
Do Ser Ridículo
Data 23/12/2010 04:32:11 | Tópico: Poemas
| “...o ridículo é como uma queimadura por dentro. Um ácido em cada momento reavivado pela memória, uma ferida infatigável”. — José Saramago, em “O Ano da Morte de Ricardo Reis” – pág.98 da edição brasileira.
Ah, o ridículo, o ridículo! Mas, o que é mesmo o ridículo?! Quantas vezes fui ridículo nesta vida, quantas! Declaro já: se as contasse pelas vezes que amei, Não há dúvida — foi uma só vez! Mas nada é simples assim; Há uma tênue película a separar O ato de coragem do ato ridículo — O medo é a chave de tudo...
O ridículo avulta [e queima] quando nos enxergamos Afrontando a obviedade das circunstâncias — Quando rimos depois de cessado o riso geral; Quando o amor se vai e nos deixa atônitos; Quando dançamos já sem música tocando; Quando a fila anda e ficamos para trás; Quando nos arvoramos em certezas esboroantes; Quando damos uma ordem que ninguém cumpre; Quando, num voo de urubu sobre nós mesmos, Perscrutamos nossos caminhos; Quando nossa alegria é vista de fora Por frios olhos neutros; Quando mais somos inocentes, isto é, Quando escrevemos um poema...
Se o rebanho pára e se ri de mim, Eu paro e escuto a música que toca Ainda dentro de minhas entranhas — Posso então tornar-me messiânico, Ou posso atirar-me num abismo; Posso devolver-lhes um riso mais alto ainda, Ou posso juntar-me, submisso, ao riso geral — Viver é tangenciar a curva escura do medo...
[Penas do Desterro, 14 de dezembro de 2008]
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