos Loures
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Nas guerras e nas camas peço paz! Meus medos são remédios e doença. Por vezes me percebo tão capaz Mas quase não conheço quem convença.
Quem dera ser assim, um bom rapaz, É coisa que não quero e vou sem crença. Batuca no meu peito um capataz, No fundo não me cabe nem compensa...
A noite se refresca em plena brisa, O manto das estrelas me cobriu. Nos versos dessa amada poetisa
Meus erros se acumulam, mais de mil. Desculpe se machuco-te Eloísa, Amores do meu jeito, mais viril.
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Nas grandes esperanças que trazia Dos tempos mais felizes que perdi. Recebo tal notícia de alegria, Espero por teus olhos bem aqui.
E cuido dos meus erros, meus enganos, Procuro consertar os meus caminhos. Vivendo tantos ermos, abandonos, Quem fora solitário, sonha ninhos...
Dispersos; os meus gritos são vazios, Espreito um novo dia, amanhecer... Meus cantos sem sentido, sós, vadios, Aguardam novos tempos de viver.
Amor de intensidade tão crescente, Aos poucos, me tomando novamente...
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Nas gotas desta chuva que caiu, Uma emoção se fez tão diferente, O frio que na noite se sentiu Precisa de um calor que venha urgente,
O coração deveras mais gentil, Espera que movendo toda a gente A chuva feita em lágrima sutil, Demonstra o claro dia que pressente...
Assim aguando o chão nos traz a vida E faz do frio intenso o reviver. Não deixe que esperança vá perdida,
Na dor que cisma agora em te afligir, É nela que talvez o renascer Não possa ter mais nada a impedir...
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Nas galerias vejo as pegadas que deixas Em forma constelar, beleza feminina Desejos te buscando invalidando queixas Num desafio insano, o corpo se alucina.
Cabelo solto ao vento, as mais belas madeixas, O gozo prenuncia; o sonho descortina A fantasia louca, intensas, raras gueixas Refletem num olhar, invadem a retina...
Teu brilho seduzindo, um jeito sensual Andando pela rua, ao invadir o astral Estrela radiante, o perfume da pele,
O gosto desta boca, o riso mais sutil, Amor igual ao nosso – eu sinto – ninguém viu Nas roupas que compraste, a nudez que revele...
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Nas frestas percorridas, nas janelas. Nos dentes que cravaste tresloucada. As bocas tão carentes e singelas Se servem desta fome acumulada...
Rígidos movimentos circulares Derramam nossos fluidos magnéticos. Viajo por eflúvios estelares Desejos mais divinos mais atléticos...
Aromas exalados sedutores Humores misturados sem ter nexo. Suores que se formam dos amores, Formando esse compósito complexo.
Depois da maratona programada, Descanso no teu colo, minha amada...
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Nas frenéticas noites que me embalam, Espero por teu braço junto aos meus... As noites que passamos já se calam, Os erros se contavam, novo adeus...
As mãos que se conhecem tanto falam, Abraços cordiais de um louva deus; Por certo sentimentos não se abalam, No fundo devorando, são ateus...
Nas frenéticas noites que passamos, Os medos nunca foram solução. Em meio a tantas camas, nos amamos,
Amores não respeitam nem o chão. Toda sinceridade que buscamos, Espalha esse veneno, coração... Marcos Loures
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Nas fortes corredeiras da alegria Eu deixo-me levar e não discuto, O amor trazendo paz a quem sofria, No canto mavioso que ora escuto Eu sinto tanta paz, farta harmonia Deixando para trás um gesto bruto.
Refém deste querer; assim me entrego, Desejo sempre ser seu prisioneiro, Outrora um andarilho em rumo cego, Agora um benfazejo caminheiro, Encontro o mar imenso em que navego Sabendo do destino alvissareiro.
Teus lábios, minha fonte de prazer, Contigo eu aprendi como viver. Marcos Loures
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Nas fornalhas queimando... Turbilhão... Os suplícios mostrados no deserto Nordestino. Batendo um coração Distante, verdadeiro, mas discreto...
Olhos esverdeados no sertão, Amor que sempre soube, peito aberto. A lua cheia brilha na amplidão! Quem dera ser feliz... O sol por teto...
Terra seca, faminta, toda nua. A vida se trancando sem ter grade. Asa branca voando...Continua.
Severinos de pia, seus degredos... Nos exílios da vida... Sol queima, arde... A sorte se perdendo pelos dedos...
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Nas folhas peroladas pela neve, Na prata que se esvai neste luar. Estrelas decadentes, vida breve, Desejos de morrer, fundo do mar...
Estrela merencória não se atreve Nas plêiades divinas, navegar. Satélites vagando... Terno, leve, Universo mergulha, devagar...
Nas explosões noturnas, meu desejo... Primitivos delírios e delícias... Nebulosas, quasares, num lampejo
Transformam ilusões neste caudal. Se fecundam, estrelas e malícias, Explodem toda a noite, em festival! Marcos Loures
40
Nas fluorescências, fascinantes noites, As sensações agrestes, contundentes, As bocas se procuram como açoites, Dormências necessárias tão urgentes...
Nas umidades tépidas, trepidam, Inundam todas fontes portentosas Desejos que se tocam e lapidam, Olores que roubamos destas rosas...
Marmóreas, tais belezas esculpidas, Deflagram emoções, luminescências Misturam-se com sonhos nossas vidas,
Profanas e soturnas inocências... Recebo o teu amor em flóreas sendas, Os meus mistérios todos, já desvendas...
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Nas flores, nos aromas, meu jardim Aguarda a mansa e doce lavradora, Dos sonhos a real decoradora Que entorne plenamente amor sem fim...
Distante do vazio de onde eu vim A força que se faz dominadora, Vertendo esta emoção de quem te adora Dizendo calmamente não ou sim.
Carreias em teus braços a minha alma Embalsamando o sonho que me acalma, Um bálsamo que busco e que me cure.
O amor que não me ofusque e que me guie Ao qual a fantasia já se alie E que, mesmo que fátuo, assim perdure...
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Nas flores que me trazem primavera Depois de um duro inverno que passamos, Valendo toda a dor da triste espera Novos caminhos livres deslumbramos.
Logrando a solidão tão dura fera Os olhos no futuro já miramos, A vida dispensando esta quimera Desde o momento em que, feliz, amamos.
Não vejo outro destino senão esse Atarmos nossos sonhos em um só. É como se de há muito já soubesse.
A vida não precisa explicação, No renascer eterno o mesmo pó Que mostra meu desejo e solução...
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Nas flamejantes luas que mergulho O sol que nos invade na manhã. Transformam cada rocha em pedregulho Tornando bem mais leve cada afã.
Os astros distraídos se encontrando Dormindo neste eclipse sagaz, Andantes cavaleiros navegando Buscando nas tormentas toda a paz.
Tu abres os teus braços, me recebes, Envolvo-te nos meus em harmonia, Penetro calmamente tuas sebes E sabes me galgar em alegria...
Nas chamas, vibrações, contigo envolto, Nosso prazer se escorre, denso, solto...
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Nas fimbrias do vestido que desnudo, Nos pátios destas casas que freqüento... Não quero teu amor, mas quero tudo, Montanha que resiste a todo vento...
E mesmo tão distante eu não me iludo, As dores que vierem eu agüento. Na cauda da ilusão/cometa grudo, E venço mansamente algum tormento,
Decerto não lamento a minha sina, Seria o que talvez prendesse ao solo, Morena delicada dando o colo,
Vontade que atormenta e me fascina. Vestindo a fantasia de palhaço Errando sutilmente cada passo... Marcos Loures
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Nas festas que sangramos, dois convivas. Nas orgias bacantes, feiticeiros. As carnes que cortamos, foram vivas, Os olhos que comemos, costumeiros...
As pernas amputadas mais altivas, Em dentes que mastigam brasileiros Durante as madrugadas sem esquivas, Os penhascos saltamos, verdadeiros...
Nesta festa dançavam velhos ogros, Devoravam crianças sempre rindo... Mortos mães, pais seus filhos e seus sogros,
A porta da desgraça sempre abrindo.. Os restos da família dei aos cães. Repartindo, solícito, tais pães!
Em homenagem às elites tão atenciosas deste País
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Nas festas que me ungiste sem caráter. Celebro um desairoso festival. A vida que se fez amiga e mater Não sabe das orgias, carnaval.
Meus sátiros delírios são profanos. Devassos os meus sonhos canibais.. Não deixo de viver os meus enganos Nem nego meus instintos animais.
Pecados e desejos misturados, Nas bocas, nas entranhas, nos desejos... Nos gozos e perfumes delicados.
O vento do desejo sopra elísio. Nas mãos que se percorrem, nos meus beijos Um brinde ao mestre e deus que é Dionísio! Marcos Loures
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Nas festas me embebedas, tanto vinho, Num momento sou rei, procuro um trono, Desvio descalabros do caminho. Procuro candelabros, perco o sono.
Brotando delirante passarinho, A vida me negou esse abandono, O cravo que me deste tem espinho A rosa que conheço, traz outono!
Mereço teus anzóis e tua rede, A porta dos meus sonhos, levadiça Amores suculentos me dão sede.
A boca amargurada se cobiça Um resto de verdade nunca mente No vinho que transtorna minha mente.... Marcos Loures
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Nas festas disfarçadas em puteiros, Organizando a velha sacanagem. Doutores, advogados, engenheiros Nas Termas companheiros de viagem...
Os dedos são tão rápidos, ligeiros, As vacas se mostrando sem pastagem, Enquanto os seus quadris são mensageiros, As bocas são perfeitas na massagem...
Errantes paspalhões compram passagem As vendas dos bilhetes costumeiros, O Amor em jogatina, que bobagem
O quarto multicor, rica paisagem, Ofertas em presentes ou dinheiros, Sonho se deslindou na pilantragem... Marcos Loures
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Nas farsas que tramamos pela vida Rondando bares, noites, aguardentes Cravando bem mais fortes nossos dentes Fechando da esperança uma saída
Soubemos encontrar doce ferida Criada pelos sonhos penitentes, Rasgando as madrugadas quais dementes, Deixando a que sonhara; em despedida.
Um pássaro que em trevas faz seu ninho, Amigos, mesma súcia, mesmo bando. Bebendo; sanguinários, todo o vinho
Que exalam os amantes descuidados, Porões de uma existência penetrando, Na trama abençoada dos pecados... Marcos Loures
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Nas faces que sorris, sempre disformes, Eólica vontade de ser leve, Palavra com partilha mesmo breve Não ouço novidades nos informes.
O quanto da querência que transformes No canto tão distante que me leve Jamais em terra alheia bebo a neve, Respeito estes fantasmas coliformes.
Amarga amiga o trâmite obedeço E peço que tu sejas meu tropeço Deitando sobre ti o que restar.
Vergastas acarinham minhas costas Nas dores e torturas que tu gostas O brilho que irradia o teu olhar...
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Ninguém lê meus sonetos, nem você Que há tanto desejei, mas nunca veio. Sem ter sequer seu nome, sonho o seio E busco em minha cama, mas cadê?
Fazendo este meu verso sem porquê, A vida vai tomando amargo veio, E quando a solidão faz seu recreio No peito de quem ama, dor se lê.
Na orada da esperança em genuflexo, Seus olhos num espelho em vão reflexo Mudando todo o tom deste poema.
Quem sabe no final eu tenha tido, Além do que mostrou meu torpe olvido, O tempo se arrastando em tal dilema... Marcos Loures
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Ninguém jamais dirá que não te amei; As nuvens que carrego; testemunhas... Nos barcos que hoje trago, me atrelei Na busca d’outros sonhos que compunhas,
(As tábuas deste amor), a dura lei... Mas quando te cravava minhas unhas; Por certo, tantas vezes eu pequei, Distante das promessas que propunhas...
Amor que dilacera morte explana, O grito da discórdia dominava. Morreu de inanição a soberana
Lua. Morte sutil e tão temprana, Saberia que aurora não chegava Nos ermos desse amor por ti Giovana!
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Ninguém irá calar a bela voz Que tantas vezes foi meu lenitivo. No sonho e na esperança sempre vivo Eternamente aqui dentro de nós.
Sabemos : todo rio morre em foz, Porém o seu cantar tão belo e altivo, Dele jamais me esqueço e nem me privo. Mesmo que toda perda seja atroz
Algumas são decerto mais doídas. Ao embalar em canto tantas vidas, Encanto que espalhava, o bom tenor,
Deixando-nos sentir tanta beleza Porém jamais se cala, com certeza Quem em vida se fez encantador...
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Ninando em nosso amor, um acalanto Que toma por inteiro e nos assalta, Se faz sem ter sequer ou entretanto, A senda mais florida já se asfalta Na busca sem descanso seca o pranto, Semeia uma alegria, sua pauta.
Não somos solitários. Solidários! Ganhamos esperanças e festejos Deixando mil rumores temerários Vencemos; com juízo, os relampejos. Cantando em liberdade quais canários Agora em nossos vôos os desejos
E sonhos de alegria, nosso afã; Uma paradisíaca maçã!
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Nestes vales prolíferos plantei Sementes que brotaram em mil flores. As vertentes auríferas que sei Nos seios rebentaram os amores.
Anseios desejosos; te cantei, Carregue meus caminhos onde fores, Nos campos olorosos semeei Não negue nossos ninhos, tantas cores...
Na chama que, te ardendo, me consome, Trama nos envolvendo a cada dia, No banquete carnal matando a fome,
Vibrando nossos corpos, convulsão... Fomentam os momentos de alegria, Causando em nossos portos, explosão...
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Nestes olhos incertos e vazios, Meus braços embalaram teu veneno... Tão distantes, absortos, olhos frios, Agonizantemente morro pleno.
Quem sabe lividezes mostram cios, Redundam dum adeus que não aceno. Perfuro teus humores, ledos fios, Inverno meus desejos, podre feno...
A campa dos segredos agoniza, Guardada por duendes e fantasmas... A vida, torpemente já graniza,
Queimando meu delírio sem delito... No peito enlameado morrem asmas, Amor não resistiu, tanto conflito...
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Nestes meus versos mórbidos, nefastos, Um resto de esperança apodrecendo.. Os vermes me passeiam, seus repastos, Solitário vivi, mal percebendo
Teu afago funéreo, teus emplastos... Se à sombra das angústias, vou vivendo. Se a sorte me negou caminhos castos. A vida vai nefasta me envolvendo...
Ri-se fantasmagórica miragem. Espelhas meus fatídicos amores... De tudo que passei, sequer imagem...
Os restos que sobraram vertem dores... Da lama que me cobre, brotam flores. As flores que apodreces, fina aragem...
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Nestes céus mais azuis, de brigadeiro, Um puro imenso gozo de alegria. Meu canto se demonstra em fevereiro O mundo passa a ser alegoria.
Amiga não se esqueça deste bem Que sempre vencerá o torpe mal, Meu peito em sintonia sempre vem Com ares de ternura e carnaval.
Guardando a castidade da ilusão De ver humanidade mais sensata, Eu sei que quem nos salva, o coração, Floresta que se planta e não desmata.
Uma amizade acima das montanhas Onde eu não vença e tu nunca me ganhas...
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Neste verso que faço, amor é dor tirana. É canto que se perde, em busca da nobreza. É vento e refrigera, abraça-se à tristeza. Matéria que tortura; é santa e é profana.
É vida em que me perco, é noite que se dana; É duvida cruel envolta em tal certeza, É força que agiganta, amansa a natureza. É confusão gentil, engana e desengana...
Amor tempestuoso, um rei mais soberano. Não me permite rumo, inverso em cada plano. Tormenta em profusão, é lua em pleno dia.
Um labirinto louco, enigma e solução. Ao mesmo tempo mata e traz a salvação. Rebelde e soberano, amor lembra Maria!
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Neste teu corpo esguio e sensual Encontro meus prazeres preferidos. Meus passos te procuram, decididos, Mergulham meu desejo colossal
Nesta escultura rara e magistral Em bronzes delicados refletidos, Dos raios do deus sol que, recebidos, Fizeram este ser fenomenal...
Tu és glória suprema da natura, Cravejada de perlas tua boca. Nas mãos a maciez de uma candura,
Nos pés delicadeza de uma santa. A vida a decifrar-te é muito pouca, Diante de beleza imensa, tanta...
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Neste teu colo brônzeo, sedutor, Preciso descansar o meu desejo De ser bem mais que simples sonhador Que quer futuro imenso onde prevejo A sorte benfazeja e decidida De ser além do amor, eternidade, Viceja a doce flor, cerrando a vida Nos braços em total felicidade... Na tua pele bela e tão trigueira, No teu sorriso mármore mais puro, De quero aqui comigo, a vida inteira, Espero poder ser o teu futuro. Amada, em raridade, minha flor, Quem dera colibri, teu beija-flor!
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Neste sol tão inclemente, Saudades do meu inverno, O fogo tal qual do inferno Atacando toda gente;
Neste lume que aparente Carinho que fosse terno, Meu medo se torna eterno Em fria chama envolvente.
Ao abafar os meus cantos, Só restando duros prantos E esse vento mais gelado.
Sem rumo, perco meu norte, Sem ilusão que suporte, Vou morrendo, apaixonado...
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Neste sol que me banha, querida, Tantas luzes, brilhando desejos. Quero estar, conhecer tua vida. Te cobrindo, uma plêiade, beijos...
Encantados caminhos de estrelas Nos conduzem ao mais belo astral. Tanto amor, é preciso contê-las Para termos o sonho, afinal.
Não consigo ficar sem teu canto, Meu encanto, meu bem, meu amor. Se, na vida, esse sol é meu manto, Derretendo em teus braços, calor.
Eu te sinto, rainha dos astros, Viverei a seguir os teus rastros...
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Neste silêncio audaz tão envolvente Rebrilhas sob os raios desta lua, A camisola branca transparente, Nesta seminudez alma flutua...
E te desejo mais e mais querida... Os teus cabelos soltos, sonho insano, Depois de ter sonhado toda a vida, Agora no teu corpo sem engano...
A boca que me molha e me tortura Deixando um belo rastro de prazer... Cavalgo nosso amor, tanta fartura Dos gozos e delírios vou colher...
E mostras quando dormes, num sorriso, A glória de viver no paraíso!
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Neste rio dourado em que se banha Desnuda totalmente uma sereia; Vontade de saltar também; tamanha A beleza por sob a lua cheia.
Neste rio de sonho, uma ilusão; Numa alegria tanta me parece, Que rola dos espaços emoção De ter essa magia em que se tece.
Teares prateados, bela lua; Formando em tantas rendas um desenho De tal grandeza que, em amor flutua; Refazem os caminhos de onde venho.
E sinto neste sonho tal desejo, Entregue neste rio, já me vejo...
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Neste quarto deserto; espelho, sombra e luz Me mostram o contraste entre o que fomos E o que penso que somos. Minha cruz Se faz bem mais pesada. Corto em gomos Os oscilantes sonhos; me confundem A cada nova noite. Interessante Perceber como às vezes me perfundem Com a tua presença, mesmo distante. Na luz bruxuleante do abajur As sombras se misturam. Mal percebo Amor como se fosse neste tour Dar e retirar tudo o que concebo. No espelho vejo as rugas à vontade Tirando, do amor, possibilidade?
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Neste quadro de avisos encontrei Recados que deixaste para mim. Nem sei se na verdade de onde eu vim Ainda era possível reino e rei
Mas tudo o que pensara; nada sei Soubesse pelo menos do estopim Aceso nesta flama. Deu cupim Na farsa que sem jeito, articulei.
Se flui e não voltei, sigo teus passos, Seria tanto ou pouco, não me importa, Escada e corrimão, mas cadê porta?
Sorrisos com certeza estão escassos E o traço principal desta jornada Recado malcriado deu em nada...
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Níveo céu: testemunha da chegada Da sílfide parceira dos meus sonhos... Asceta, minha vida simples nada. Crivado, pesadelos mais bisonhos...
Vetustos sentimentos, madrugada Sem belas diluências... Os tristonhos Ermitões solitários. Embargada A voz, retendo gritos mais medonhos...
Quero poder fluir nos teus desejos, Viver a calmaria sem rajadas. Deslizar mansamente por teus beijos.
Desfrutar deste amor, raio de lua... À noite, as harmonias já cansadas, Sentir manso prazer de quem flutua... Marcos Loures
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Ninguém! Sou o ninguém que sempre vem, Na procura insensata pelo véu Que nunca cobrirá meu doce bem, Que sempre vai morrer barco e papel...
Catedrais e fornalhas, sou ninguém. Resto sobre montanhas, sou Babel, Sou a marca indelével do desdém, Sou o tempo sem rumo, gozo e fel...
Seguindo vou no tranco, sem destino... Os astros e remansos são retóricos... Os mares, cicatrizes, perco o tino...
Saindo de mim mesmo, me rebento! Os medos que carrego vão históricos! Ninguém que me queria, vou ao vento! Marcos Loures
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Ninguém vai te querer como te quero, Por certo esta ilusão me acompanhara. Tu sabes quando amor é mais sincero Nos traz a sensação de jóia rara Que deve ser mantida a sete chaves No cofre mais recôndito, escondido, Amor que não permite estes entraves Deve com certeza ser vivido. Um anjo quase cego nos traia Dizendo que este amor não mais existe, No carrossel da sorte, o novo dia, Surgiu no amanhecer em versos triste. Mas quando a noite veio, enfim, bailamos, Nos corpos, mil incêndios, provocamos...
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Negaste nosso caso, vã mentira. Se tudo nesta vida tem seu preço, O amor jamais será um adereço Que a cada novo sonho se retira.
O mundo, disso eu sei, por certo gira Solidão não se esquece do endereço E tendo muito além do que eu mereço O tempo de sofrer, ora se expira.
No quadro das lembranças dói demais, Saber que fomos tanto e nunca mais Teremos outra chance. Sigo só.
Mas sei que tudo, aos poucos se transforma E quem faz da esperança lei e norma Retorna, novamente ao velho pó...
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Ninguém vai divisar a dor sem medos, Tampouco se negar ao doce amor Que molda com carinho tais enredos E faz brotar o sonho em cada flor.
Meus versos ao buscarem os segredos Que guardas no teu peito sonhador Deixando as dores ermas, ritos ledos, Encontram esperanças a propor
Àquela que se fez a companheira Que tantas vezes quis, mas nunca vinha, Não posso permitir que ande sozinha
Mulher com quem sonhei a vida inteira, Vem logo, meu amor, aqui se aninha Paixão que, podes crer, é verdadeira... Marcos Loures
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Ninguém saberá dessa minha dor. Disfarçada num sorriso mais gentil O certo é que perdendo teu amor, O mundo se tornou cruel e vil...
Eu sei que bem consigo te esconder O quanto precisava assim de ti. Eu temo que não possa mais viver De tanto dolorido que estou aqui...
Amada me perdoe pelos erros Que sempre cometi, não mais os trago O sol renascerá por sobre os cerros E com seus belos raios, finda estrago...
Espero, tua volta, assim te imploro. Quando ninguém me vê, de dor, eu choro...
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Neste amor fiz tantos planos, Enganosas emoções Só restaram desenganos Nos escombros, nos porões.
Se os meus erros são humanos, Esperava os teus perdões Os desejos soberanos Foram simples ilusões...
Eu não posso mais calar Minha voz em alto brado, Volve os ermos do passado
Procurando te encontrar, Não estás mais ao meu lado: Só saudade a me roçar...
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Neste álamo que beira meu caminho, Meus olhos contemplando teu futuro. O mundo que parece mais escuro Em voltas se transforma, bem mansinho.
Nos troncos destas árvores meu ninho, Pousando tanto tempo sobre o muro. Amor que me prometes, de tão puro, Embora sempre deixe mais sozinho...
Em tais vegetações busco meu mundo. Inundo meus amores de tais flores. Espero teu amor mais um segundo.
E vejo como és bela e inconstante. Não deixas que me encontre nos amores Que fazem com que queira-te, uma amante.
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Nestas ruas do Armando, no Quintana Os ares de milonga me carregam Enquanto esta vontade soberana Chamando para os sonhos que não negam
O verde da esperança refletindo As cores do Guaíba sob o sol O mundo que eu quisera bem mais lindo Encontra nos teus olhos seu farol.
Gaiteiro toca ao longe, mas buzinas De carros atravessam madrugadas Enquanto me convidas e fascinas Das noites solitárias e geladas
Eu bebo o vinho tinto em tua pele E o sonho em alegria me compele... Marcos Loures
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Nestas flóreas estradas, um regato Passeia lumbricóide entre as montanhas, Nas águas cristalinas meu retrato Distorce minhas lendas, minhas sanhas.
Ao ver caricatura eu me retrato E vejo refletidas as entranhas De quem não se mostrou, e deste fato Eu perco estas batalhas, antes ganhas.
Do quanto imaginei, ledos quebrantos, Não tenho mais a força que sonhara, Apenas a saudade inda me ampara
E traz do meu passado, tais encantos Mostrando que a minha alma, enfim perene Resguarda uma esperança que me acene...
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Nestas faíscas loucas do desejo O rumo já perdi e não me mais sei, Não teimo pois sequer mesmo eu me vejo Nem mais em sofrimento me espelhei.
Meu canto se tornou bem mais suave Sem ter as duras pedras, pedregulhos, Agora que aprendi ser como uma ave Permito-me saber destes mergulhos
E vôos sempre em busca da verdade De ser o que bem quis sem ter temor. Teu nome se traduz felicidade, Felicidade intensa, nosso amor.
Olhai como transformas, de repente, Alguém que sem amor, era indigente..
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Nestas facetas várias que amor cria Retratos de nós dois são congruentes. Sentindo na verdade o que tu sentes Persiste com certeza esta harmonia.
Velando sobre a sorte que nos guia Eu teimo em perceber bem mais contentes As tramas que se mostrem envolventes Trazendo ao coração tanta alegria.
Solidão deixada assim num canto Usando da esperança o verde manto Tornando sem tornados nossa história.
Assim depois da queda, o lenitivo, O olhar supera as trevas, segue altivo, Vislumbra no final, nossa vitória... Marcos Loures
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Nestas asas douradas quando abertas Promessas de alegria revoando Amores que prometem descobertas Aos pouco totalmente dominando.
As almas que em antanho mais desertas Já sabem do querer aonde e quando, Enquanto meu amor logo despertas, Meu peito no teu peito aterrissando.
Nós somos complementos mais perfeitos Daquilo de melhor que existe em nós Atados totalmente em fortes nós
Sabemos desfrutar destes direitos Que fazem deste amor, um bem algoz, Que deixa nossos sonhos satisfeitos...
Marcos Loures
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Nesta suavidade do teu toque A maciez necessária e desejada. Meus olhos nos teus olhos, meu enfoque Levando o pensamento a ti; amada...
Eu quero eternidade do momento Eu quero insensatez tão absoluta. Eu quero essa lerdeza, chuva e vento. Na firme decisão do movimento...
Eu quero teu sorriso em minha boca, Eu quero minha boca nos teus lábios Eu quero o paraíso... Deitar louca A mão que te procura, rumos sábios...
Eu quero teu amor deliciado, Vibrando este prazer, tão delicado...
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Nesta sonoridade de minha alma Uma alameda imensa do passado Em toda a recompensa que me acalma Senti tua presença aqui do lado, Futuro que se lia em cada palma Mostrando o que nos fora destinado...
Mas tudo se passou e nada mais Restou deste caminho que trilhamos. Percebo que te quero, amor demais, Se nada aconteceu do que sonhamos A sorte desditosa foi audaz Trazendo para nós; verdugos, amos...
Quem teve um grande amor na sua vida Percebe que sonhar não é saída...
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Nesta rede de sonhos dos teus braços Dormito nas procelas; mais tranqüilo. Sabendo que me atando em fortes laços Somente o bom da vida eu já destilo.
Nas rosas olorosas que plantaste Querida, no jardim desta paixão; Sustentas os meus sonhos, qual uma haste Perfeita nos momentos de aflição.
No deslumbrante afeto que nos ata Auroras prometidas, sol e luz. Embora em todo rio uma cascata Com calma, tua mão sempre conduz.
Amar: dar proteção e garantia Da plenitude imensa a cada dia...
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Nesta opulência plena de desejo, Desfilas pelas praias rigidez. Te seguem tantos olhos em cortejo, Vou calado, esperando a minha vez...
Nas delicadas formas me deslumbras Com toda essa certeza, te pretendo. Teus olhos vão brilhando nas penumbras As distâncias, aos poucos, vou vencendo...
No teu frescor de brisa, encantamento, Na maciez da seda, tua pele... Não posso te esquecer um só momento. Em ti vou mergulhar, amor compele.
E sinto o teu perfume inebriante. Vivendo o pleno amor, sempre constante!
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Nesta noite, ventando na janela, Espero seus abraços, mas cadê? A lua se escondendo, foge bela... Não sabe me dizer cadê você?
Respingos indicando, vem a chuva A noite se tornou tão nebulosa... Se tento levantar, a vista turva, Saudade me tortura, dolorosa...
A chuva transformada em pesadelo, Não tenho mais desculpas, sigo a sanha... O tempo me envolvendo vil novelo,
A morte demonstrando solidão! Quem dera nesta noite que me acanha, Pudesse lhe encontrar! Peço perdão! Marcos Loures
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Nesta noite tão fria e sem ninguém, O vento vai roçando os meus umbrais. Dizendo em ressonância: Nunca mais. Lembranças de Allan Poe, de novo vêm.
Vazia madrugada sem meu bem, As roupas esquecidas nos varais E as frutas se apodrecem nos quintais... A lua se escondendo mais além...
Queria ter ao menos teu perfume, A noite inda teria brilho e lume, Queixumes tão somente o que hoje faço.
Mal disfarço a agonia que me toma, Minha alma torporosa quase em coma Persegue a morte em vida, passo a passo...
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Nesta noite sombria, impertinente, As loucas primazias dum mistério... Nos passos deste errante penitente, Nostálgicos carinhos sem critério.
Ruflante coração tão inclemente, Fingindo-se feliz, estende império Buscando controlar imersa mente... Flamívomo vulcão, queima sidéreo...
Nos sóis destes amores tão bravios, Os átomos desfeitos, explosão; Recendem os contrastes destes rios,
Escalvam as florestas antes densas. Em meio a tenebrosa comoção, As noites dos amores, morrem tensas... Marcos Loures
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Nesta manhã risonha estou feliz! As dores se esconderam, nuvem leva... Quem fora da alegria um aprendiz Esquece que na noite vive a treva.
Manhã do meu amor, sempre me diz Que em peito apaixonado nunca neva. O brilho deste sol, lindo matiz, É como um pescador com boa ceva...
Nas danças destas nuvens passageiras, Meus olhos acompanham o festejo. Reflexos do rei sol nestas ribeiras!
Libélula voando... A lavra, a foice... Nos olhos regozijos do desejo! Na minha juventude, um brilho, Joice! Marcos Loures
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Nesta manhã formosa, nosso estio. Lembrando das noturnas seduções. Deitado no teu colo, penso um rio, Prazeres alagando aos borbotões...
Teu corpo tão sereno e perfumado, Nas ânsias dos desejos incontidos. Agora que me encontro apaixonado, Não tenho mais meus cantos esquecidos...
Eu quero uma ternura que me inunde, Eu quero uma certeza de prazer. Minha alma destes sonhos, sempre infunde, Vontade de jamais, ledo, morrer...
Ao longo dos meus anos de degredo, Nos braços deste amor, o meu enredo!
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Nesta interdependência prosseguimos Ímãs rimas, rumos mesmos aços. Se o fato determina quando vimos O tempo de carícias quer abraços.
No fato de em conjunto resistirmos Os olhos giramundos querem traços Ao tempo de viver nós construímos Palácios com carinhos bons, devassos.
Alcanço algum remanso no teu colo, No quanto nos rolando eu quero e embolo Nos êmbolos dos lábios, labaredas,
Esquinas decifradas beijos fartos, Travessas, travessia, estâncias; partos Enquanto paraísos enveredas... Marcos Loures
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Nesta insensata guerra que travamos Debaixo das cobertas, ofegantes Molhando estes lençóis nos devoramos Rompendo a imensidão, tão galopantes...
Na imaculada lua roubo o brilho Te oferto como prova de carinho. Seguimos o luar, tão belo trilho E rumo ao infinito, nosso ninho.
Verás como é possível ser feliz E ter a sensação de ser mais plena. Te quero e sempre mais, de novo, bis, Por certo nem a lua nos condena,
E cheia nos prepara esta festança Regada ao bom tempero da esperança!
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Nesta fonte que me dás De prazeres recheada Tua cor, rosa, lilás Em minha cama deitada.
Vencido pelo cansaço De tanto nos galopar Deitando-me no teu braço Não quero nem descansar.
E renovo minha força Bebendo deste teu lago, Saltando na cama, a corça Recebendo o teu afago.
Na fonte que mergulhei, Tanto amor que eu encontrei
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Nesta floresta densa dos desejos Perdizes encontradas, velhas presas, Aonde inda restavam vãs surpresas Apenas sem remendo, os meus lampejos.
Ferina maravilha que em tocaia Levanta com sorrisos enigmáticos, Os passos da emoção jamais são práticos Pior quando a donzela arriba a saia.
Aí é que o perigo mostra os dentes, As coxas bronzeadas, envolventes Prometem paraísos ou infernos...
A caça da pantera se completa Na refeição sublime e predileta, Mentiras em momentos falsos, ternos... Marcos Loures
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Nesta fantasmagórica paisagem, As flores espalhadas pelo chão, O resto do que fomos mata o grão, O temporal transtorna a velha aragem.
Diáfanos ruídos, má mensagem O amor já se perdeu, sem direção; O barco que procura atracação Jamais encontrará sua ancoragem.
Pérfido sorriso em ironia, Arcanas ilusões morrem depressa, O sonho que tortura me confessa
Da última esperança, uma sangria Sepulcro da alegria, este velório Traduz o nosso caso, frio, inglório...
Marcos Loures
95
Nesta escuridão plena, um resto perambula... Meu caminho está cego e nunca encontro luz, Espelho de minha alma em trevas se reluz, Quem dera se soubesse a cura. Cadê bula?
Me resta esta penumbra, minha alma deambula Por mares de tristeza. Efeito que produz O canto da saudade... enorme, minha cruz, Afortunadamente, espero que me engula
E não deixe nem sequer os ossos pro banquete Da saudade chacal. Peito é uma maquete Do mausoléu que espera a minha alma caquética!
Invoco a tempestade, um lamento terrível Ecoa em pleno vento, o som dorido, incrível, De minha decomposta alma fria, anorética!
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Neste ouro envelhecido que te veste Quem dera ser plangente violão... Austero, procurei fugir à peste Que me repete triste coração...
Nas valsas dançarinas de Trieste, Mágoas repercutindo solidão! Na chuva de asteróides vento leste, No pedestal mais alto, vou ao chão...
Neblinas e torturas cicatrizes... Procissão esperando por migalhas. As velhas prostitutas como atrizes
Falseando os prazeres e carinhos... Crepúsculos caindo qual navalhas. Envelhecidos morrem passarinhos... Marcos Loures
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Neste meu coração avarandado Pousando toda sorte de esperança. Batendo quase sempre compassado Depressa vai mudando em nova dança
No verso que trouxeste do passado Recebo este bafejo da lembrança. De um tempo que se foi acomodado Mas volta em teimosia de criança.
Andorinha voltando de viagem Tomaste o coração quase em assalto. Falar que amor morreu? Uma bobagem,
Amor não foi embora, aqui ficou Matando este meu peito tão incauto De susto; uma andorinha que voltou...
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Neste leito onde juntos mergulhamos Nos mares que sabemos serem nossos, Ao mesmo tempo loucos desejamos, Sorver todo o desejo em nossos poços;
Bebendo de nós mesmos, nos fartando, Sem medo da total insanidade E sempre do prazer que vislumbramos Chegar até o final: saciedade...
Sorrindo, nos beijarmos mansamente, Olhamos para nós fartos, felizes, Fazer um bom carinho, calmamente, Sol carinhando a lua em mim matizes...
E depois, descansando, amor em paz... Certos de que viver é bom demais!
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Neste lábio fremente e carinhoso Uma risada louca e transtornada, Os olhos revirando em pleno gozo Vontade de chorar e dar risada.
Dos teus seios escorre o puro leite Qual fora dum vulcão a quente lava, No corpo tão suado, um fino azeite Que molha e que me toca, enquanto lava.
Nas ânsias tão etéreas, amplidão, No aroma delicado de mulher Na entrega tão voraz desta paixão, Certeza de saber o que se quer.
Espasmos, contrações, rumos despertos Inundações leitosas nos desertos...
10500
Neste divã, qual diva, te enlanguesces, A musa delicada, bela e nua, Merece meus carinhos, minhas preces, Em plena serenata louvo a lua.
Na nívea claridade tua sombra, Levanta-se e se mostra calmamente, Nem medo do passado mais te assombra, Te vejo na cortina transparente.
E canto, em placidez, amor sincero, No doce madrigal, um trovador. Renasço neste canto onde venero O deus que te criou, inspirador...
A diva dos meus sonhos me sorri, E o homem mais feliz se encontra aqui!
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